"Madre" de Almodóvar vira atriz pornô de Agresti

Cecília Roth, a protagonista de Tudo sobre Minha Mãe, filme que deu o Oscar a Pedro Almodóvar, é a estrela de Uma Noite com Sabrina Love, atração de hoje na Semana Brasil & Independentes. Na sexta-feira, ela poderá ser vista, às 18 horas, no canal a cabo Cinemax, na pele de Alicia, mulher angustiada e viciada em cocaína, no drama espanhol Martin, Meu Filho. Seu desempenho neste filme, dirigido por Adolfo Aristarain, lhe valeu o Coral de melhor atriz no Festival de Havana. Em entrevista ao Estado, por telefone, de sua casa em Buenos Aires, Cecília, que fará 43 anos em agosto, relembra as emoções vividas em Cannes e na cerimônia do Oscar/99; fala do amigo Pedro Almodóvar; do marido, o roqueiro Fito Paes; e do filho, Martin. E anuncia seus próximos trabalhos, assinados por Fito Paes, Fernando Solanas e Antonio Serrano.Você foi capa da revista Cahiers du Cinéma, por causa do sucesso planetário de "Tudo sobre Minha Mãe". Você e a brasileira Rosa Maria Penna (por "Antônio das Mortes", de Gláuber) são as únicas atrizes latino-americanas a encapar a mitológica revista francesa. O que isto significa para você?Significa muito, porque, para mim, a Cahiers du Cinéma é realmente uma revista mitológica. Guardei meu exemplar com todo o carinho do mundo. Mas quero registrar que a honra de estar na capa da revista não é só minha. É de Almodóvar, que fez um filme maravilhoso, e de minha amiga Marisa Paredes, que também está na imagem que se tornou o símbolo de Tudo sobre Minha Mãe. Os editores da revista optaram por um close no cartaz do filme, que traz o rosto de Marisa, protagonista da peça Um Bonde Chamado Desejo, e pela minha imagem, com sobretudo vermelho e sombrinha colorida. Nós duas ficamos muito felizes com o destaque dado ao filme e ao nosso trabalho. Eu não sabia que eram tão raras as latino-americanas serem capas da revista. Mais um motivo para nos orgulharmos, não é? Depois do triunfo em Cannes/99, "Tudo sobre Minha Mãe" foi lançado no mundo inteiro e dez meses depois ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro. Você estava na cerimônia da academia?Estava em Cannes (Almodóvar ganhou a Palma de Ouro pela melhor direção) e na festa da academia ao lado dele e de meus colegas de elenco. Foi uma emoção muito grande. Respirei fundo e o que me veio à cabeça foi um sentimento de que tínhamos de saber manejar tudo que estava acontecendo conosco. Precisávamos de equilíbrio. Hoje, tenho o prazer de recordar aqueles momentos, e, confesso, a recordação é assustadora e, ao mesmo tempo, maravilhosa.O sucesso de "Tudo sobre Minha Mãe" afastou diretores e pequenos produtores de você? Hoje temem procurá-la, pensando que seu cachê seja muito alto? (Risos) Não sei se afastou. Se algum produtor, por mais modesto que seja, teme me procurar por causa de cachê alto, peço-lhe que não se iniba. Se o roteiro for bom e a personagem me apaixonar, o dinheiro fica em segundo plano. Escolho meus papéis pela paixão que o projeto me desperta. Meus critérios são mais artísticos que econômicos.Você fez dois filmes depois de "Tudo sobre Minha Mãe": o espanhol "Segunda Piel", com Javier Bardem, e "Uma Noite com Sabrina Love", de Alejandro Agresti. E deve protagonizar "Afrodite", de Fernando Solanas. Sua carreira vai de vento em popa, não? Depois que terminei Tudo sobre Minha Mãe, passei alguns meses me dedicando a meu filho, Martin, experimentando o prazer da maternidade. Em seguida, fiz participação especial em Segunda Piel (Gerardo Vera), depois Sabrina Love, com Agresti; Antigua Vida