"Macunaíma" vira ícone da restauração digital

Macunaíma, o romance ícone da moderna literatura brasileira, que Mário de Andrade (1893-1945) escreveu durante seis dias de trabalho ininterrupto, durante umas férias de fim de ano, em dezembro de 1926, ainda está dando o que falar. Aponta para a última palavra em restauração digital de filmes, com a cópia restaurada pela TeleImage, do filme dirigido em 1969 por Joaquim Pedro de Andrade (1932-1988) que também restaurou as imagens usadas no documentário Pelé Eterno. "Eles ficaram impressionados em Cannes", afirmou o presidente da TeleImage, Patrick Siaretta, sobre a estréia da cópia restaurada de Macunaíma no festival francês, em maio. "Não imaginavam que conseguíssemos fazer um trabalho desse no Brasil." A divisão de restauração digital de filmes da TeleImage funciona 24 horas por dia, com 55 pessoas dividas em três turnos. O trabalho combina técnica e arte, com boa dose de paciência. O filme a ser recuperado é escaneado e cada um dos seus quadros (são 24 por segundo) são transformados em imagens digitais. Um software especial tira a maior parte da sujeira. Depois, cada quadro é retocado manualmente, no computador. "Nas cenas de Pelé Eterno, o software apagava a bola de futebol, achando que fosse sujeira", contou Siaretta. "O sistema automático ainda não é perfeito." Mesmo com todos os recursos da tecnologia digital, o trabalho de restauração demora a dar resultados. Um minuto de filme recuperado equivale a duas horas de esforço na frente do computador. Macunaíma foi o resultado de cinco meses de trabalho. "É muito gratificante ver um filme que estava detonadinho ficar lindinho de novo", afirmou Geisa Brait, de 29 anos, que trabalha na restauração de filmes no turno das 16 às 24 horas. "Dá orgulho." Na semana passada, ele trabalhava na recuperação de fotogramas de Brasília: Contradições de uma Cidade Nova, documentário de Joaquim Pedro de Andrade, de 1968. Depois de restaurado, o filme é armazenado em fitas digitais de 500 gigabytes, que armazenam cerca de 30 minutos. Para se ter uma idéia do que significa essa capacidade, se o conteúdo da fita fosse transmitido via internet discada, levaria mais de 100 dias. A qualidade é suficiente para qualquer tipo de mídia: televisão de alta definição, DVD, cinema digital ou convencional. Também é feita uma cópia em filme de 35 milímetros. A TeleImage negocia contratos na Europa para recuperar digitalmente dois filmes de longa-metragem para uma empresa francesa. Os contatos para a exportação foram feitos em Cannes e a empresa vai enviar, nos próximos dias, o orçamento para seu possível cliente no exterior. Trabalho - O potencial de mercado é grande. A TeleImage trabalha hoje na restauração das filmografias de Joaquim Pedro de Andrade e de Cacá Diegues. No caso de Cacá Diegues, a restauração de 14 filmes custará R$ 9 milhões. É mais do que o orçamento médio de um longa- metragem brasileiro, por volta de R$ 5 milhões. "Pode parecer bastante, mas, para restaurar O Grande Ditador, de Charlie Chaplin, foram aplicados US$ 50 milhões", afirmou Siaretta. O executivo explica que o mercado de exibição e de DVDs ainda não são suficientes para sustentar financeiramente a restauração dos filmes e, por isso, é essencial o apoio de empresas. Para a obra de Diegues, o patrocínio ainda não foi fechado. A TeleImage é parceira do diretor no projeto e ganhará um porcentual das vendas no Brasil e no exterior. "Existe interesse mundial pelos filmes, até para passar novamente em cinema, na Europa e no Japão", contou Siaretta. A restauração dos filmes de Joaquim Pedro tem apoio da BR, distribuidora de combustíveis da Petrobrás. A TeleImage também vai recuperar a obra da família Civelli, que aguarda patrocínio. Os fotogramas do filme É um Caso de Polícia, dirigido por Carla Civelli em 1959, com imagens históricas do Rio de Janeiro, já foram entregues à empresa. Outro filme que espera para ser recuperado é O Craque, realizado por Mário Civelli em 1954, que conta a história de um jogador do Corinthians e mostra como era a cidade de São Paulo há 50 anos.

Agencia Estado,

25 de agosto de 2004 | 20h08

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