Diamond Films
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Longa norueguês ‘A Pior Pessoa do Mundo’ fala sobre questões existenciais, como a passagem do tempo

Filme disputa na categoria de Melhor Filme Estrangeiro do Oscar

Mariane Morisawa, Especial ara o Estadão

23 de março de 2022 | 05h00

Fosse o mundo justo, A Pior Pessoa do Mundo teria duas indicações além das duas que conseguiu (filme internacional e roteiro original). Uma para sua atriz, Renate Reinsve, que levou o troféu de atuação feminina no último Festival de Cannes, e outra para Anders Danielsen Lie na categoria ator coadjuvante. A Pior Pessoa do Mundo, dirigido pelo norueguês Joachim Trier, estreia nesta quinta-feira, bem a tempo da cerimônia do Oscar no domingo.

O filme causou sensação em Cannes e outros festivais por onde passou ao subverter os códigos da comédia romântica para tratar de questões existenciais, como a mortalidade e a passagem do tempo. O filme é parte da informal Trilogia de Oslo de Trier, formada por Começar de Novo (2006) e Oslo, 31 de Agosto (2011). “Para mim, o filme faz uma ligação com esses dois longas”, disse Anders Danielsen Lie, que participou dos três, em entrevista ao Estadão, por videoconferência. 

Em A Pior Pessoa do Mundo, o ator deixa de ser o protagonista para ser o coadjuvante das angústias e falta de rumo de Julie (Reinsve), prestes a completar 30 anos. Ela tentou medicina, psicologia e agora está na fotografia. Julie se envolve com Aksel (Lie), um cartunista de renome e mais velho. Aos poucos, o relacionamento vai se desgastando. Em uma festa, Julie conhece Eivind (Herbert Nordrum), mais jovem e menos ambicioso. Mas será que é isso mesmo o que ela quer? Aliás, o que ela quer? “Eu achei interessante explorar temas que já estavam nos outros longas, como os limites impostos pelo tempo, mas sob o ponto de vista de Julie”, disse o ator. “Aksel é visto pelo olhar dela.” 

Curiosamente, em A Ilha de Bergman, também em cartaz, Lie interpreta um personagem imaginado por uma roteirista e diretora, dentro de um longa imaginado por uma roteirista e diretora, Mia Hansen-Løve. “É bem interessante ser visto de uma perspectiva feminina”, afirmou. “Estamos tão acostumados ao ponto de vista masculino, já que a maioria dos diretores na história do cinema é homem. É muito libertador ter outras visões.” 

 Mas o ator acredita que todas as produções que fez com Trier desafiam os clichês sobre masculinidade. “Normalmente, os personagens masculinos tomam as decisões e estão à frente da trama. E nós costumamos explorar homens mais vulneráveis, confusos, indecisos, o que na minha opinião está mais próximo da realidade.” Aksel não é tão imaturo quanto o personagem que Lie interpretou em Começar de Novo, mas também está confuso e não sabe exatamente quem é. 

Originalmente, o personagem seria feito por um ator mais velho. Mas, sendo melhores amigos, Lie e Trier foram conversando sobre o filme e acabaram desistindo de procurar outra pessoa. As carreiras do diretor e Anders Danielsen Lie são, a essa altura, indissociáveis. Filho da atriz Tone Danielsen, ele estreou no cinema aos 11, em Herman – Aprendendo a Viver (1990), de Erik Gustavson. A experiência não foi das melhores. Tanto que ele estava acabando a Faculdade de Medicina quando foi chamado para um teste em Começar de Novo. O longa falava de saúde mental, ele estava estudando o assunto, achou que valia tentar. E assim sua carreira como ator teve uma ressurreição.

Mesmo com o sucesso subsequente, Anders Danielsen Lie nunca abandonou a medicina. Entre uma ida a Cannes e viagens para a campanha do Oscar, ele continuou voltando para Oslo para vacinar pessoas contra a covid-19 e atender pacientes no consultório. “Ambos os trabalhos tratam de comunicar-se bem com as pessoas e estar na mesma sintonia que seu companheiro de cena ou paciente.” Ele acredita que ser médico ajuda seus papéis no cinema. “Para mim seria um paradoxo fazer parte de filmes que lidam com o humano e o real estando preso em uma bolha ficcional.”

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