Mia, de Hector Olivera, e semana passada terminamos Vidas Privadas, que Fito Paes, meu companheiro, dirigiu, e que produzimos juntos. Nosso filme entra agora em fase de pós-produção de som e música, na Espanha. Em Vidas Privadas, divido os principais papéis com um jovem muito "guapo" (bonito), que é o Gael García Bernal. Vocês o conhecem?Sim, pois "Amores Perros", que o tem em seu elenco, representou o México na festa do Oscar, e está em cartaz em São Paulo. Mas voltando à sua experiência artística e real com a maternidade: quando nasceu seu filho?No dia 24 de maio de 1999. Acabamos de comemorar o segundo aniversário dele, que se chama Martin e está aqui, maravilhoso, em volta de mim. Martin é nossa maior alegria. Minha e de Fito.Então você foi a Cannes grávida?Não. Martin é uma criança que, diferente das outras, foi recebida pelo pai. Fito a buscou no hospital. Nós a adotamos, para nossa felicidade. Seu casamento com o roqueiro Fito Paes é tão recente quanto a parceria cinematográfica que acabam de realizar? O casamento de papel passado sim. Ocorreu há um ano e meio. Mas nossa paixão já dura dez anos. Nos conhecemos em 91 e brotou ali, à primeira vista, paixão fulminante. Deixei um casamento de oito meses para viver com ele. Creio que nascemos um para o outro e que ele é o homem da minha vida. Nossas profissões nos deixam um distante do outro. Ele está sempre excursionando com seus shows e eu filmando em vários países. Cada reencontro é motivo para uma nova lua-de-mel. Voltando aos filmes. Depois de "Vidas Privadas" você faz Afrodite, com Solanas, e descansa? Este ano será difícil descansar. Em agosto e setembro filmamos Afrodite. Descanso algumas semanas para, em seguida, atuar em La Hija del Canibal, adaptação de um romance de Rosa Montero. O filme será dirigido por Antonio Serrano, autor de Sexo, Pudor e Lágrimas, umas das maiores bilheterias da história do cinema mexicano. Claro que todo tempo que me sobrar será dedicado à divulgação de Vidas Privadas, pois, trata-se (risos) de prata da casa. Você prefere trabalhar em filmes argentinos e espanhóis, portanto falados em sua língua materna, ou está aberta a projetos em outros idiomas? Recebi alguns convites norte-americanos, dois para ser exata. Os roteiros não me apaixonaram na medida ideal, nem as datas se encaixaram. Mas não excluo produções fora da língua espanhola. Se o projeto for apaixonante, abraço-o com ardor. Afrodite, que "Pino" Solanas fará a partir do romance de Isabel Allende, terá partes faladas em inglês, pois no elenco, além de minha grande amiga Marisa Paredes, está o irlandês Stephen Rea (de Traídos pelo Desejo). Mas, claro, não vou negar que meu maior prazer é atuar em filmes falados em espanhol e que tenham a ver com minha raiz.Há dúvida quanto à sua nacionalidade. Você é argentina? Por que iniciou carreira na Espanha? E logo nos filmes do Almodóvar dos "anos loucos"? Você é filha de diplomatas? Ou seus pais foram exilados? Nasci em Buenos Aires e lá vivi até os 17 anos. Meu pai, que trabalhava no jornal La Opinión, mudou-se com a família para a Espanha, em 1976, quando do triunfo do golpe militar. O jornal foi vítima de dura perseguição. Meus pais e meu irmão continuam vivendo em Madri. Depois de iniciar minha carreira na Espanha e trabalhar em três filmes de Almodóvar (Pepi, Luci, Bom; Labirinto de Paixões; e Entre Tenieblas), resolvi voltar à Argentina. Isso foi em 1986, exatamente dez anos depois. Senti saudade do aroma de Buenos Aires, dos lugares da minha infância e adolescência. Hoje vivo entre Buenos Aires e Madri. Como foi seu