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Luchino Visconti, um dos maiores artistas do cinema

Há 40 anos morria o cineasta italiano, que dirigiu clássicos como 'Rocco e Seus Irmãos' e 'O Leopardo'

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2016 | 16h12

Completam-se nesta quinta-feira, 17 de março, 40 anos da morte de Luchino Visconti. Em novembro, dia 2, serão 110 anos de nascimento do grande diretor - 1906. Aristocrata de berço, Visconti era duque de Modrone por sua origem, mas tornou-se comunista por opção ideológica. Viveu sempre essa contradição, e era chamado de "duque vermelho".

O pai, Giuseppe, era mecenas no Teatro Scala, de Milão. A mãe, Carla Erba, pertencia a uma família riquíssima de industriais farmacêuticos. O jovem Visconti interessou-se primeiro por cavalos. Construiu um haras. Em 1935, prestes a se casar com a filha do príncipe Windisch-Graetz, teve uma crise (mística? Sentimental?) - vendeu a propriedade hípica e foi para Paris. Assumiu a homossexualidade, viveu a doce vida da época. Amigo de Coco Chanel, foi ela quem o aproximou de Jean Renoir, de quem se tornou assistente. Em 1942, aos 36 anos, estreou na direção com Ossessione. O filme é considerado precursor do neorrealismo.

O resto é história. Assim como viveu a contradição de ser nobre e marxista, Visconti tentou conciliar neorrealismo e esteticismo. La Terra Trema, de 1948, marca o limite dessas pesquisas estéticas. Na primeira metade dos anos 1950, com a transformação do neorrealismo, Visconti passou a flertar com a História e o melodrama - Sedução da Carne/Senso, 1954. Em 1960, fez o que talvez sejas o maior de seus filmes - Rocco e Seus Irmãos. A crônica da dissolução de uma família do Sul da Itália na industrializada Milão.

Em 1963, recebeu a Palma de Ouro em Cannes por O Leopardo, com Burt Lancaster, Claudia Cardinale e Alain Delon (que já havia sido Rocco). A Fox, distribuidora internacional, corta o filme, faz a dublagem para inglês e ainda transforma o sofisticado tratamento cromático no mais vulgar DeLuxe Color. Em 1965, Leão de Ouro em Veneza por Vagas Estrelas da Ursa, com Claudia Cardinale. Em 1969, estreia Os Deusaes Msalditos, sua ópera antinazista, grande sucesso de público e crítica. Em 1971, recebe o prêmio especial do 25º Festival de Cannes por Morte em Veneza, que adaptou de Thomas Mann. Em 1972, sofre um colapso circulartório durante a realização de Ludwig, que será lançado no Brasil como A Paixão de Um Rei. Os anos seguintes serão difíceis. Preso a uma cadeira de rodas, com dificuldade para falar. Mas ainda realiza a derradeira obra-prima, Violência e Paixão, com Burt Lancaster.

Dirigiu teatro e ópera. Dizia que todos os seus filmes tinham um quê de teatro e que as mise-en-scène teatrais eram cinematográficas. À moda de epitáfio, disse certa vez o que o atraía - "Prefiro narrar as derrotas, descrever as almas solitárias e os destinos destroçados pela realidade. Descrevo somente personagens dos quais conheço bem a história. Pode ser que cada um de meus filmes esconda outro, meu verdadeiro filme nunca realizado, sobre os Visconti de ontem e hoje." Todos os relatos daquele 17 de março coincidem. Visconti, preso de uma forte gripe ficou o dia todo na cama, em seu quarto no palazzo da Via Salaria, em Roma. Estavam com ele a irmã, Uberta, e os dois cães berger, Theodore e Konrad (em homenagem ao personagem de Violência e Paixão). Na cabeceira, dois retratos - de Helmut Berger, seu último grande amor, e Marlene Dietrich, com a dedicatória "Penso em ti todos os dias".

Visconti pediu para ouvir a Segunda Sinfonia, de Brahms. Pediu para ouvir de novo. Disse com voz fraca - "Agora, chega. Estou cansado." Virou-se para o lado e morreu. Como diz o jornalista no desfecho de O Homem Que Matou o Facínora, de John Ford - "Se a história não é real, print the legend, imprimam a lenda". A forma como Visconti dirigiu a própria morte somente acrescenta ao mito de um dos maiores artistas do cinema.

 

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