Madonna ofende, apanha e ama em novo filme

Para Madonna e seu marido, o cineasta inglês Guy Ritchie, a música está saindo um pouquinho diferente daquele infame funk brasileiro que invadiu as pistas européias e foi cantado até, sob vaias, por Caetano Veloso. Sim, um tapinha dói. E muitos tabefes podem causar um rebuliço em Hollywood. Foi essa a constatação que o casal chegou em meados deste ano, quando apresentou a um público-teste em Londres, o longa-metragem Swept Away, que marca a primeira colaboração para a grande tela entre "marido-cineasta e esposa-atriz-popstar".Ao tabularem a resposta do público que conferiu o filme, o ânimo do casal e dos produtores arrefeceu: as cenas de Madonna numa ilha deserta, apanhando de um marinheiro sem modos, foram demais. Ou como Guy Ritchie explica em entrevista para a nova edição da revista Vanity Fair: "No cinema, você pode matar quantas pessoas quiser, mas que não esbofeteie nenhum passarinho."Sim, a tenaz gaviã da polêmica está de volta. No dia 11, chega aos cinemas americanos o novo filme de Madonna, o já problemático Swept Away (no Brasil, a Columbia Pictures aponta o lançamento do título para 20 de dezembro).Refilmagem da produção italiana Por um Destino Insólito (Travolti da un Insolito Destino nell´Azzurro Mare d´Agosto), dirigido pela cineasta Lina Wertmuller em 1974, Swept Away conta a história de uma socialite arrogante que, durante um fim de semana no iate do marido, dono de um conglomerado farmacêutico, se perde numa ilha deserta com o marinheiro que ela execra e que havia maltratado durante toda a viagem.Numa ilha do Mediterrâneo, Amber (papel originado pela outrora bela Mariangela Melato e agora refeito por Madonna) perde a panca de prima-dona e aprende a ser subalterna ao marinheiro comunista Giuseppe (feito por Giancarlo Giannini e agora recriado por seu filho, Adriano Giannini). A cineasta Lina Wertmuller procurava, com seu filme original, fazer uma parábola sobre a luta de classes sociais. A socialite, assim, é xingada, fisicamente maltratada e até vítima de um ato sexual que começa com violência e acaba com o consentimento dela. No fim do seu processo de dominação e de ter sucumbido ao proletariado, Mariangela gritava a célebre frase: "Sodomizza Mi!"Na atualização de Ritchie, de olho nos censores, nem a célebre frase, as cenas de nudez e nem todas as porradas levadas por Mariangela Melato conseguiram sobreviver. "Usei apenas um quarto de toda a violência que ela (Lina Wertmuller) conseguiu incluir no filme original, e, mesmo assim, o público atual não conseguiu ter estômago para isso", explicou Ritchie.Madonna, entretanto, continua levando uns cascudos na tela e, em sua fase pré-dominação, distribui comentários raciais politicamente incorretos e deixa claro seu posicionamento político pela extrema direita.O projeto de Swept Away nasceu de uma sugestão de um amigo comum de Madonna e Ritchie, Steven Weber. Depois de ver o curta que Ritchie filmou com Madonna para a série da BMW na Internet (que incluiu também curtas de cineastas como John Frankenheimer, Ang Lee e Alejandro González Iñárritu), Weber achou que ele tinha a atmosfera do filme de Lina e que este deveria ser conferido pelo casal. "Assim que terminamos de ver o filme, disse para Madonna que alguém tinha de fazer um remake e ela respondeu: ´Por que não nós?´", disse Ritchie.Madonna, é claro, tem uma versão mais "apetitosa", conforme declaração que deu à revista Vanity Fair de outubro. A popstar conta que assistiu pela primeira vez ao filme original da italiana Lina durante os 18 meses que estudou na Universidade de Michigan e época em que estava "mergulhada no universo dos filmes de Visconti, Pasolini e Buñuel".Ao rever o filme ao lado do marido, Madonna teve de testar sua paciência. "Guy tem uma tendência de gostar de filmes de ação que são bem feitos, apesar de roteiros caretinhas. Filmes de rapazes", disse a atriz. "Eu tendo a gostar mais do que ele chama de ´onanismo-artístico´, filmes independentes de arte", continua. "Não consigo que ele pare para assistir a um Fellini comigo." E continua: "Ao vermos Por um Destino Insólito, Guy só foi se interessar pelo filme depois de passados 20 minutos. Ele disse que não agüentava mais, pois o filme era muito complicado e as legendas estavam lhe dando dor de cabeça. Mas assim que os atores chegaram à ilha deserta, ele se interessou."Ritchie explica que decidiu atualizar o filme de Lina imbuído de um espírito de teimosia. "A razão termos feito o filme é que a maioria das pessoas diziam que Por um Destino Insólito não poderia ser refeito, especialmente por estarmos vivendo sob um clima tão politicamente correto", disse o cineasta, que rodou a produção durante dois meses em Malta e Sardenha.Contradizendo a rebeldia do marido, Madonna revelou que as cenas de sexo e nudez no filme foram limitadas por auto-censura do próprio Ritchie. "Não tenho problema nenhum com cenas de sexo", disse a popstar. "Mas meu marido não as quis rodar." Guy Ritchie rebate, dizendo que não gosta de ver a mulher "com outra pessoa na tela".O ator Adriano Giannini, que doma Madonna nas areias do Mediterrâneo, tinha apenas três meses de idade quando Lina Wertmuller filmou o original com seu pai. E ele era adolescente quando Madonna estourou na paradas musicais. "Foi muito surreal ter de bater numa pessoa que cresci gostando e ouvindo muito", disse o jovem Giannini, de 24 anos.Além dos cortes que precisou fazer, Ritchie teve problemas com o título que havia cunhado para o filme: Love, Sex, Drugs and Money. Swept Away, título que a versão original ganhou nos EUA em 1974, foi mantido. Sobre as inúmeras especulações negativas de que o filme andou sendo vítima na internet, o casal comenta: "O filme é o que é", dispara Ritchie. Já Madonna diz: "Gostaria que as pessoas se divertissem como minha nova produção. Mas não vou cortar meus pulsos se elas não gostarem."

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