Longa é marcado pela forte presença de Florbela Espanca

Retrato da alma atormentada da poeta compensa as inúmeras limitações do filme

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

01 de maio de 2014 | 18h18

Há filmes interessantes pela maneira como contam uma história e existem outros que valem pela história em si. Florbela, do diretor português Vicente Alves do Ó, está mais próximo da segunda categoria que da primeira. Narra uma vida notável, mas a maneira como o faz não é tão notável assim.

De toda forma, a existência da poeta Florbela Espanca é tão envolvente que compensa as inúmeras limitações estéticas do filme. Florbela teve vida agitada. Não foi reconhecida pelo pai; era, portanto, filha ilegítima numa época em que esta condição existia e significava uma nódoa, espécie de pecado de origem. Teve três casamentos, inúmeros amantes, abortos, três tentativas de suicídio, a última bem-sucedida. Viveu de 1894 a 1930 e, de quebra, pegou uma época de turbulência na política portuguesa, que desaguaria, anos depois, na ditadura salazarista.

A atriz que interpreta Florbela, Dalila Carmo, é excelente. Ela está em todas as cenas porque o diretor Alves do Ó decidiu que não iria reconstruir a vida inteira da escritora, mas apenas a sua fase adulta. É uma decisão difícil. A cada vez que se faz uma biografia – cinematográfica ou literária – é preciso decidir se se tentará uma visão de conjunto ou concentrada em algum período decisivo da trajetória do personagem. Aos biógrafos literários em geral se cobra essa visão ampla, do berço à tumba. Os cineastas têm mais liberdade. Alves do Ó usou dela. Com êxito, neste ponto. O espectador não sente grande falta de conhecer a vida de Florbela em seu conjunto. O trecho fornecido lhe basta.

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Há um aspecto importante na vida de Florbela e o filme não se recusa a explorá-lo – mas não de maneira sensacionalista, diga-se. Florbela, que passava de um amor a outro, não tinha, de fato, grande afeto pelos homens, a não ser por um em particular: seu irmão. "Ilegítimo", como ela, Apeles Espanca (Ivo Canelas) era um tipo cheio de energia, encantador, carismático e aventureiro. Sua paixão eram os aviões. E a irmã problemática, a quem esperava salvar. O tema do amor fraterno, que fica a uma linha do incesto, mas não a ultrapassa, perpassa o filme inteiro. E está na origem da crise terminal da escritora.

E, sim, há a escrita, a prosa e, sobretudo, a poesia de Flor bela de Alma da Conceição Espanca, Florbela, e que é o motivo e a razão de falarmos dela até hoje. Livro de Mágoas e Charneca em Flor são tidos como obras-primas pelos especialistas. Escreveu de tudo – de artigos para jornais a contos – mas era, acima de tudo, poeta.

Essa dimensão do apego à palavra costuma ser um desafio para cineastas que retratam escritores. Foi também para Vicente Alves do Ó, e não se pode dizer que tenha passado incólume pela prova. Através do filme, o espectador fica conhecendo alguma coisa da alma atormentada da escritora; aprende muito pouco, porém, da magnífica poeta que ela foi. O filme não opera essa transfiguração da obra em narrativa de vida, coisa que alguns poucos conseguem - por exemplo, Raul Ruiz reinterpretando Proust em O Tempo Reencontrado, ou Julio Bressane reinventando uma prosa filosófica radical em Dias de Nietzsche em Turim.

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