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'Mãe Só Há Uma': quando tudo o que parece sólido desmancha no ar

Muylaert monta seu espaço dramático em cenas familiares bem desenhadas e interpretadas.

Luiz Zanin Orrichio, O Estado de S.Paulo

19 Julho 2016 | 03h00

Com Mãe Só Há Uma, Anna Muylaert reafirma-se como cineasta antenada no momento histórico e dona de invejável domínio do seu meio de expressão.

Depois de fazer a sondagem das incoerências de classes no “país cordial” em Que Horas Ela Volta?, desdobra um caso real (o de Pedrinho) em indagação acerca da identidade pessoal e da afirmação de gênero. Na história, Pierre tem de enfrentar uma dupla barra pesada, em plena adolescência. Descobre que aquela que pensava ser sua mãe na verdade o roubou na maternidade. Também enfrenta a (in)definição de gênero sexual. Tudo isso enquanto deve ir morar com sua família biológica, que teima em chamá-lo de Felipe, seu nome verdadeiro, e não de Pierre, como se habituara.

Tudo aponta para a fluidez identitária contemporânea neste mundo “líquido”, segundo a terminologia de Zygmunt Bauman, raro ensaísta que consegue pensar a nossa era de falta de referências. Pierre/Felipe (otimamente interpretado por Naomi Nero) é jogado nessa indefinição quase absoluta. Perde contato com a mulher que o criara como filho e sua irmã também some no mundo. A nova família do rapaz tenta acolhê-lo, mas lhe parece opressiva. A mãe biológica (vivida por Dani Fuss, que interpreta as duas mães) lhe devota amor sufocante. O pai (Matheus Nachtergaele, show) é um machão, incapaz de compreender a ambivalência sexual do filho enfim reencontrado.

Muylaert monta seu espaço dramático em cenas familiares bem desenhadas e interpretadas. Há, claro, a presença de um elenco que faz tudo funcionar por música. Mas não se pode ignorar que são atores muito bem dirigidos e que esse rigor de mise-en-scène empresta verdade ao que se diz e ao que se faz em cena. É nesse tipo de cinema que os impasses da sociedade, da nova família e dos indivíduos encontram forma. E, portanto, podem ser pensados e sentidos.

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