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Longa 'Confia em Mim' mistura suspense e política

Filme se conclui numa nota de ambiguidade moral para propor reflexão

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2014 | 02h08

Michel Tikhomiroff admite que tem visto encolher o circuito que exibe seu longa Confia em Mim. Inicialmente prevista para 140 salas, a estreia encolheu para acomodar o blockbuster da vez (Capitão América 2). Ficou reduzida à metade, 70 salas. Neste fim de semana, elas foram reduzidas para 40, para acomodar os outros nacionais que estão entrando - Júlio Sumiu e Copa de Elite. Michel - filho do também cineasta João Daniel Tikhomiroff, de Besouro - sabe que o mercado é assim mesmo. Mas fez um filme de suspense, que gostaria que fosse popular. "Puseram na sala Vip do JK Iguatemi, cujo ingresso é o mais alto da cidade. Não poderia dar certo." Confia em Mim fechou a primeira semana com 23 mil espectadores, segundo dados do Filme B.

É o eterno problema do cinema brasileiro - o nó górdio da exibição. Confia em Mim foi recebido a pedradas por boa parte da crítica. Ao ler o que muita gente escreveu sobre o longa você fica em dúvida - a mediocridade atribuída ao suspense de Michel Tikhomiroff está no olhar, ou na forma como essas pessoas viram o filme. E que não tenham se dado o trabalho de captar a sutileza da interpretação de Fernanda Machado, isso sim, é grave. "Tentei contratar a Fernanda para uma série que fiz na HBO, O Negócio, mas tivemos problemas contratuais e não deu. Terminei fazendo a série com outra atriz (Rafaela Mandelli). Enquanto escrevíamos Confia em Mim, Fábio Danesi (o roteirista) e eu nos demos conta de que Fernanda seria perfeita para fazer a Mari. E dessa vez ela pode aceitar."

Mari - Mariana -, a protagonista de Confia em Mim, é uma chef que não consegue desabrochar em sua cozinha porque é adjunta. O chef mina sua segurança impedindo-a de voar. E Mari é a ovelha negra da família burguesa. A irmã é um sucesso e quando a mãe faz uma observação que se preocupa com a outra filha, a bem-sucedida retruca - "Ah, mãe é a Mari, não é?" Ela é tratada assim, meio com desdém. Encontra um homem que a estimula, mas o personagem de Mateus Solano - o Félix da novela Amor à Vida, mas o filme é anterior - é um cafajeste que vai tomar o dinheiro da garota e ainda terá a cara de pau de voltar para que ela o ajude, sem saber, no próximo golpe que pretende aplicar.

Embora o cinema brasileiro tenha uma longa lista de bons serviços no gênero policial, em geral são obras de realismo social ou investigação de linguagem - filmes como O Assalto ao Trem Pagador, de Roberto Farias, e O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla. Confia em Mim busca uma outra via, e não faz feio - o suspense. "O filme não nasceu porque queríamos fazer um filme de suspense. Surgiu em função da história que queria contar. A vocação dessa história é que era o suspense", conta o diretor. Há muito tempo atrás, Michel Tikhomiroff ainda nem era diretor quando telefonou para um amigo e o cara lhe disse que estava numa delegacia de polícia, com a irmã. Contou que a irmã havia caído no golpe de um namorado espertalhão.

Michel pensou - "Cara, que história! Vou fazer um filme." O filme pronto guarda pouca, ou nenhuma semelhança com a história real. É produto da ficção, mas o diretor e o roteirista se empenharam para dar plausibilidade à trama. Fizeram a lição de casa. "Como nenhum de nós dois tinha experiência com suspense, o que a gente fez? Fomos estudar quem tinha..." Alfred Hitchcock, quem mais? "Revimos e estudamos A Sombra de Uma Dúvida, que o próprio Hitchcock considerava sua obra mais verossímil, e também Suspeita, Interlúdio." Todos filmes dos anos 1940, em preto e branco. A lista foi ampliada até Vertigo/Um Corpo Que Cai, de 1958, que foi eleito no fim de 2012 como o melhor filme de todos os tempos numa enquete promovida pela revista Sight and Sound.

"Nos outros filmes estudamos o próprio mecanismo do suspense. Em Vertigo, o recorte foi mais específico, e o que nos interessou foi a trilha (de Bernard Hermann). Achávamos, Fábio e eu, que só a curva do roteiro não daria conta da virada da personagem e buscamos entender como, em Hitchcock, a música participa do processo." A virada, em Confia em Mim, ocorre na cena do crítico - quando todo o pessoal do restaurante se fragiliza perante o crítico de gastronomia que faz suas escolhas de cardápio no salão e ela assume uma frieza e uma objetividade que (re)colocam o chef em seu lugar - o de quem não tem nada a fazer naquela cozinha.

A partir daí, a personagem cresce e se articula para sua vingança, que conta com algumas ajudas, como você poderá ver, assistindo a Confia em Mim. Michel e Danesi tiveram tempo de avaliar bem o filme. "Pode até parecer pretensão, e na verdade pouca gente notou, mas não queríamos acabar o filme com uma solução só policial. Queríamos propor uma reflexão sobre o Brasil atual, por que não? Com tanto linchamento moral ocorrendo no País... Nossa solução é mais um convite à reflexão, porque envolve a ambiguidade moral. É a velha questão de forjar provas, quando elas não existem. O público participa emocionalmente. Tenho visto, acompanhando algumas sessões, que o público se angustia e aprova porque sabe que Mari é uma vítima e, em caso contrário, o aproveitador vai continuar à solta. Mas isso é ético?" É a questão que Confia em Mim deixa no ar.

PONTO FORTE DO FILME É A SUTILEZA DA

INTERPRETAÇÃO DE FERNANDA MACHADO

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