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Luiz Zanin Oricchio: No Oscar 2014, miopia estética ignora produções de exceção

Boa parte da produção planetária não entra na festa de Hollywood a não ser pelo funil de uma categoria que eles valorizam pouco

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

28 de fevereiro de 2014 | 22h50

No Oscar, as indicações dão um retrato geral, ainda de contornos indefinidos. A premiação traça as linhas de preferência definitivas daquele ano e estabelece o perfil consumado da temporada de cinema nos Estados Unidos.

Deveríamos ver essa instituição anual apenas dessa forma. Mas é claro que, por questões geopolíticas e econômicas, que acabam se transformando em imperativos da cultura, essa festa americana ganha foros de universalidade.

No entanto, é bom lembrar, sempre, que essa universalidade é enganosa: boa parte da produção planetária não entra na festa de Hollywood a não ser pelo funil de uma categoria que eles valorizam pouco – a dos filmes em língua não inglesa, "filme estrangeiro", para nós.

Feita essa ressalva, o que temos a destacar? Três produções que se distanciam das outras em termos de número de indicações: Trapaça e Gravidade com dez cada uma, e 12 Anos de Escravidão, com nove.

Os dois primeiros devem levar alguns prêmios e Gravidade pode dar ao mexicano Alfonso Cuarón o troféu de direção, repetindo o prêmio que já ganhou no Globo de Ouro. Trapaça é uma boa comédia sobre a ambição, mas sem fôlego para se impor como vencedora.

Há, por fim, 12 Anos de Escravidão, tido como favorito para o prêmio principal, o de melhor filme, e também o de ator, para o incrível Chiwetel Ejiofor. A não ser que a estatueta de ator vá para Matthew McConaughey por seu também excelente trabalho em Clube de Compras Dallas.

É bem possível que esses três filmes, 12 Anos de Escravidão, Trapaça e Gravidade, monopolizem a premiação que, ainda assim, será pulverizada, pois não se vê entre eles nenhuma produção arrebatadora, daquelas que pontuam da última à primeira das categorias propostas pela Academia.

A disposição de colocar nove candidatos como finalistas a melhor filme traduz-se na possibilidade de incluir produções que, de outra forma, dificilmente seriam lembradas. Casos, por exemplo, de Ela, Philomena, e, sobretudo, Nebraska. Claro, são filmes que estão lá para constar.

Ninguém vê chances que um deles venha a ganhar o troféu principal, o que seria uma zebra. Mas, mesmo assim, esse destaque já é importante.

Em especial para um filme tão bonito e fora da curva quanto Nebraska, em que Alexander Payne fala de velhice, obstinação e honestidade em um melancólico preto e branco. Bruce Dern, como o idoso que se põe na estrada para receber um imaginário prêmio de US$ 1 milhão, é de uma intensidade ímpar.

O mais corrosivo dos candidatos, O Lobo de Wall Street, parece não ter nenhuma chance no prêmio principal. Talvez esse retrato de um arrivista do mercado financeiro, que leva uma vida de golpes, sexo e drogas seja incisivo demais para os padrões da Academia. A direção de Scorsese é brilhante e Leonardo DiCaprio segura o papel com graça e maturidade.

No entanto, falando-se da produção americana de 2013, não se poderia deixar de fora Inside Llewyn Davis – Balada de Um Homem Comum, dos irmãos Coen. Concorre em apenas duas categorias, fotografia e mixagem de som. Isso equivale a dizer que, aos olhos da Academia, foi reconhecido apenas por quesitos técnicos, mas não como obra orgânica digna de ser levada em consideração em seu todo. Ora, se essa não é a maior prova da miopia estética dos acadêmicos, não sei qual poderia ser. Inside Llewyn Davis é magnificamente escrito, filmado e interpretado. É, sim, uma balada terminal da sociedade de espetáculo americana, pontualmente localizada no âmbito da música country, mas que poderia se estender para uma concepção de vida em geral. Tem um brilho com o qual nenhum dos outros concorrentes pode rivalizar.

Por outro lado, o Oscar 2014 será valorizado se os prêmios forem para os filmes certos em categorias menos badaladas nos Estados Unidos, porém influentes no plano internacional. A Grande Beleza, de Paolo Sorrentino, um poema decadentista da Itália contemporânea, parece a escolha inevitável na categoria filme estrangeiro. E Vidas ao Vento, canto do cisne do mestre japonês Hayo Miyasaki, deve ser a bola na caçapa da categoria de longa de animação. Nesse que talvez seja seu melhor trabalho, Miyasaki acompanha 20 anos da vida japonesa através do construtor de aviões de caça Jiro Horikoshi. Personagem verídico, tempo de guerra, um caso de amor triste, a filosofia de que o vento alça os aviões mas também arrasta a vida e as vaidades desse mundo... Talvez ingredientes adultos demais para um gênero associado a produções infantis. O filme é lindo.

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