Lucía Puenzo fala sobre o livro e filme 'O Médico Alemão'

Obra têm como personagem o nazista Josef Mengele

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

22 de agosto de 2014 | 03h00

Em um posto instalado no meio de uma estrada, um homem observa um casal com filhos - na verdade, é a menina mais nova que o fascina, pela sua beleza mas também por um pequeno detalhe de formação: ela tem uma estatura menor que alguém da sua idade. Sinistro, cativante, o homem é médico de formação e logo convence a família a deixá-lo ministrar um tratamento para corrigir o que considera um defeito imperdoável da garota.

É na região mais isolada da Patagônia, na Argentina, durante o verão de 1960, que se passa a trama de O Médico Alemão (Gryphus), romance de Lucía Puenzo, escritora e cineasta que se inspira pela face obscura do ser humano para construir sua obra - foi assim, por exemplo, com seu primeiro longa, XXY, em que em desvenda a sexualidade juvenil de uma forma tão pouco convencional.

Em O Médico Alemão, que primeiro nasceu como livro para depois chegar à tela grande, ela constrói uma narrativa de suspense sobre a passagem do médico nazista Josef Mengele (1911-1979) pela Argentina. Conhecido como ‘O Anjo da Morte’, pelas desumanas experiências científicas com prisioneiros de campos de concentração, ele surge na história como o misterioso médico. A partir dessa figura, Lucía discute a simpatia com que carrascos nazistas foram recebidos em países latinos, notadamente a Argentina. Sobre o assunto, ela conversou com o Estado, por telefone, de Buenos Aires.

Como foi o processo de criação do livro?

Esse é meu quinto romance, que se tornou meu terceiro filme. Demorei quase um ano para escrevê-lo e, logo depois de publicado, eu o transformei em roteiro. O que me incentivou foi essa complexidade das razões que levaram o governo argentino a abrir as portas a tantos nazistas, promulgando inclusive uma lei para permitir que usassem seus nomes reais. Sempre me intrigaram os motivos que fizeram com que centenas de famílias argentinas se tornassem cúmplices destes homens.

Quando você escreve um romance, já pensa em sua adaptação para o cinema?

Nunca. Até agora, adaptei dois dos meus romances. Menino Peixe é meu primeiro romance, que se transformou no terceiro filme, depois de Os Invisíveis. Escrevi quando tinha 23 anos, época em que ainda não tinha planos de dirigir. No caso de O Médico Alemão, eu também não tinha planos para levá-lo ao cinema enquanto escrevia. Na verdade, não consigo pensar ao mesmo tempo em romance e em roteiro, são linguagens totalmente distintas.

Como surgiu a ideia de usar um personagem como Mengele?

Ele é uma figura que ainda dá medo - o que é bom, pois escrevo geralmente a partir dos meus medos. E o mais fascinante, do ponto de vista artístico, é ele não ter o perfil de um vilão, o que o torna um personagem complexo, capaz de seduzir e de enredar tantas pessoas em sua teia. Na minha opinião, essa é a melhor maneira de retratar esses monstros, porque eles foram isso mesmo: muito mais perigosos por sua complexidade.

Mas a identificação com Mengele é mais forte no filme, não?

Sim. Quando comecei a escrever o romance, não pensava em Mengele, mas em um alemão de identidade desconhecida. Para mim, o efeito dramático seria o mesmo se fosse um médico fanático e não necessariamente nazista. Mas, veja um detalhe interessante: a primeira cena do livro é a mesma do filme, ou seja, aquela em que esse alemão se encanta com uma menina, que viaja com sua família. Ela se transforma em uma espécie de ninfa para ele. Era esse o meu ponto de partida. À medida que a história foi progredindo, especialmente quando produzia o roteiro, é que aquele personagem foi ganhando características do Mengele e seu rastro deixado na Argentina.

É verdade que, no início, você estava mais interessada na menina do que no médico alemão?

Sim. Ela foi se revelando uma menina forte, carismática, inocente, dotada, ao mesmo tempo, de frescor e sensualidade. A menina, de uma certa forma, simboliza os vários argentinos que demoraram para perceber que viviam no mesmo país que esses nazistas, que aqui chegaram camuflados. Em alguns casos, eram homens carismáticos, refinados, cultos, que não deixavam perceber o monstro que havia dentro deles. Eu estava interessada no processo que leva a entender que a pessoa que a gente acolhe em nossa casa é um desses homens que se ocultava.

Os nazistas se esconderam em diversos pontos do planeta, como o Brasil, mas tinha a Argentina como rota preferida. Por quê?

Como você disse, muitos países latinos abrigaram esses homens, mas a Argentina foi um dos que, de uma maneira radical, não se limitavam a abrir as portas quando eles chegavam com seus passaportes expedidos pela Cruz Vermelha ou pelo Vaticano. Havia inclusive redes alemãs criadas para que pudessem viajar e desaparecer. O governo de Perón chegou a aprovar uma lei de anistia que permitia o uso dos verdadeiros nomes. Aliás, você sabia que Mengele estava até na lista telefônica? É uma prova evidente da impunidade que eles aqui encontraram. 

Esse detalhe me faz pensar em alguns personagens do livro e também do filme, aqueles que representam essa classe social que suportou e até enalteceu os nazistas, não é verdade?

Com certeza. Ainda hoje, fico assombrada com a facilidade com que as comunidades alemãs recebiam estas espécies de heróis que vinham do estrangeiro com sua cultura e formação científica. E não era algo escondido ou velado, pois existem documentos que comprovam e relatam a forma com que os nazistas eram bem-recebidos, com ofertas de trabalho e até de propriedades. 

Como foi seu processo de pesquisa?

Trabalhei na escrita desse livro durante dois anos. Nesse período, fiz muitas leituras e tive inúmeras reuniões com historiadores e especialistas da área médica, como geneticistas e endocrinologistas. Escolhi essas especialidades porque são profissionais que conhecem o tipo de tratamentos e barbaridades perpetradas nos campos de concentração, e também por certos pontos de contato que eles têm com os aspectos mais obscuros da ética médica em tempos de modernidade.

O MÉDICO ALEMÃO

Autora: Lucía Puenzo

Tradução: Gilson B. Soares

Editora: Gryphus (172 págs., R$ 39,90)

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