Divulgação
Divulgação

Longas brasileiros apostam na produção independente

O suspense 'Isolados' e a comédia 'Lascados' foram produzidos sem o aporte de verba de incentivo fiscal

FLAVIA GUERRA, O Estado de S.Paulo

18 Setembro 2014 | 02h06

Um suspense rodado em três semanas no interior do Rio com uma equipe enxuta, elenco com nomes de prestígio e apostando em um gênero pouco comum no cinema brasileiro. Uma comédia rodada em 25 dias no interior do Espírito Santo com uma equipe também enxuta, elenco famoso e de olho em um público que em geral encontra poucas atrações nacionais, o adolescente.

Assim são, respectivamente, Isolados, de Tomás Portella, e Lascados, de Vitor Mafra, os dois filmes brasileiros que estreiam nesta quinta-feira, 18.

Isolados é um suspense estrelado por Bruno Gagliasso (também coprodutor do longa) e Regiane Alves, com participação especial de José Wilker (no papel de um médico, seu último no cinema), que, em meio a uma viagem para uma casa de campo isolada, veem-se diante da ameaça de um serial killer. Já Lascados é uma comédia sobre três jovens amigos que, em pleno carnaval, embarcam em uma viagem pelo Brasil a bordo de uma velha Kombi. Estrelado por Chay Suede, Paloma Bernardi, José Trassi e Paulo Vilela, o longa tem participação especial de Guilherme Fontes.

Se as duas produções miram em gêneros e públicos diferentes, um fator decisivo aproxima os filmes e os insere em um time muito especial: o da produção independente. Tanto Isolados quanto Lascados foram produzidos sem o aporte de verba de incentivo fiscal ou vinda de fundos públicos, em um modelo de negócios raro no atual cinema nacional.

A receita para fazer o projeto sair do forno nos dois casos foi um roteiro bem trabalhado, equipes enxutas e plano de filmagem milimetricamente calculado, parcerias com o elenco e equipe, além de financiamento próprio, com busca de investidores diretos, dispostos a aplicar o chamado 'dinheiro bom' (sem isenção fiscal) em um projeto com potencial de retorno comercial. "Seria ótimo ter verba pública, mas este processo em geral leva três anos, entre aprovação nas leis de incentivo, procura de patrocinadores e filmagem. Nosso roteiro pedia um modelo mais ágil", comenta Marcelo Braga, produtor de Lascados, da Santa Rita Filmes. Angelo Salvetti, produtor de Isolados, ao lado de Cosimo Valerio, da Media Bridge, também viu em um modelo ágil a chance de realizar Isolados. "É um suspense, produção incomum no Brasil. Temos experiência em tecnologia e queríamos investir em cinema. Este projeto era perfeito", diz Salvetti.

Para um setor que no Brasil já está majoritariamente atrelado às leis de incentivo, fundos e editais públicos para levantar a verba para seus projetos, falar em um modelo de cinema como negócio independente soa, a priori, como investimento arriscado.

Afinal, são raros os casos de filmes nacionais que, se feitos com investimento direto, dariam aos produtores o retorno financeiro necessário para cobrir os gastos e, em seguida, gerar lucro.

Em geral, somente casos como as mais recentes comédias e filmes como Tropa de Elite se pagariam na bilheteria. "Mas Angelo (Salvetti, produtor de 'Isolados') diz que pegar dinheiro para fazer um filme e não ter de devolvê-lo não é um negócio. Negócio é quando se empresta o dinheiro, investe e lucra", analisa o diretor Tomás Portella, de Isolados, que atualmente filma a comédia Desculpe o Transtorno.

"Claro que as leis de incentivo e os mecanismos de financiamento públicos são necessários, pois há projetos que precisam e merecem o apoio, como os filmes autorais", continua Portella. "Mas há uma série de filmes que podem ser bom negócio e não há motivo para deixar de tratá-los como negócio. A questão é encontrar alguém disposto a investir neles", completa Salvetti, que, entre seus próximos longas, tem projetos híbridos: com verba incentivada e investimentos direto. Estão em desenvolvimento os longas Meu Ex-Imaginário, A Vida Sexual da Mulher Feia, Não Aprendi Dizer Adeus, a história do cantor Leonardo, uma cinebiografia do Chacrinha, entre outros. "Cada filme pede um modelo", diz Salvetti. "O ideal são formas híbridas, pois, graças às políticas de incentivo público, há hoje uma geração de profissionais bem formados e preparados para trabalhar em produções independentes", observa Vítor Mafra, diretor de Lascados.

Para Isolados, cujo orçamento geral gira em torno de R$ 5 milhões, a ideia sempre foi produzir de forma independente. "Tive a sorte de encontrar a Media Bridge. Filmamos sem um centavo de dinheiro público e somente para a finalização ganhamos um concurso do Fundo Setorial, mas esta verba ainda não entrou e estamos lançando também com recursos próprios, em 200 salas", acrescenta Portella.

Já para a equipe de Lascados, pensar em um modelo de negócios independente, em que cada investidor tivesse uma cota do projeto, foi a única solução. "Temos aprovação para captar verba por meio das leis de incentivo, mas ninguém se interessou. Como esta é uma história que pedia agilidade, decidi apostar no financiamento direto por meio de investidores cotistas", explica o produtor Marcelo Braga, cujo filme custou R$ 2,2 milhões, incluindo distribuição. "Ainda que mais modesto que grandes comédias que utilizam verba pública e têm chegado ao mercado em centenas de salas, Lascados tem potencial de público", acrescenta. "Estreamos em entressafra de blockbusters, só na rede Cinemark, nenhuma distribuidora se interessou e quem está cuidando da distribuição sou eu", revela Braga, que lança o longa em quase 70 salas.

