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Lorenzo Mattotti busca essência lúdica na animação 'A Famosa Invasão dos Ursos na Sicília'

O quadrinista de 66 anos resolveu reagir à falta de espaço às fábulas e transformou em animação um livro do escritor Dino Buzzati

Rodrigo Fonseca ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

04 de janeiro de 2021 | 09h00

Consagrado nos quadrinhos pelas HQs Il Signor Spartaco (1982), L'Arbre du Penseur” (1997) e Estigmas (1998), o italiano Lorenzo Mattotti, considerado pelo mercado editorial um dos mais requintados ilustradores da Europa, anda cansado da maneira como a fantasia vem sendo barateada na ficção, em especial nas telas, tornando-se coadjuvante de um realismo mais preocupado em levantar bandeiras políticas do que em transcender.

Com um orçamento de € 11 milhões nas mãos, o quadrinista de 66 anos resolveu reagir à falta de espaço às fábulas e transformou em animação um livro do escritor Dino Buzzati (1906-1972): La famosa invasione degli orsi in Sicilia (1945). Indicado ao prêmio Un Certain Regard de Cannes, em 2019, o longa-metragem foi uma das sensações do último Festival Varilux, em novembro. O forte boca a boca que gerou por aqui estimulou seu lançamento em plataformas brasileiras de streaming: já é possível conferir A Famosa Invasão dos Ursos na Sicília no NOW da Claro/NET e na Vivo TV.

Conhecido entre os brasileiros por seu álbum Carnaval (2006), que ilustrou a partir de imagens da Marquês de Sapucaí e outras manifestações nacionais da farra de Momo, Mattotti buscou a essência lúdica de Buzzati no filme. Na trama, Tonio, o filho do Rei Urso, é capturado por caçadores nas montanhas da sicilianas. Em meio a um inverno rigoroso, esse monarca do reino animal decide invadir o reino em que vivem os homens. Com a ajuda de um poderoso mago, o rei consegue encontrar seu filhote, mas este já não parece mais o mesmo. Em entrevista por Zoom ao Estadão, Mattotti fala de suas incursões na linguagem audiovisual.

Há um depoimento de Dino Buzzati no qual ele diz: “Sou um pintor que, por hobby, durante um período infelizmente bastante longo, fez-se também escritor e jornalista. O mundo, no entanto, crê que seja o contrário e não ‘pode’ levar a sério minhas pinturas”. O quanto um artista gráfico e, agora, também diretor, como senhor, identifica-se com ele?

Um dos grandes pintores metafísicos do século 20, Buzzati foi uma referência na minha formação como ilustrador, sobretudo por buscar, já no traço, maior profundidade para as figuras que representava. Não quis usar tons pastéis e sim trabalhar com a mesma dinâmica de saturação dele. E existe em Buzzati uma celebração do prazer de narrar a partir da construção de mundos diferentes do nosso, mundos imaginários. O Velho Urso é mais do que um simples personagem. Ele é um contador de histórias. Por isso, na versão francesa, eu convidei Jean-Claude Carrière, um escritor, roteirista e dramaturgo, para dar voz a ele. Jean-Claude é um contador de histórias por essência.

O quão imaginário é o Brasil que o senhor retratou no álbum “Carnaval”?

Aquele Brasil é um mundo de cores e de diversidade. O Tempo e a vivência me ensinaram que nunca se deve viajar levando melancolia na mala, nem trazendo melancolia de volta para casa. Eu viajo levando cores. Traduzindo o mundo em cores que harmonizem as minhas lembranças.

E como foi trabalhar as cores de A Famosa Invasão dos Ursos na Sicília na linguagem da animação, fora do papel, do desenho, que é seu hábitat natural?

O cinema de animação incorre muitas vezes num espectro monocromático: não é que ele use uma só cor, mas há uma rejeição em se explorar os contrastes de cor e as sensações que as contradições geram. Eu não escolho cores de maneira racional e, sim, afetiva. Nesse filme, por conta da dimensão geográfica da Sicília, pensei apenas em fazer referência à luz natural do Mediterrâneo. A paleta para colorir a história dos ursos veio das indicações do próprio Buzzati e da gradação que a iluminação trazida pelo sol nas paisagens sicilianas me traziam. A ideia era sempre me remeter à Itália real sua riqueza cultural.

Em Cannes, em 2019, “fábula” era a palavra mais usada para definir seu filme na projeção na mostra Un Certain Regard. Que lugar sobrou para as narrativas fabulares em um mundo que foi assolado pela de pandemia?

Fábulas são ferramentas de libertação capazes de cartografar os buracos em nossa condição existencial em busca de sentido. O cinismo do dia a dia e a desatenção ao próximo fez o nosso imaginário empobrecer. Temos, num certo imaginário coletivo, uma fauna rica em mitos e lendas, mas não apelamos mais a ele, com o pudor de que o uso do simbolismo possa desconectar nossa atenção dos conflitos mais concretos à nossa volta. Estamos passando por uma nova formatação uniforme de olhar. Estamos sendo formatados para “descrer”. Eu quis filmar Buzzati pelo fato de ele ter nos mostrado o contrário: ele mostrou que a fábula pode filtrar a realidade, revelando o que não somos capazes de ver. E eu quero ver. 

 

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