Mãe brasileira de Thomas Mann é tema de filme

Não causa mais espanto saber que o escritor alemão Thomas Mann, autor de clássicos como A Montanha Mágica e Dr. Fausto, tinha uma mãe brasileira. Mas ainda surpreende saber que a ascendência tropical da família influenciou não só o Prêmio Nobel de Literatura como seu irmão Heinrich, os netos Erika e Klaus, e o bisneto Friddo. Desvendar de que forma essa influência se processou é o desafio de Marcos Strecker no documentário Julia Mann, que está em fase final de captação pela Grifa Cinematográfica e deve começar a ser rodado no início do próximo ano, no Brasil e na Alemanha.Filha de próspero imigrante alemão e de uma brasileira descendente de portugueses, Julia da Silva Bruhns Mann nasceu em Paraty, no Rio de Janeiro, em 14 de setembro de 1851. Com a morte súbita de sua mãe, em 1858, é mandada para Lübeck, na Alemanha, de onde jamais voltaria. Com boa formação cultural e gosto apurado pela música, Julia praticamente moldou o gosto de seus filhos pela arte. "A história da mãe brasileira de Thomas Mann foi muito explorada, tanto no Brasil quanto na Alemanha", aponta Strecker. "Mas sempre de uma forma superficial, quase exótica."Rosenfeld - Um dos primeiros intelectuais a tratar Julia Mann com a devida importância foi o crítico Anatol Rosenfeld, que escreveu um pequeno ensaio sobre a influência dela na obra do filho Thomas. "Ele esclareceu muitos pontos obscuros a respeito dela", conta Strecker. "Por exemplo, que ela não tinha cara de índio, como diziam algumas crônicas; contextualizou a importância de alguns mitos." Outro intelectual que mergulhou no assunto foi Vamireh Chacon. "Ele também tem textos esclarecedores sobre o papel de Julia na criação literária do flho." Os ensaios serviram como base para o roteiro que o diretor está escrevendo com João Silvério Trevisan, autor do romance Ana em Veneza, inspirado em fatos da vida dessa mulher tão fascinante e contraditória.Para Trevisan, que pesquisa a vida de Julia desde 1985, ela se sentia como uma exilada justamente por ser retratada como uma figura exótica. Esse sentimento é, de alguma forma, mimetizado por Thomas, que por estar muito à frente de seu tempo também se sentia deslocado diante do academicismo de seus críticos. "Ele vivia em permanente estado de exílio", teoriza. "Era um artista do século 20 em pleno século 19."Outra fonte de informação importante foi Julia Mann - Esboços Literários e Correspondência, organizado e financiado por seu filho Heinrich. Os textos citam sua origem e falam de suas memórias de infância. Ela lembra de episódios ocorridos na fazenda Boa Vista, em Parati, onde ela nasceu e que ainda está de pé. "Conta que ninava os filhos com uma cantiga que havia aprendido no Brasil, Molequinho do Meu Pai", diz Trevisan. "Ela escrevia a palavra molequinho com ´k´ e não sabia mais o que significava, mas lembrava da letra e da melodia."Strecker e Trevisan querem fugir da estrutura clássica do documentário. "Queremos criar uma estética específica para esse trabalho", conta o diretor. A dupla está trabalhando num roteiro que terá como modelo filmes de ficção como O Tambor, Luna Papa e Estado do Cão, em que os narradores são crianças. No caso do filme a respeito de Julia Mann, o personagem-narrador está pronto. É Dodô, apelido de Julia quando criança, um dos personagens principais de Ana em Veneza.O filme contará basicamente com entrevistas com os descendentes da família Mann, na Alemanha, e Bruhns, no Brasil. "Se houver dramatização, será muito pouco", avisa Strecker. Será rodado em Super 16 mm em São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Alemanha e Suíça. O resultante será uma série de três programas de 26 minutos, destinados à exibição em televisão, e um longa-metragem de cerca de uma hora, para percorrer os festivais.Custo - O custo total do projeto está estimado em R$ 1,1 milhão, dos quais foram captados apenas R$ 100 mil, resultantes da premiação do PIC-TV. Segundo os produtores Maurício e Fernando Dias, da Grifa Cinematográfica, o projeto foi enviado para produtores franceses e alemães. "Estamos trabalhando com a hipótese de fazer co-produções para podermos viabilizar as filmagens no exterior", diz Maurício.No projeto original está prevista a finalização em HDTV, sistema de captação em vídeo de alta definição. Será um dos primeiros filmes a contar com o recurso, que elimina a fase do copião e imprime às imagens uma qualidade muito próxima do cinema. "Tudo vai depender de como vai caminhar a captação de recursos", avisa o produtor.

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