Luis Buñuel e Pedro Almodóvar revelam seu ódio pela burguesia

Espanhóis são destaques da Mostra Internacional de Cinema

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

19 de outubro de 2014 | 03h00

Há uma conexão espanhola na Mostra deste ano, que põe o foco na Espanha. Pedro Almodóvar assina o cartaz - e é preciso reconhecer que nem o pôster nem a animação que compõe a vinheta da 38ª Mostra alcançam o nível do ano passado, com a referência a Barry Lindon, de Stanley Kubrick - e também é objeto de uma retrospectiva que está apresentando sua (r)evolução. Neste domingo, será possível (re)ver Que He Hecho para Merecer Esto? e A Pele Que Habito. A programação também prestigia Pepi Luci Bom, Labirinto de Paixões, Maus Hábitos, A Lei do Desejo, O Matador, Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos, Ata-me etc. O foco Espanha amplia-se para a abordagem do fenômeno Luis Buñuel, com a revisão dosa manifestos surrealistas do começo da carreira do autor e também de alguns títulos de sua passagem pelo México.

Tietes do grande Luis podem ver hoje Um Cão Andaluz e A Idade do Ouro. O primeiro foi escrito em parceria com Salvador Dalí e vale destacar que não apenas a Sala Cinemateca, no âmbito da Mostra, apresenta uma exibição de fotos de Buñuel como há uma grande exposição de Dalí na cidade. Lançado em 1928 na França, Un Chien Andalou permanece até hoje como um marco de cinema experimental e de investigação da linguagem. O filme não conta uma história. Utiliza a lógica dos sonhos, inspirando-se em preceitos de Freud sobre as fantasias do inconsciente. Logo no começo, a navalha secciona o olho. Tudo o que vem daí desafia a racionalização consciente.

Em Um Cão Andaluz e, principalmente, A Idade do Ouro, Buñuel, a par de criar imagens de grande potência, revela-se um crítico ácido de conceitos como família, tradição e propriedade. Esses elementos estarão sempre em discussão no seu cinema, em suas diversas fases, inclusive na mexicana, quando ele, para sobreviver, fez filmes de gênero. Embora não seja propriamente um surrealista, Pedro Almodóvar assimilou lições de Buñuel sobre os gêneros e também seu repúdio à ordem burguesa. Existem referências a filmes de Buñuel no cinema de Pedro.

Se Buñuel é surrealista, Almodóvar é pós-moderno. Seu cinema dinamita os limites entre alta cultura e subcultura, implode gêneros, alimenta-se de citações. Criado na movida - a agitação da noite madrilenha, nos estertores do franquismo -, Almodóvar fez do escracho o manifesto de sua homossexualidade, ao irromper num cinema espanhol amordaçado por Franco (e no qual um opositor do regime, como Carlos Saura, se expressava por meio de alegorias e símbolos). Almodóvar foi direto ao ponto: vestiu meias arrastão de fêmea em Labirinto de Paixões e, no convento de Maus Hábitos - que ataque à religião! -, fez com que a madre cocainômana relatasse a uma cabareteira muito louca sua versão insólita da parábola do Filho Pródigo.

Insólito é uma definição adequada para o Almodóvar da primeira fase. Seus admiradores temiam que, sob a pressão do mercado, ao ‘amadurecer’ ele fatalmente diluiria sua fúria. Não foi o que ocorreu. Tudo Sobre Minha Mãe propõe um novo conceito de família - a freirinha engravida da travesti e, em A Pele Que Habito, para se vingar da morte da filha, o médico sequestra o garoto que a seduziu, o submete a uma cirurgia de mudança de sexo - e se apaixona pela nova mulher que criou. Almodóvar pode não ser cria de Buñuel, mas compartilha com ele o ódio pela burguesia. 

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