trabalho com Alejandro Agresti em "Sabrina Love"? Que diretores argentinos a desafiam? Com quais gostaria de trabalhar? Trabalhar com Agresti foi maravilhoso e muito divertido. A atriz pornô Sabrina Love é um presente para qualquer intérprete. Nosso trabalho foi muito noturno e bem diferente de tudo que eu vinha fazendo, em especial nos últimos anos, com Aristarain e mesmo com Almodóvar. Mas Sabrina tem um pouco a ver com as personagens dos primeiros filmes que fiz com Almodóvar. Quanto aos diretores argentinos com quem gostaria de trabalhar são muitos. Agora que vou atuar num filme de "Pino" Solanas, posso dizer, com muito alegria, que tive o prazer de ser dirigida pelos "clássicos" do cinema argentino: Solanas, Hector Olivera, Aristarain. Trabalhei com dois grandes diretores da geração seguinte, Marcelo Piñero e Agresti. Agora aguardo convites dos mais jovens. Há um time de novos na Argentina de imenso talento. Cito Lucrécia Martel, que ganhou o prêmio de diretora estreante em Berlim, meses atrás, com La Ciénaga (O Pântano); Bruno Stagnaro e Israel Caetano (a dupla de Pizza, Birra y Faso), entre muitos outros. Aguardo convite deles. E, claro, acabo de atuar sob a direção de Fito Paes. Num de seus filmes mais famosos, Martin H (Martin, Meu Filho), você interpreta uma montadora de cinema viciada em droga, deprimida e suicida. Um desafio para qualquer atriz. E, ainda por cima, Aristarain & Saavedra, os roteiristas, deram aos personagens imensos diálogos para memorizar. Foi complicado enfrentar essa personagem? Foi uma barra muito pesada. Muita gente, jornalistas em especial, nos perguntavam se nós, os atores - Federico Luppi, Eliseo Poncella e eu -, tínhamos improvisado muito durante as filmagens. Nunca improvisamos, respondíamos. Aristarain não permite improvisações. Ator de filme dele chega ao set com os diálogos na ponta da língua, ensaiados até a exaustão, sem mudar uma vírgula. Minha personagem no filme é tensa, angustiada, sofrida, terminal mesmo, a ponto de recorrer ao suicídio. Quando filmamos em Madri e na Almeria (Espanha), me senti muito só. Fito estava excursionando pelo mundo e, à noite, depois de filmar seqüências exaustivas, sentia falta dele e da nossa casa. Claro que Aristarain e os colegas de elenco me ajudaram muito. Mas é meu personagem mais sofrido, o mais dramático. Mesmo assim valeu a pena, pois foi reconhecido pelo público e pelos críticos (ela ganhou o Coral de melhor atriz em Havana/97). O que Almodóvar significa na sua vida profissional? Almodóvar é mais que um amigo. É um irmão. Nos conhecemos logo que cheguei a Madri, em 76/77. Foi amizade à primeira vista. Nos envolvemos muito, nos enamoramos, nos irmanamos. Ele é um referente muito importante não só no meu trabalho, mas principalmente na minha vida. Fico felicíssima em ver o mundo reconhecendo o talento dele. Vivemos juntos duas fases. A primeira, louquíssima, na Madri pós-franquismo, com a "movida espanõla" (onda de agitação cultural que varreu Madri na década de 80). Fiz participações pequenas em Pepi, Luci, Bom e Maus Hábitos (Entre Tenieblas) e papel significativo em Labirinto de Paixões. Nosso reencontro cinematográfico se deu 15 anos depois, quando realizamos Tudo sobre Minha Mãe. Aí foi o encontro da maturidade. Ambos já não éramos mais os jovens loucos do começo dos anos 80. O Almodóvar e a Cecília que fizeram Tudo sobre Minha Mãe eram pessoas mais serenas e de tal forma irmanadas, que eu falava pela boca dele e ele pela minha. Somos como "pegote" (emplastro), entende?

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