Lulu Santos faz ponta em filme sobre a década de 80

Lulu Santos entra numa sala de aula do Instituto de Educação, vestido de padre, e os adolescentes uniformizados o recebem cantando "Caia na Gandaia", sucesso das Frenéticas que ele regravou. "Esta não é minha", avisa o compositor. Imediatamente a turma começa: "Nada do Que For Será..." Os versos de "Como uma Onda" derretem a tensão do músico, que faz uma ponta especialíssima em "Pode Crer!", primeiro longa de ficção de Arthur Fontes (do documentário Surf Adventures), sobre sua geração: os quarentões de hoje que viviam o fim da adolescência em 1981, descobrindo o mundo, o sexo e as dificuldades de uma futura vida profissional."Em 81 tudo estava para acontecer. O Brasil experimentava a democracia, o rock ainda não tinha feito sucesso e a aids não aparecera. A classe média previa tempos difíceis, mas ainda não sentira a crise econômica", lembra o diretor que fez ficção no curta Trancado por dentro, com Paulo Gracindo, Marcos Palmeira e Luciana Vendramini. "Pode Crer!" é baseado no romance do mesmo nome, de Marcelo Dantas, diplomata que vive em Brasília. "Mas a história é ambientada na zona sul do Rio, com muitas externas na Lagoa, Arpoador e Jardim Botânico. Esse filme visa ao público adolescente, que vai muito ao cinema, mas tem pouca oferta de títulos."O elenco mistura a novíssima geração com os atores que fizeram a cabeça dos adolescentes de 1981. Patrícia Travassos, atriz do "Asdrubal Trouxe o Trombone e cérebro da Blitz", faz a mãe de João (Dudu Azevedo), menino idealista que sonha virar músico de rock. Malu Mader e José de Abreu são os pais de Carol (Maria Flor), que volta do exílio com a família e vira a paixão de João. Érika Mader, sobrinha de Malu, que fez o seriado "Mandrake", é Ana Cláudia que forma um triângulo amoroso com eles. Há ainda Tavico (Marcelo Adnet), dividido entre o idealismo dos anos 70, o pragmatismo dos 80 e a sua turma.Lulu Santos é reminiscência da época. Ele foi pioneiro do rock no Brasil, com "De Repente, Califórnia", tema de "Menino do Rio", filme adolescente de 1981. É sua segunda participação num longa. Em "O Que Que É Isso, Companheiro?" era um PM, também com uma só fala, mas surpreendente. Um roqueiro que vira PM e padre? "Para você ver a minha versatilidade como ator", brinca Lulu, que chegou preocupado com seu desempenho, mas fez a cena rápido e bem. "Não tenho hábito de falar um texto alheio, mas adoro cinema, quero ser ator, me submeter a um diretor. Minha música é muito autoral, componho, arranjo, toco e interpreto. Às vezes, é bom seguir a idéia de outra pessoa."Outra participação afetiva é Stepan Necersian, o inspetor Fleury, bedel do Colégio São Jorge, escola religiosa onde os protagonistas fazem pré-vestibular. Ele foi um dos primeiros galãs adolescentes do Brasil, no início dos anos 70, no filme Marcelo Zona Sul. "Eles queriam o mesmo clima para este filme", diz. Cinquentão, ele é de antes da geração de Arthur Fontes. "As histórias que vivi já fazem filme de época. É diferente de uma "Sinhá Moça" ou um "Quatrilho". Em 1981, eu já estava perto dos 30."O diretor de arte Gualter Pupo, a figurinista Cláudia Kopke e o barão vermelho Frejat (que assina a trilha sonora) vão reproduzir os sons e as imagens da época. O escritor Marcelo Dantas, que fez também o roteiro, concentrou a ação em poucos meses (no livro, são anos), desenvolveu mais os personagens femininos e tem certeza de que os jovens de hoje vão se sentir retratados naqueles de 25 anos atrás. "As questões do filme são universais e atemporais", afirma.Fontes vai além. "Para minha geração, 1981 representa o mesmo que 1968 para quem viveu os anos 60", filosofa. Lulu Santos radicaliza. "Fala-se que os anos 80 foram a década do abandono, que nada de bom aconteceu, mas aí está a prova de que houve muita coisa importante", defende o músico, um dos autores da trilha sonora da época. "Esse filme é prova de que os anos 80 foram fundamentais, como o que estava antes e o que veio depois."

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