Lynch mostra em Veneza o belo e estranho "Inland Empire"

Ao final dos 172 minutos de"Inland Empire", o público do 63.º Festival de Veneza nemaplaudiu nem vaiou. Permaneceu um bom minuto sentado, quietinho,tentando entender o que havia visto na tela. Não é mesmo fácil.Em seu novo filme, captado inteiramente em digital, David Lynch,o cineasta cult de "Veludo Azul" e "Twin Peaks", faz questão dedeixar a platéia como em outro de seus filmes, numa "EstradaPerdida". De compreensão difícil? Verdade, mas isso não impedeque "Inland Empire" seja acima de tudo um trabalho belíssimo,tocante em alguns pontos, cheio de mistérios e reviravoltas. Emsuma, grande cinema, embora o público tradicional o ache muitoestranho. E não apenas o público. Alguns jornalistas saíramperplexos da sessão, que começou às 8h30 e se estendeu até quaseo meio-dia. Na entrevista, um deles perguntou logo de saída doque tratava o filme. De excelente humor, David Lynch limitou-sea responder: "Acho que isso é claríssimo." Mais específico,disse que o encanto do cinema era exatamente esse, o de permitirque o espectador entre em um mundo onde ele não sabe o que podeacontecer. Compra um ingresso para o imprevisível. Como entender esse tipo de cinema? Lynch aconselha: "Nãose intimide; use a intuição; deixe-se levar e lembre-se de que ocinema vai além das palavras. Esse é o problema das entrevistas:queremos reduzir um filme a uma explicação e isso o empobrece. Opúblico deve entrar numa sala de cinema com a mesma disposiçãode quem vai ouvir música num auditório. Busquem a experiência,não o sentido." São boas dicas. O problema é que o cinema, na visãotradicional, é uma arte narrativa (ainda derivada da literaturae do teatro do século 19) e por isso cria no público aexpectativa de um sentido fácil, assimilável. E não é que elevai se encontrar nessa "história" (e ponha aspas nisso)interpretada entre outros por Laura Dern e Jeremy Irons. Laura faz o papel de uma atriz, convidada a trabalharnum filme que, ela descobre em seguida, é o remake de outrofilme, inacabado pois os protagonistas foram assassinadosdurante o trabalho. Já se vê que "Inland Empire" anda (também)na fronteira entre a realidade e a ficção, assim como no limiteentre o sonho e a vigília. Onde um, onde outra? Velha questão que os mais experientes conhecem deCalderón de La Barca e Lao-Tsé. Enfim, nada é seguro nessaexperiência inquietante de "Inland Empire", que nos deixa com osolhos pregados na tela por quase três horas, e nos faz sentircomo na corda bamba. Sem rede de segurança. Uma experiênciaestética e tanto, acreditem. Mais três longas foram exibidos na mostra competitivaprincipal do festival que termina sábado: o chinês "SanxiaHaoren", de Jia Zhang-ke, o russo "Euphoria", de Ivan Vyrpaev, eo também chinês (de Hong Kong) "Exiled", de Johnnie To. De longe, mas de muito longe, o melhor deles é o deZhang-ke, que está em Veneza também na seção Horizontes com odocumentário "Dong" (sobre um artista plástico) e já viroufigurinha carimbada aqui no Lido com dois belos filmes emmostras anteriores: "Plataforma" e "O Mundo". Em "Sanxia Haoren" que os italianos traduziram por "L?Anima Buona delle Tre Gole"e os americanos por "Still Life", temos, de fato, a ambientaçãono local onde uma grande barragem foi construída - e eles achamam de "três gargantas". Um dos personagens volta para o seuvilarejo, que ele abandonara havia 16 anos, e descobre que foraengolido pelas águas. A vida parada do interior deixou deexistir. Com atores não profissionais, forte cor documental,fala do preço da modernização na vida do interior chinês. Filmeforte, no limite do excepcional.

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