Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Lulu de Bob Wilson, a atriz Angela Winkler evoca seus grandes filmes

'O grande desafio com Bob é ficar em silêncio comigo mesma, no palco, e projetar uma presença para o público', diz Angela

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2012 | 10h51

Seu nome pronuncia-se ‘Ânguela’, mas a mãe sempre a chamou de ‘Anguéla’. Para o público do teatro, Angela Winkler, atriz convidada do Berliner Ensemble, vai ficar no imaginário durante muito tempo como a Lulu de Bob Wilson - com seu impactante vestido vermelho na cena final da montagem do texto de Wedekind, encerrada no domingo, 18, no Sesc Pinheiros. Para o cinéfilo, ela foi, e será sempre, um ícone do cinema político europeu dos anos 1970/80. Basta lembrar de filmes como A Honra Perdida de Uma Mulher e O Tambor, de Volker Schlondorff (o primeiro com codireção de Margarethe Von Trotta), e Danton, de Andrzej Wajda.

Ela é tímida e não gosta de dar entrevistas, anunciou a assessoria. Mas, no final, Angela Winkler se deixou convenceu e encontrou o repórter num café dos Jardins. A conversa foi rica como evocadora daquela época de sua vida, mas também como abordagem do método de trabalho de Bob Wilson. “O grande desafio com Bob é ficar em silêncio comigo mesma, no palco, e projetar uma presença para o público.” O tempo não conta para as grandes atrizes. Angela já está naquilo que se chama, eufemisticamente, de melhor idade, mas isso não a impede de ser bela e sensual na criação dessa manipuladora de homens que é Lulu.

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Antes mesmo que a personagem apareça, o espectador do teatro é capturado - e magnetizado - pela voz de Angela Winkler. Bob é um formalista que transforma o corpo e seus instrumentos - os gestos, a voz - em forma. Angela fala que ele esculpe a presença do ator no palco. Isabelle Huppert, na entrevista que deu ao Estado na semana passada, disse que teve com Bob Wilson um dos maiores, senão o maior encontro artístico e humano de sua vida. Ela fala de Bob com veneração. Angela concorda, mas é menos deslumbrada. Ela não se esquece de outros encontros - com Volker Schlondorff e Andrzej Wajda.

Fazer filmes políticos não foi propriamente uma opção, ela explica. “Era uma contingência, não se conseguia fugir ao envolvimento político.” Até hoje, ela não sabe direito como conseguiu o papel de Katharina Blum em A Honra Perdida de Uma Mulher. O filme conta a história de uma mulher suspeita de terrorismo, cuja vida é destruída pela repressão do Estado (e da mídia). “Margarethe (Von Trotta) queria fazer o papel, mas quando Volker (Schlondorff), com quem era casada, decidiu que iam dirigir juntos, a personagem veio para mim.”

Ela conta que conheceu o terrorismo do Estado. “A polícia invadiu e depredou minha casa num processo de intimidação.” Ela ri quando conta que teve sempre um lado meio marginal. Angela viveu na Itália, na Ligúria. Apaixonou-se pelo país depois de participar de um filme com Franco Nero. Um dia, dirigindo embriagada, tirou um fininho de um carro da polícia. Tentaram prendê-la. Ela reagiu. Não parece verdade. A mulher que conversa com o repórter é um doce de pessoa.

Como Wajda a escolheu para ser Lucie Desmoulin em Danton? “Uma coisa leva à outra. Ele me havia visto nos filmes de Volker.” E a Lulu? “Sou atriz convidada do Berliner Ensemble. Bob me escolheu para o papel e tem sido um privilégio trabalhar com ele. Ele nos ensina a controlar o interior. Para dominar o espaço do palco, fazemos todo um trabalho de interiorização das personagens.” O repórter lembra o filme alemão de 1961, de Rolf Thiele, com Nadja Tiller, uma grande estrela da época. “Nadja fez Lulu? Nunca ouvi falar.” Mas quer saber detalhes. A curiosidade a devora. Como Angela diz, ninguém interpreta, se não sentir essa vontade de conhecer, e expressar, o outro (a outra).

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