Wilton Junior/ Estadão
Wilton Junior/ Estadão

Lúcia Rocha, mãe de Glauber, morre aos 94 anos

Lutou pela preservação e propagação da filmografia e vasta produção intelectual do filho

Roberta Pennafort / RIO, O Estado de S.Paulo

03 Janeiro 2014 | 18h34

Morreu nesta sexta-feira, no Rio, dona Lúcia Rocha, mãe do cineasta Glauber Rocha e considerada também “mãe do Cinema Novo”. Tão obstinada quanto serena, ela tinha 94 anos e era muito querida no meio cinematográfico, por ter lutado pela preservação dos filmes e do acervo documental do filho desde sua morte, em 1981. Nunca hesitou em buscar patrocínios que viabilizassem seu trabalho, missão adotada para toda a vida.

O enterro será neste sábado, no cemitério São João Batista, onde também foi sepultado Glauber. Dona Lúcia estava em casa e teve uma parada cardíaca depois de sair do banho. “Estava muito bem de saúde, curtiu a tataraneta, minha filha, no Natal. Fez um poema para ela. Tinha uma memória perigosa! Mas vinha reclamando muito do calor que está fazendo no Rio. Completaria 95 anos no dia 16. Foi uma passagem suave. Foi melhor assim, pois ela sempre dizia que queria morrer dormindo, sem sofrer”, disse Sara Rocha, sua bisneta.

Lúcia Mendes de Andrade Rocha nasceu em Vitória da Conquista em 1919. Teve Glauber em 1939 e foi responsável por sua alfabetização. Quando o filho ainda era pequeno, a família mudou-se para Salvador, cidade em que ele desenvolveria seu pendor artístico.

Ela perdeu outros dois filhos (uma, Ana, ainda criança, de leucemia, e outra, a atriz Anecy Rocha, em acidente num elevador, em 1976).

“Mãe coragem”, passou décadas guardando tudo que Glauber jogava fora – pegava rascunhos amassados no lixo e passava a ferro, tamanha a idolatria que sentia por ele. Chegou a juntar mais de 100 mil documentos, fotografias e textos (boa parte permanece inédita).

Desde a morte prematura de Glauber, lutou pela preservação e propagação de sua filmografia e vasta produção intelectual. Conseguiu, com a ajuda dos descendentes, patrocínios para restaurar filmes, de Barravento (1962) a A Idade da Terra (1980). Abriu o Tempo Glauber, centro cultural em Botafogo que conta com moderno setor de documentação, batizado com seu nome. Lá fica o arquivo amealhado por dona Lúcia. 

O espaço – que ontem foi usado para o velório – é mantido com dificuldade pela família, que não conta com apoio de governos ou empresas. Recentemente, conseguiu-se a promessa de verba do Ministério da Cultura, mas a instituição ainda não recebeu o dinheiro.

“Minha meta é reunir e divulgar toda a obra do Glauber. Guardar papel eu sabia fazer, mas isso eu não sei”, brincou dona Lúcia numa entrevista ao Estado, realizada em 2009.

Ela foi a grande incentivadora do filho Glauber. Quando ele filmou Barravento, na Bahia, ela cozinhava para todo o set. Para Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) – o seu preferido – e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1968), dona Lúcia fez alguns figurinos.

Mais conteúdo sobre:
LUCIAROCHAGLAUBERCINEMAMEMÓRIA

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.