Mariana Vianna
Mariana Vianna

Luis Lobianco prepara o primeiro filme solo com 'Carlinhos & Carlão'

Humor contra a onda de homofobia; diretor Pedro Amorim finaliza seu filme mais ‘sério’, ‘Carlinhos & Carlão’

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

04 Outubro 2017 | 06h00

Iafa Britz, que produz os filmes do fenômeno de bilheteria Paulo Gustavo, não deixa por menos. “Ele é gênio.” Ele é Luis Lobianco, que acaba de rodar, no Rio, seu primeiro longa solo. “Carlinhos & Carlão é meu filme mais importante”, avalia o diretor Pedro Amorim, de Mato Sem Cachorro, O Superpai e Divórcio. O primeiro estourou na bilheteria e rapidamente atingiu 1 milhão de espectadores. Amorim teve boas críticas. Com Superpai, pelo contrário, as críticas foram duras. “Criei casca”, diz o diretor. Com o terceiro, Amorim voltou ao favor dos críticos. Nunca recebeu tantas estrelas em quadros de cotações.

Divórcio faz boas observações sobre a cultura country e os novos-ricos no interior de São Paulo. O diretor admite que estava com medo das reações do público em Ribeirão Preto, onde o longa foi filmado. “Eles entenderam que a crítica era afetiva. Não vi nenhuma outra sessão em que o público risse tanto.” Amorim continua querendo fazer rir com Carlinhos & Carlão. Mas o furo agora é mais embaixo. “É meu filme mais sério. Dá conta desse retrocesso que está ocorrendo no Brasil.” Sem citar especificamente a bancada dos evangélicos, Amorim acha importante sair com um filme como esse num momento de homofobia, quando se discute no País a cura gay.”

Primeiro vem Carlão. Trabalha numa revenda de carros, é o típico machão. Grosso, mulherengo, sempre fazendo piada de gay. Carlão vai comprar móveis, zomba do atendente. Luís Miranda lança uma maldição, joga-o dentro de um armário do qual Carlão sai... Carlinhos. É o lado gay do ‘bofe’. Carlinhos só surge à noite. A cena desta terça à noite está sendo filmada no Riocentro, pertinho de onde ocorreu o Rock in Rio. Para chegar à filmagem, o repórter atravessa a área que, dias antes, fervia de gente. Os palcos gigantescos estão abandonados. A imensa roda-gigante é só uma sombra. No Riocentro, pelo contrário, há um palco montado. Muita luz, figurantes.

Na trama, a revenda está em crise e o dono promove uma supervenda. Mas a coisa não funciona. Muita gente desanimada, ninguém compra nada. Carlão foi convocado para participar do esforço, mas, sendo noite, quem dá as caras é Carlinhos, que surge feito uma árvore de Natal, soltando a franga. Carlinhos agita a multidão – e as vendas disparam. Ele vira o fenômeno da firma. “Se o negócio é vender, capitalismo em ação, o importante é quem vende. Não tem essa de Carlão é o certo, vamos curar o Carlinhos. Os dois são um só e vão conviver com isso”, diz o diretor.

A filmagem entra pela madrugada. Luis Lobianco gravou o playback de A Roda, de Sarajane, e agora mimetiza a própria voz. “Abre a rodinha, por favor...” O diretor de fotografia Dante Belutti comanda a grua, que faz uma tomada espetacular da cena toda. Pedro Amorim está no controle. Como diretor, ele tem de colocar ordem no aparente caos. No monitor, aparece só uma fração daquela loucura toda, e é o que o público vai ver. Iafa Britz assiste a tudo de longe, com o repórter. Em nenhum momento intervém na filmagem. Confia ‘no Pedro’. Amorim é irmão dos também diretores Vicente Amorim e João Amorim. Tem emendado cinema e TV (Cidade dos Homens, Mandrake, Quase Anônimos). Acredita no trabalho bem feito. Carlinhos & Carlão é outra parceria da Migdal, a empresa de Iafa, com a Downtown. “Vamos fazer o público rir, mas, no limite, isso aqui é muito sério”, diz Amorim, que se inspirou nos amigos gays para alimentar sua comédia sobre (e contra) preconceitos.

ENTREVISTA: ‘Não dá mais para continuar com a violência’

Luis Lobianco pertence à geração de humoristas que estourou na internet, e fez história no Porta dos Fundos. Ele fala de teatro, cinema e... militância.

É mera coincidência que você esteja nesse filme e faça no teatro o drama Gisberta?

Não, não é, mas não escolhi me tornar um porta-voz da comunidade LGBT. Faço teatro há mais de 20 anos, sou formado na CAL e já fui dirigido por grandes nomes. Gosto de variar. Um dos meus melhores personagens e o vilão Randolfo, da série Valentins, que é adorado pelas crianças.

Mas a Gisberta virou um marco. Como foi?

Em fevereiro do ano passado, eu estava em férias, pensando no que fazer e ouvi a música da Bethânia sobre a travesti brasileira que foi assassinada em Portugal. Aquilo é muito forte. Foi uma inspiração.

E o filme?

Faço o Vai Que Cola, então cinema não tem mistério, mas um protagonista, e ainda por cima duplo, como o Carlão e o Carlinhos... Está sendo bacana, mas exige muito. Não é mole jogar futebol, cantar e dançar num palco, entrar todo dia pela madrugada. O importante é fazer com prazer.

E o retrocesso do País...?

Não é só a bandeira da diversidade. Com a comunidade LGBT é preciso discutir as mulheres, os negros. Não dá para continuar nessa rotina de violência que coloca o Brasil em todos os rankings da morte. 

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