Outra tática dos dois filmes é apostar em estratégias paralelas, como divulgação nas redes sociais, ações promocionais em empresas como academias de ginástica, escolas etc. Isolados ganhou um game interativo.

Se em ambos os casos o potencial comercial foi decisivo para que os investidores apostassem na ideia, há projetos em que, exatamente pelo caráter experimental, a saída é a produção independente. É o caso dos filmes da Cavi Filmes, de Cavi Borges, que já produziu mais de 10 longas de ficção e 20 documentários, além de dezenas de curtas. Nesta semana, ele apresenta sua mais nova empreitada no Festival de Brasília, Pingo D'Água, de Taciano Valério, em competição oficial.

"Nossos projetos, por não terem caráter comercial, têm dificuldade de captar verba e vencer editais. Encontramos um modelo próprio, que não depende de editais, do governo, mas de parceiros. São todos muito econômicos", explica Cavi, que também finaliza seis longas e lança Cidade de Deus - 10 anos Depois. "É nosso maior orçamento: R$ 200 mil", conta o produtor, que nesta semana ministra um curso sobre novas formas de financiamento colaborativo. "Não só crowdfunding, mas parcerias com profissionais, que viram sócios, empresas, canais de TV, como Canal Brasil, produtoras de publicidade, que são coprodutoras. Sejam filmes comerciais ou autorais, o futuro é mesclar estratégias", conclui Cavi.

ENTREVISTAS, por Luiz Carlos Merten: 

Chay Suede, ator de 'Lascados'

Você vem de uma família religiosa, presbiteriana. Tinha esse sonho do carnaval em Salvador?

O Vítor (o diretor Vítor Mafra) disse que o filme foi um sonho da gente, de cair na estrada fazendo o que nunca fez. No carnaval, costumava ir pra retiros e lá, se apaixonar não era prioridade. O bacana é que nossa equipe era pequena, muito unida. Viramos uma família. O filme foi feito no ano passado, durante as manifestações. Encontramos muita estrada bloqueada e houve uma pousada com tanta gente que éramos uns dez no quarto. Por tudo isso foi fácil entrar no clima.

Três amigos, uma garota e uma van. Que tal?

Acho que o filme é bem família. É inofensivo, sem palavrões e tem uma coisa ingênua ao expressar o imaginário do jovem. Fizemos muito à vontade, o que foi mérito do Vítor e do Marcelo Braga (produtor).

Como está sua vida depois do estouro na novela Império?

Estou tranquilo. Já tinha feito aquelas coisas ('Ídolos' e a novela'Rebelde'), mas orava a Deus para que algo acontecesse. Fui fazer o teste para ser um dos filhos de Alexandre Nero na novela. Fiz minha parte e percebi o burburinho. A assistente que comandava o teste falava no ouvido da outra. Pensei comigo - deu m... Mal sabia eu que estavam me considerando para ser o próprio Zé Alfredo quando jovem.

Você consegue sair na rua sem ser assediado?

Evito alguns lugares porque sei que vai rolar um agito, mas estou conseguindo levar.

E os convites?

A Globo me ofereceu um contrato de longa duração e já estou na próxima novela de Gilberto Braga, Babilônia. É um autor que sempre me interessou muito. Vou fazer o filho das lésbicas Fernanda Montenegro e Natália Timberg. Desde que apareci na novela, recebi dez convites para filmes, mas estão batendo com a novela. Só pude aceitar dois.

Bruno Gagliasso, ator de 'Isolados'

Como foi encarar o desafio de fazer um filme de terror?

O desafio do (Tomás) Portella foi mostrar que a gente conseguiria fazer um filme de suspense de padrão internacional. Isolados tem um suspense bem forte, puxando para o terror. E tem um roteiro muito legal da Mariana (Vielmond, filha de José Wilker).

Digamos que o desafio do filme começa pelo roteiro. Como lidar com estereótipos de terror?

Eu acho que a Mariana escreveu o filme mais como suspense psicológico e o Tomás (diretor) é que imprimiu a pegada de terror. Foi divertido de fazer porque, quando a gente queria recuar, achando que estava indo para o clichê, o Tomás pedia para ser bem clichê. Ele assumiu que estava fazendo um filme de terror nos moldes tradicionais e foi fundo. Mas o roteiro da Mariana é intrigante. Os personagens são estranhos. Temos a pretensão de entender o ser humano e achar que sabemos tudo sobre as pessoas, mas na verdade não sabemos o que se passa na cabeça dos outros. O ser humano é sempre surpreendente, para o melhor e o pior. É o que também vai mostrar a minissérie (de Glória Perez), Dupla Identidade.

E você faz história - um filme de terror e um assassino em série. É para mudar a imagem?

Não busquei os papéis, foram eles que me encontraram. Claro que, como ator, quero fazer coisas diferentes, não ficar na mesmice. Dupla Identidade também joga com a estranheza das pessoas. O cara bonzinho do escritório, na verdade, é um monstro que caça e mata mulheres. O cinema americano investe nesse personagem, mas queremos mostrar que também podemos fazer, e bem.

Com Mato sem Cachorro, você entrou para o grupo dos atores de um milhão de espectadores. Que tal?

É a maior responsa. E eu espero continuar fazendo coisas que me intriguem e atraiam o público.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.