"Madame Satã": aplausos e polêmicas em Cannes

Houve um momento em que Karim Ainouz pensou ter perdido seu filmee, com ele, o distribuidor francês de Madame Satã. Ele credita o fato a um erro grave contido no dossiê de imprensa do filme exibido fora de concurso aqui em Cannes, na mostra Un Certain Regard. Diz lá que Madame Satã conta a história de um super-herói brasileiro. Não há super-herói, não há nem mesmo o mito do maior malandro da Lapa. Madame Satã conta a história de José Francisco dos Santos antes de virar mito. Ainouz credita a isso certa perplexidade com que o filme foi recebido.Foram muitos, intensos, os aplausos na noite da exibição oficial, mas numacrítica um tanto restritita a Variety condenou Madame Satã ao circuito gay. É o que preocupa Ainouz. Ele não fez um filme gay. Madame Satã conta a história de um negro pobre e gay que vira assassino. Não é um personagem de fácil aceitação e o filme contém cenas de homossexualismo, como beijos na boca e pegação, no limite do explícito. Tudo isso é necessário para a construção do drama, mas para Ainouz o que interessa é o social.Ele acha que seu filme e o de Fernando Meirelles, Cidade de Deus, formaram um díptico aqui em Cannes. São diferentes em tudo, ou quase tudo, mas tratam de violência e marginalidade no Brasil, colocam na tela as novas faces negras do País. "Ontem eu estava aqui dando entrevistando, me virei e vi cinco atores negros brasileiros: os dois do meu filme e os três do Fernando. Acho isso maravilhoso, essa exposição que a gente está tendo aqui, não só nós, mas eles, o cinema brasileiro."Mas Ainouz acha que ligar os dois filmes, colocar um contra o outro, comomuitos críticos nacionais e estrangeiros estão fazendo, pode serprejudicial a ambos. Foi ver Madame Satã na sessão oficial e surpreendeu-se com aquela visão de um universo sujo como o da Lapa, na primeira metade do século passado. "E fui eu que criei aquela podridão, não porque queria, mas porque era necessária para o personagem." Um personagem que fascina Ainouz há muito tempo. Madame Satã conta, para o diretor, uma história de resistência, de afirmação da negritude, de aceitação da própria diferença. "O fato de ser gay não me torna menos homem", grita João Francisco, o ótimo Lázaro Ramos, quando sai no braço com outro malandro.Um crítico da Suécia entendeu direitinho o que ele queria dizer com o filme. Madame Satã foi comprado para a Hungria e os críticos húngaros presentes ao festival o adoraram. O distribuidor francês, indiferente à polêmica - o convite para a sessão oficial trazia a advertência: este filme contém cenas que poderão chocar -, não desistiu de apoiar o diretor. Sua preocupação, porém, é o Brasil. Seu público alvo é o brasileiro. Ele acha que, num outro contexto, com outras características, reata com uma tradição de cinema social que tem origem no Cinema Novo, que ama, tanto faz que seja o cinema do sertão, de Gláuber e Nelson Pereira dos Santos, quanto as vertentes mais urbanas do movimento que desembocaram no cinema marginal e no udigrudi.Ainouz é um sujeito doce. Filho de mãe cearense e pai argelino, viveu muito tempo nos EUA. O pai voltou para a Argélia, ele foi criado pela mãe. Reencontrou o pai só quando já tinha 18 anos, na França. De onde vem esse seu conhecimento da podridão retratada em Madame Satã? "Digamos que eu já vivi uma longa vida", diz. E corrige: "Vivo." O filme é dedicado a três mulheres: Iracema, a mãe do diretor, Branca, sua avó, e Helena, a babá que o criou (e já morreu). "Minhas três mães", diz Ainouz. Só o fato de dedicar Madame Satã a elas diz alguma coisa sobre o filme que ele sabe ter feito.

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