'Los Angeles por Ela Mesma' investiga atração despertada pela metrópole

Longa, um dos destaques da mostra, é dirigido por Thom Andersen

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

27 de outubro de 2014 | 18h50

Ele divide a capa da edição da revista Cinemascope atualmente nas bancas. “Expanding the frame of international cinema”: expandindo os limites do cinema internacional. Cinemascope virou a bíblia do cinema autoral (e de investigação). O número 60 traz na capa a foto de Cavalo Dinheiro, o novo Pedro Costa. A chamada é para Thom Andersen. Thom quem? Ele está em São Paulo na dupla condição de jurado da Mostra, na competição de documentários, e também como autor de Los Angeles Plays Itself, Los Angeles por Ela Mesma. Cinemascope o define como o maior “video (film) essayist” da atualidade. Compara-o a Chris Marker.

Domingo à noite, a Avenida Paulista estava explodindo nas comemorações da reeleição de Dilma Rousseff. No Espaço da Augusta, passava o filme ensaio de Andersen. A barulheira vazava dentro da sala. O diretor estava numa escola de samba. Adorou. A primeira versão de Los Angeles por Ela Mesma é de 2003. Como morador de Los Angeles (em Downtown), Thom Anderson resolveu investigar como o cinema (Hollywood) retratava sua cidade. Em 2003, utilizou excertos de VHS. A nova versão, que Andersen mostra em São Paulo, capta cenas de DVD e Blu-Ray. Já que ia remasterizar imagem e som, Andersen aproveitou para fazer mudanças no texto.

Ele admite: “Quando comecei a fazer cinema, meu trabalho era catalogado como documentário. Mais recentemente surgiu essa definição do filme-ensaio”. Na recente Mostra CineBH, Tag Gallagher, autor de grandes livros sobre Roberto Rossellini e John Ford, exibiu e debateu com o público seus vídeo-ensaios sobre os dois autores e ainda mostrou um terceiro, dedicado a Max Ophuls. “O rótulo de vídeo-ensaio, na verdade, consagra o que esses trabalhos têm de pessoal. Tag e eu estamos falando na primeira pessoa de filmes e autores que estão no imaginário de todo cinéfilo.” Por que Los Angeles? “Por que não?”, ele retruca.

Los Angeles virou uma sigla, L.A., que abriga Hollywood, a capital do entretenimento. Hollywood, como símbolo, independe de sua localização geográfica. Los Angeles consegue ser a cidade mais filmada e fotografada do mundo, mais que Paris e Nova York. E há toda uma história política e social que se pode contar pela forma como o cinema a retrata. Ao iniciar seu projeto, Andersen sabia que alguns filmes não poderiam faltar - Chinatown, de Roman Polanski, Blade Runner, o Caçador de Androides, de Ridley Scott, Los Angeles - Cidade Proibida, de Curtis Hanson. O repórter cita, a propósito do primeiro, Le Mani sulla Cittá, do começo dos anos 1960. Como o exemplar de cinema documentado de Francesco Rosi, a ficção de Polanski tem um lado documentário muito forte. Mostra a batalha do deserto, a forma como a descoberta e canalização das fontes de águas produziram a especulação imobiliária e deram a L.A. sua conformação espacial.

A preferência pela malha viária que favorece o transporte individual - carros - em detrimento de ônibus e metrô, a erradicação dos bairros populares. Tudo isso vai sendo mapeado por meio da imprensa e dos filmes. Os arquitetos que ajudaram a formatar L.A. e a forma como seus prédios mais conhecidos foram “maquiados” para se adaptar a diferentes épocas e filmes. Em 180 minutos - com intervalo -, Thom Andersen dá um testemunho valioso sobre estética e urbanismo. A cidade não é só suas ruas e casas. É também espaços públicos, áreas de lazer, murais. Anderson conta uma história dos latinos em L.A. só por meio de murais. E os direitos, como ficam? Não é proibitivo usar todas essas imagens? “Se tivesse de pagar, seria extorsivo. Como estou falando de patrimônio histórico e cultural, a lei americana é clara e me garante o direito de expressão.” 

APOSTAS DO DIA

À Procura

Revelado pela Mostra, o canadense/armênio Atom Egoyan conta a história de pai que nunca desiste de procurar a filha que foi sequestrada. Abuso infantil, implosão da família, o aporte das novas tecnologias ao crime. Todo Egoyan está presente, e com o aporte do ator Ryan Reynolds, que faz o papel.

As Maravilhas

A italiana Alice Rohrwacher foi premiada em Cannes por essa fábula sobre uma família de apicultores. O filme fala de tradição e modernidade, e cria cenas mágicas que seduziram o júri presidido por Jane Campion.

Opium

Musical acompanha a paixão de Jean Cocteau pelo escritor Raymond Radiguet. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.