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Lorenzo Vigas fala sobre 'Desde Allà' e o doc sobre o pai, o pintor Oswaldo

Longa é destaque na Mostra Internacional de Cinema

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2015 | 03h00

Lorenzo Vigas admite que foi sua primeira reação – “Lascou!” Ao mesmo tempo que estava muito feliz por participar da competição de Veneza com Desde Allà, ele via suas chances esvanecerem, ou assim pensava, porque o presidente do júri era o cineasta mexicano Alfonso Cuarón. E Cuarón virou desafeto de seu produtor e conselheiro de roteiro, Guillermo Arriaga, quando houve a grande ruptura deste com o diretor, também mexicano, Alejandro González-Iñárritu. Cuarón ficou ao lado de Iñárritu, contra Arriaga. Contra todas as previsões de Vigas, o júri de Veneza outorgou, em setembro, o Leão de Ouro a Desde Allà. Foi a primeira vez que um filme venezuelano venceu um grande festiva, e não só o de Veneza.

Vigas já teve, depois, a oportunidade de se encontrar com Cuarón. Contou-lhe de seus temores iniciais. “Não tem nada a ver”, disse-lhe o grande cineasta de Gravidade. “Meus possíveis problemas com Guillermo (Arriaga) são de ordem privada. Jamais deixaria que interferissem numa decisão de júri. E, na verdade, Desde Allà foi o filme de consenso em Veneza. Nosso júri rachou, teu filme (disse Cuarón a Vigas) foi o único que uniu todas as bandeiras.” Desde Allà terá hoje sua última exibição na Mostra – o filme ainda não tem distribuição assegurada no Brasil e também não integra a programação da repescagem que começa amanhã. Mas foi um dos títulos selecionados pelo júri popular para a apreciação do júri oficial. Está habilitado para concorrer ao (e até vencer o) Troféu Bandeira Paulista, que será outorgado esta noite. Lorenzo não estará presente à premiação. Viajou para a Argentina. Seu filme também está no Festival de Mar Del Plata, que já começou. Ele promete voltar a São Paulo em abril do ano que vem, para a grande exposição antológica que a SP Arte de 2015 dedicará a seu pai.

“Confesso que não sei explicar muito bem a diferença entre retrospectiva e antologia, mas a curadoria me diz que será ‘la gran antológia’ sobre mi padre.” Se tudo der certo e ele tiver concluído o trabalho – e também se não estiver comprometido com nenhum evento que exija ineditismo –, Lorenzo trará a cidade o documentário que realiza sobre Oswaldo Vigas. “Meu pai foi um dos maiores pintores da Venezuela e da América Latina. Ainda estava vivo – morreu em 2014, aos 88 anos – quando iniciamos o trabalho. Aos 15 anos, pintou um quadro que intitulou O Vendedor de Orquídeas. O quadro tornou-se mítico para ele, que há seis anos iniciou uma busca, por todas as cidades em que viveu, para tentar descobrir onde estava.”

É um pouco o Rosebud de Oswaldo, a sua busca de um tempo perdido que lhe permitiria reavaliar a própria vida e obra. “Meu pai foi um pintor e muralista que fez as raízes da arte pré-colombiana dialogarem com a modernidade. Foi a maior influência em minha vida. Descortinou-me a arte, o mundo. Sempre circulei num meio cosmopolita de artistas e intelectuais. Foi muito forte.” Mas ele nunca quis ser pintor. Como o pai, que estudou para ser cirurgião, Lorenzo trocou a ciência pela arte, mas elegeu o cinema. Durante muito tempo tentou desenvolver um projeto, sobre a relação de um autista com o mundo a seu redor. O personagem de alguma forma evoluiu para o que virou Desde Allá.

Um velho gay procura garotos na rua. Prefere jovens de um perfil bruto, violento. Liga-se a esse jovem que reage violentamente, mas, depois, quando o garoto é golpeado, o velho o trata. Iniciam uma relação de afeto, de respeito, como pai e filho e algo mais. O tema da paternidade é visceral para Lorenzo, que vai ser pai nas próximas semanas. Os atores são o chileno Alfredo Castro e um garoto das ruas de Caracas, Luis Silva. O filme ainda nem estreou na Venezuela e Silva já vem recebendo ameaças de morte. “A Venezuela é um país muito homofóbico. Só o fato de ele ser passivo num determinado momento do filme já despertou ódio. Sinto-me responsável por Luis. Estamos trabalhando para tirá-lo do país. Não creio que o filme ajude a erradicar nem mesmo minorar a homofobia, mas é sempre o começo de alguma coisa. De um debate, quem sabe.”

 

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