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Longa do diretor Noah Baumbach retrata o universo da dança

Com a dança de fundo, ‘Frances Ha’ deixa o público com a sensação de invadir a tela

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

21 de agosto de 2013 | 20h08

Filmes como O Cheiro do Ralo e Heleno puseram a empresa produtora RT Features no mapa, e agora ela aparece associada à realização de Frances Ha. O longa estreia sexta (23) nos cinemas brasileiros. É interpretado por Greta Gerwig, de A Casa do Diabo, e tem direção de Noah Baumbach. Você sabe quem é – o autor de A Lula e a Baleia, que tanta comoção causou em 2005. Trabalhando em estreita colaboração com a atriz – que coassina os diálogos com ele – e filmando em rigoroso preto e branco (como Heleno), Baumbach não faz propriamente um filme, no sentido tradicional, mas tenta colocar na tela o que os norte-americanos chamam de ‘piece of life’.

A vida como ela é – existem momentos em que o espectador tem a impressão de estar sendo invasivo, ao penetrar na intimidade da protagonista, Frances. A garota é bailarina, ou quer ser. Mas a carreira não anda, parece emperrada como a própria vida de Frances. Ela começa o filme dividindo o teto com uma amiga. Entendem-se – ou melhor, completam-se com tanta intensidade que a própria Frances, lá pelas tantas, observa que são como duas lésbicas casadas há muito tempo, mas numa união sem sexo.

Ocorre que a amiga sempre sonhou em morar em determinado lugar e a oportunidade surgiu, mas ela tem de dividir o apartamento com outra. A própria Frances passa a morar com dois rapazes. Ela estranha, a princípio, mas termina por se adaptar, o que não significa que o processo não seja marcado por indecisões, por idas e vindas. E, durante todo o tempo, Frances tenta resguardar a amizade, que, para ela, é o mais importante. O filme passa-se no universo da dança, mas se fosse outra a área de interesse artístico e profissional a realidade de Frances talvez não fosse diferente por isso.

O mais curioso é que também estreia sexta (23) outro filme – o documentário brasileiro A Alma da Gente, de Helena Solberg e David Meyer, em que a dança também desempenha um papel decisivo. Não só os gêneros são distintos, uma ficção, um documentário. O meio socioeconômico também diverge e, na produção 100% nacional – posto que Frances Ha é uma parceria internacional –, Helena e Meyer acompanham jovens que participaram de um projeto de dança do coreógrafo Ivaldo Bertazzo na Maré, no Rio. A dança abre uma janela na vida dos jovens favelados, leva-os a sonhar alto. O filme acompanha os jovens num antes e depois, quando eles estão sonhando e depois que os sonhos se chocam com a realidade. A Alma da Gente é belo – e duro. Prepare-se para o que poderá ser um choque.

Frances Ha trata ficcionalmente muitos temas que A Alma da Gente aborda como ficção. São olhares cruzados. Uma ficção nas bordas do documentário, um documentário no limite da ficção. O nova-iorquino (do Brooklyn) Baumbach, de 43 anos, vem do que se pode definir como um meio intelectual. O pai, romancista e crítico de cinema, a mãe, crítica de música. Noah estreou jovem, aos 26 anos, com Kicking & Screaming, em 1995. O filme é sobre dois amigos que se formam na universidade, mas se recusam a tocar a vida. A amizade, as indecisões também estão em Frances Ha. O segundo longa, Mr. Jealousy, dois anos mais tarde, é sobre um cara tão ciumento que vai fazer análise para tentar entender seu sentimento de posse em relação à namorada. Ecos de  Mr. Jealousy também estão no longa que estreia esta semana.

Mas foi A Lula e a Baleia que garantiu a projeção de Baumbach. O filme inspira-se na infância e nos efeitos do divórcio dos pais na vida dos filhos. Frances Ha meio que sintetiza a experiência humana e artística de Baumbach – as indecisões da (i)maturidade, a dependência, as dores da separação. Um aspecto curioso – e não negligenciável – é que seu O Solteirão, de 2010, com Ben Stiller, sobre dois irmãos (e outra história de amizade problemática), é um dos filmes de cabeceira do escritor Bret Easton Ellis, de Psicopata Americano.

Baumbach é certamente um diretor talentoso, embora às vezes passe a impressão de ainda não dominar nem a mídia (o cinema) nem o material (o próprio roteiro). Existem cenas supérfluas que poderiam ser suprimidas para uma narrativa mais concisa, sem prejuízo do entendimento dos personagens nem da ação. A falta de mestria não deve desanimar ninguém, e muito menos impedir que as boas virtudes do filme sejam reconhecidas. O que aproxima Frances e Sophie (a amiga) é também o que as separa. Frances dá a impressão de andar à deriva na vida. Sophie tem uma meta e resolve investir nela, mesmo sem estar certa do resultado.

É a marca de Baumbach. Ele é atraído por personagens complicados e o que lhe interessa é justamente abordar as dificuldades da vida contemporânea. No limite, Frances Ha é sobre o que fazer quando seus sonhos não se realizam. Ainda aqui, o contraponto com A Alma da Gente é visceral. É como se Baumbach e Solberg & Meyer estivessem querendo dizer que a vida não tem scripts prontos e que é preciso ‘improvisar’. Baumbach transforma improvisação em método de trabalho, ou assim parece. A vida como ela é. Imagens que parecem roubadas. Frances Ha é uma boa parceria internacional da RT. Mostra que esse tipo de procedimento pode ser aplicado ao cinema autoral, no momento em que a Total Entertainment também se torna parceira do argentino Daniel Burman – e o novo longa dele, A Sorte em Suas Mãos será outra das estreias de sexta.

 

FRANCES HA

Direção: Noah Baumbach. Gênero: Drama (EUA/ 2012, 86 minutos). Elenco: Adam Driver, Charlotte d’Amboise. Classificação: 12 anos.

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