'Luz Silenciosa' retrata comunidade religiosa no México

Produção do mexicano Carlos Reygadas levou o prêmio do Júri no Festival de Cannes 2007

Rodrigo Zavala, da Reuters,

08 de maio de 2021 | 10h26

O diretor mexicano Carlos Reygadas é um autor para poucos. Seleciona não-atores para o elenco, despreza maquiagem e luz artificial, prefere a câmera na mão e seus roteiros são, invariavelmente, pinceladas de alegorias e metáforas do mal-estar social em seu país.     Veja também: Trailer de 'Luz Silenciosa' Seu filme de estréia, Japón (2002), causou impacto na Quinzena dos Realizadores no Festival de Cannes e foi um dos destaques da 26.ª Mostra Internacional de Cinema, em São Paulo no mesmo ano. A narrativa silenciosa acompanha um homem cínico e depressivo que se muda para o interior do país para cometer suicídio. Em outro filme, o polêmico Batalla en el Cielo (2005), exibido na 29.ª edição da Mostra de SP, Reygadas chegou a ser vaiado no mesmo festival francês que o consagrou. Nenhum dos dois filmes entrou no circuito comercial no Brasil, restringindo-se a festivais de cinema. Sua mais nova produção, Luz Silenciosa, é seu primeiro filme a chegar às salas comerciais no Brasil e reflete um amadurecimento do diretor, que levou o prêmio do Júri no Festival de Cannes 2007. A produção retrata a difícil escolha de Johan (Cornelio Wall), patriarca de uma família menonita tradicional que vive numa comunidade no norte do México. Pai de sete filhos e marido da delicada Esther (Miriam Toews), ele se apaixona por Marianne (Maria Pankratz, em excepcional atuação) e vive o dilema entre a família e o novo amor. Indeciso em sua escolha, Johan busca apoio de amigos e parentes pudicos, procurando convencê-los de que o adultério não é o seu crime. Para o personagem, o amor expia seus pecados e o sofrimento da dúvida já é, por si só, sua maior penitência. Para narrar esse conflito moral, Reygadas sabe que a verborragia não se aplica ao seu cinema. Os longos silêncios e planos se sobrepõem ao sofrimento mudo de seus personagens, criando um cenário intimista e cativante, que faz o espectador divagar. Em determinado momento, um dos personagens diz: "A paz é mais forte do que o amor." Cabe a quem vê decifrar os valores subentendidos de uma comunidade, cuja autoridade final é o Novo Testamento. Uma das curiosidades do filme é o fato de ele ser inteiramente falado em uma espécie de dialeto, proveniente de uma ramificação da língua alemã, muito pouco conhecida e apenas praticada em comunidades menonitas (doutrina que nasceu ainda no século XVI, um ramo mais radical do cristianismo).

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