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Longa sobre a corrida de São Silvestre é lançado em DVD

Filme é dirigido pelo cineasta Lina Chamie

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

28 Dezembro 2014 | 20h01

Há coisa de um ano, em 27 de dezembro de 2013, estreava São Silvestre, o filme. Um biscoito fino, uma estreia pequena para pegar carona na corrida que, dali a dias, estaria sendo disputada. Estamos agora às vésperas de outra São Silvestre e o filme de Lina Chamie está saindo em DVD. A corrida, propriamente dita, foi criada em 1925. A mais tradicional e famosa do Brasil e da América Latina, compõe-se de um trajeto de 15 km pela área central da cidade. No início, era disputada à noite, para terminar na virada. Era uma prova de resistência de homens, e de brasileiros. Assimilou as mulheres, internacionalizou-se, passou a ser disputada à tarde. A tudo tem resistido. Durante 364 dias, São Paulo pertence aos carros, às motos. Apesar das ciclovias, as bicicletas ainda são exceção. No 365.º dia, o humano substitui a máquina. Correm as mulheres e depois, os homens.

Como filha do poeta Mário Chamie, Lina morava na Av. Paulista, no alto de um prédio. Sempre soube da corrida, mas não tinha por hábito prestigiá-la. Um dia desceu para ver a chegada. O que viu marcou-a. Existem os corredores de elite, os que correm profissionalmente. Outros correm em busca da notoriedade, para romper o anonimato, pelo sonho da vitória. E, entre os milhares de participantes, a maioria corre pela alegria. Pela festa. Foi o que Lina Chamie viu, naquele dia. Uma explosão de diversidade, de humanidade. Com seu olho de cineasta, sua sensibilidade de artista, ela percebeu que a São Silvestre dava filme.

Não um documentário tradicional. Um pouco como Luis Buñuel, que se valia do real para criar um mundo surreal, Lina filmou os corredores, mas para dividir a experiência do movimento com os espectadores colocou a câmera no corpo de seu ator-fetiche, Fernando Alves Pinto. Compartilhamos sua visão. A respiração ofegante de Fernando invade a trilha, as batidas de seu coração. Lina não fez um documentário nas bordas. Fez ficção, e das grandes. Se o humano é o tema privilegiado do seu cinema, a personagem é a cidade. Lina ama São Paulo. Que melhor oportunidade que a São Silvestre para revelar a cidade de dentro?


Em ficções como Tônica Dominante, A Via Láctea e, agora, Os Amigos, Lina filmou a cidade, muitas vezes prescindindo do diálogo, substituído pela música, para revelar o interior das pessoas. Cada homem, cada mulher é uma esfinge que acreditamos poder ou saber decifrar. Às vezes nos surpreendemos com o pouco que conhecemos as pessoas. O cinema de Lina Chamie é sobre isso, trata disso. Como o humano, a cidade e a música, ela ama o esporte. Fez um filme sobre o Santos F.C. (100 Anos de Futebol Arte). O time do coração é como um pai, e Lina deve muito ao pai poeta, que lhe descortinou o mundo, a arte, o Santos. Tudo isso transparece em São Silvestre. Os corredores passam pelo Teatro Municipal, e na trilha entra a música de ópera. Cruzam o estádio e se ouve a narração de uma partida de futebol. Para correr, durante toda a prova, Fernando Alves Pinto passou por um condicionamento físico. Lina, com seu diretor de fotografia, também teve de se preparar. Não se ‘reconstitui’ a São Silvestre. Numa dessas preparações, de madrugada, o sol despontou. Melômana, ela imediatamente se lembrou da Sinfonia n.º 1, a primeira de Mahler, que o próprio compositor definia como ‘o despertar da natureza’.

Um filme como São Silvestre é uma experiência única. Você pode se postar na esquina mais famosa de São Paulo, Av. Ipiranga com São João, para ver passar os corredores. É divertido, eventualmente emocionante. Por que correm essas pessoas? Por que testam seus limites? O filme pode não responder às perguntas, e até levantar outras. A diretora fala de seu filme como uma costura entre intelecto e sentimento. Diz que o intelecto sozinho não dá conta de um filme. “O fio condutor de São Silvestre é a emoção.” Enquanto corre, Fernando Alves Pinto balbucia palavras que não conseguimos entender. Mas o vemos, sentimos. Um homem na multidão.

Se o início da corrida, como a Primeira, é a aurora, para o ponto de chegada Lina Chamie selecionou o Poema do Êxtase do místico russo Alexander Scriabin, que um crítico já definiu como a música que nos leva ao mais alto grau do conhecimento - a intuição. A aurora do mundo, o conhecimento e a intuição - o monolito negro de Lina Chamie. De São Silvestre, o filme, o repórter disse há um ano que era nada, mas poderia ser tudo. Um filme sem história, uma viagem no tempo e no espaço que o espectador tem de fazer/preencher. Na revisão necessária desse misterioso objeto não identificado, a Caverna de Platão (e David Lean, Passagem para a Índia) vira uma gloriosa odisseia no espaço interior. Do homem, da cidade. Kubrickiana, sim.

SÃO SILVESTRE

Direção: Lina Chamie

Distribuição: Bretz - Back Five

Preço: R$ 29,90

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