‘Ma Loute’, o humor excêntrico de Bruno Dumont diverte Cannes

No longa em competição, família de canibais come turistas; novo Ken Loach, muito aplaudido, também foi exibido no festival

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2016 | 05h00

CANNES - Havia grande expectativa pelo novo filme de Bruno Dumont. Depois que Le P’tit Quinquin foi recusado na seleção oficial e estourou na Quinzena dos Realizadores, tudo o que Cannes não queria era repetir o erro. Ma Loute está na competição deste ano. E já estreou nos cinemas franceses, simultaneamente com a apresentação no festival. Revistas como Cahiers du Cinéma e Positif, tradicionalmente rivais, irmanaram-se nos elogios. Vai nisso um exagero. A nova comédia policial de Dumont repete em muita coisa a anterior. É bem construída, um humor que deveria funcionar como reloginho – mas não funciona.

Muita gente quase enfartou rindo, na sessão de imprensa. Por que riam tanto? Um tênue sorriso, de vez em quando, seria suficiente. Ma Loute passa-se numa baía do Norte da França, em 1910. Os grandes burgueses chegam da cidade para as férias anuais. O lugar está em polvorosa, invadido por policiais. Pessoas (turistas) estão desaparecendo. Existe essa família de pescadores – Ma Loute é o nome do filho, seu pai, a mãe, os três irmãos menores. São canibais, estão comendo os turistas. Dumont mantém sua fama de humor excêntrico, acrescenta o fantástico. Tem gente que voa no filme e uma garota que é garoto. Essa confusão de gênero, mais de um século atrás, perturba Ma Loute e talvez seja o mais interessante do filme – mais que a caricatura que Dumont, com a cumplicidade de Fabrice Luchini, Valeria Bruni-Tedeschi e Juliette Binoche, faz da burguesia.

Decepção aqui, surpresa ali. Na quinta à noite, 12, na abertura da Quinzena dos Realizadores – com o belo Fai Bei Sogni, de Marco Bellocchio –, um representante da Sociedade dos Realizadores, madrinha da seção, foi vaiado ao clamar (no deserto) contra o desemprego de profissionais do cinema na França. Justamente o desemprego está no centro do novo Ken Loach, I, Daniel Blake, exibido na sexta, 13. O filme é sobre um sexagenário que vive uma situação surreal. Com problemas no coração, não pode voltar ao trabalho, porque o médico não autoriza, mas não tem direito a seguro porque a encarregada de sua inspeção o considera apto. Para complicar, é inepto com as novas ferramentas da internet na hora de preencher requerimentos. Daniel liga-se – sem sexo – a uma mãe solteira de dois filhos, que também não consegue colocação e termina se prostituindo. Não é de hoje que parte da crítica considera Loach um velho esquerdista que perdeu o trem da modernidade. A luta de Dan é para mostrar que não é lixo e que, como cidadão, merece respeito. A surpresa – dessa vez, a plateia ovacionou. I, Daniel Blake foi o filme mais aplaudido até agora.

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