Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Lygia Fagundes Telles seleciona 14 títulos para programação da Cinemateca Brasileira

Escritora de 96 anos já foi presidente da instituição em 1977

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

12 de fevereiro de 2020 | 06h00

Casada com Paulo Emílio Salles Gomes, um dos mais importantes críticos brasileiros - com projeção internacional, graças a seu livro clássico sobre o francês Jean Vigo -, Lygia Fagundes Telles integrou o Conselho e presidiu a Cinemateca Brasileira em 1977, após a morte do marido. Seus créditos no cinema incluem os diálogos de Capitu, a adaptação por Paulo César Saraceni do romance Dom Casmurro. Reescrever diálogos de Machado de Assis não é pouca coisa, mas se há uma coisa que não se podia duvidar era da qualificação de Lygia. Sua grande literatura ainda estava por vir - Antes do Baile Verde, As Meninas -, os grandes prêmios, idem. Lygia ganhou o Camões, quatro Jabutis, entrou para a Academia Brasileira de Letras. Quando Capitu foi feito, no mítico 68, estava com 45 anos.

Agora, com 96, Lygia recebe a homenagem da instituição à qual serviu e que lhe outorgou carta-branca para escolher os filmes que compõem a programação de uma mostra que começa nesta quinta, 13, na Cinemateca, devendo prosseguir até 23. São 14 títulos, todos clássicos, e que promovem um verdadeiro passeio pelo cinema internacional. Os ingressos são gratuitos e deverão ser retirados no local, com uma hora de antecedência. 

Para o primeiro dia foram selecionados Cantando na Chuva, o energético musical de Stanley Donen e Gene Kelly, e Cidadão Kane, de (e com) Orson Welles. Cantando passa-se na transição do cinema silencioso para o sonoro, quando muitos astros e estrelas viram a carreira ruir por causa da voz. Na ficção cantada e dançada, a estrela (Jean Hagen) tem aquilo que se poderia chamar de voz de taquara rachada. Uma dubladora é providenciada, e é a mocinha da história - os personagens de Kelly e Donald O’Connor farão de tudo para tirá-la do anonimato.

Tornaram-se clássicos os números com Kelly (Singin’ in the Rain), O’Connor (Make ‘Em Laugh) e Cyd Charisse, cujas pernas, consideradas as mais belas do cinema, coreografam a homenagem dos autores ao filme noir. O espectador inebriado com a torrente de felicidade que Cantando na Chuva provoca ingressa, em seguida, no universo mais sombrio de Charles Foster Kane, em Cidadão Kane. Logo na abertura, o personagem, isolado em sua mansão de Xanadu, morre após pronunciar uma única palavra - ‘Rosebud’. A busca pelo significado da palavra leva a uma investigação que mostra um retrato multifacetado de Kane, segundo diferentes pontos de vista. A solução do enigma vem no desfecho psicanalítico. Welles, com 25 anos e estreando no cinema em 1941, quebrou as regras narrativas da época e estabeleceu novas, como o campo total, a dissociação entre imagem e som e a alteração das dimensões do cenário para efeito dramático (mas isso os expressionistas já faziam nos anos 1920). Cidadão Kane, por décadas considerado o melhor filme de todos os tempos, recebeu apenas um Oscar, o de roteiro - para Herman Mankiewicz e Welles, provocando polêmica sobre a autoralidade. Herman sempre se considerou ‘o’ autor e alguns críticos entraram na onda dele.

A seleção variada segue com filmes que redefiniram o cinema brasileiro nos anos 1960 - Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, e O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla -, mais dois de Francis Ford Coppola, O Poderoso Chefão e Apocalypse Now, outro brasileiro, Ganga Bruta, de Humberto Mauro, e assim por diante. Talvez como homenagem, dentro da homenagem, ao companheiro cinéfilo, Lygia selecionou L’Atalante, o clássico de Vigo que deve muito (tudo?) a Michel Simon. François Truffaut, crítico e cineasta, gostava de dizer que, no final, quando Dita Parlo e Jean Dasté fazem sexo, na verdade estão gerando o Michel Poiccard de Jean-Paul Belmondo em Acossado, de Jean-Luc Godard, marco da nouvelle vague, também no programa. O próprio Truffaut comparece com Jules e Jim - Uma Mulher para Dois, e dois títulos serão projetados ao ar livre. Acossado, no sábado 15, às 21h, e o suntuoso O Leopardo, de Luchino Visconti, com a valsa de Burt Lancaster e da jovem Claudia Cardinale, no domingo, 23, às 19h.

SERVIÇO: CINEMATECA BRASILEIRA. LG. SEN. RAUL CARDOSO, 207; 3512-6111. 5ª (13) ATÉ DOM. (23). PROGRAMAÇÃO: 

CINEMATECA.ORG.BR/CARTA-BRANCA-A-LYGIA-FAGUNDES-TELLES

Lygia Fagundes Telles inspira curso de redação em SP

Os textos de Lygia Fagundes Telles vão servir de base para o curso de redação Venha ver o pôr do sol, que a jornalista, escritora e arte-educadora Silvana Salerno vai dar no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc entre quinta, 13, e o dia 5 de março, com inscrições esgotadas. Indicado para maiores de 16 anos, o curso é prático. A leitura dos contos de Lygia será acompanhada de atividades artísticas e de exercícios literários e os textos criados no curso serão lidos e comentados.

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