Luzes da Broadway se apagam por Katharine Hepburn

Definida pelo presidente George W. Bush como um tesouro artístico não só dos Estados Unidos, mas da humanidade,Katharine Hepburn, recebe, amanhã, uma homenagem inédita.Às 20 horas, todas as luzes da Broadway se apagarão para homenagear a estrela que morreu no domingo, aos 96 anos, em suacasa, em Connecticut. As luzes da Broadway já se apagaram em 2001, pelos mortos do World Trade Center, mas é a primeira vezque isso ocorre para honrar uma personalidade do show business.Ícone, lenda, mito. Tais foram as manifestações da imprensa americana, nas edições de hoje dos principais jornais dosEstados Unidos. Katharine foi para a capa de todos. No domingo, Larry King, um dos grandes apresentadores da TV americana, entrou pelamadrugada entrevistando a sobrinha de Katharine. Ela também se chama Katharine, só que o sobrenome é Houghton, e foi atriznum filme interpretado pela tia famosa, Adivinhe quem vem para Jantar. Hepburn ganhou seu segundo Oscar pelo filme deStanley Kramer, em 1967. Até hoje é recordista de prêmios da academia, sendo difícil que venha a ser superada. Katharine,afinal, ganhou quatro Oscars na categoria de melhor atriz, pelos filmes Manhã de Glória, dos anos 1930; Adivinhe quem vempara Jantar e Um Leão no Inverno, dos anos 60; e Num Lago Dourado, no começo dos 80. Adivinhe...? foi o último filme que Katharine e Spencer Tracy fizeram juntos. No total, foram 9 filmes e o casal vivia na tela oque era a expressão do seu relacionamento na vida. Nunca se casaram, pois Tracy, que era católico, não admitia se divorciar damulher. Foram mais de 20 anos de uma das uniões clandestinas mais divulgadas da História, mas Katharine nunca falou doassunto até 1983, quando morreu a viúva oficial do companheiro. Foi então que ela disse que havia sido uma honra viver com "ohomem entre os homens".No programa de Larry King, apareceu a seqüência final de Adivinhe quem vem para o Jantar. Spencer Tracy faz o seu discursoem favor da integração racial, reconhecendo a validade do afeto que une os personagens de Sidney Poitier e Katharine Houghton.O filme, como sempre na obra do diretor Kramer, abusa das armadilhas demagógicas e sentimentais, mas foi importante, atépelo extraordinário sucesso de público, numa época em que Hollywood estava engajada num movimento pela integração racial.Foi o último filme interpretado por Tracy, que morreu em seguida. Ele discursa e Katharine, que o ouve, chora em silêncio. LarryKing quis saber da sobrinha se é verdade que a tia chorava mesmo. Ela disse que sim, porque Katharine era muito autêntica aoexpressar suas emoções. Na verdade, numa célebre entrevista que resultou no livro Kazan on Kazan, o grande diretor disse queKatharine era uma manteiga derretida e chorava por qualquer coisa, até pelos motivos mais banais. Suas lágrimas em Adivinhequem vem para o Jantar, porém, fazem parte das emoções inesquecíveis do cinema. Foi sobre elas que as redes americanas deTV inscreveram o que já é padrão em qualquer obtuário: o nome Katharine Hepburn e, em baixo, as datas de nascimento e morte.

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