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Longa 'A Criação do Sentido' discute a atual crise de valores

Ao retratar a vida de um pastor de ovelhas, filme de Simone Rapisarda mostra que o significado de tudo está nos detalhes

FLAVIA GUERRA, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2014 | 03h05

Pacífico é pastor de ovelhas que vive desde sempre nos alpes toscanos. Nascido no pós-guerra, cresceu ouvindo relatos das atrocidades que o inimigo (sobretudo o exército alemão) cometeu nas distantes e ainda hoje preservadas montanhas dos Alpes Apuanos, próximos à Linha Gótica, na Toscana, onde oficiais nazistas massacraram não só militares como centenas de civis italianos antes de se retirarem.

É a rotina de Pacífico, cujo nome não é, obviamente, uma obra do acaso, que o longa A Criação do Sentido (Creazione del Significato, no original) retrata. O filme tem sessões hoje, às 22h15, no Espaço Itaú Frei Caneca; amanhã, às 14h, no Espaço Itaú Augusta; na sexta, às 17h, no Centro Cultural São Paulo, e, no dia 27, às 15h, no Cinesesc.

São várias chances de conferir este raro, e belo, filme. Quem se encantou com a forma como As Quatro Voltas, de Michelangelo Frammartino, retrata os ciclos da vida em uma Calábria quase parada no tempo vai encontrar em A Criação do Sentido o mesmo tempo dando voltas ainda maiores. Entre o prosaico dia a dia de Pacífico e a Segunda Guerra, há um tempo que não pode ser medido, mas, sim, sentido. O longa pertence a uma escola do novíssimo cinema italiano, que economiza nas palavras para revelar muito nos gestos e nas entrelinhas.

No caso de Pacífico, muito mais falante que os personagens de Frammartino, entre o trabalho com os animais, a natureza e agricultura natural, o pastor relembra histórias que ele mesmo não viveu, mas sabe de cor como se tivesse sido testemunha de cada uma delas. Enquanto o passado de um continente em guerra corre em paralelo com seu presente, um futuro incerto se desenha no horizonte de Pacífico.

Diante da crise que se abateu sobre a Europa nos últimos anos, ele, endividado, corre o risco de perder sua propriedade. Surge então a possibilidade de vendê-la a um alemão. Cidadão de um país que se deu melhor no jogo da União Europeia, o tedesco está disposto a comprar o terreno para transformá-la em casa de veraneio. À sua frente, o pastor tem o desafio de ceder ou resistir.

Sobre a escolha de um personagem alemão para representar mais uma vez o lado mais forte da história, o diretor Simone Casanova é claro: "Na União Europeia, a Alemanha é economicamente mais forte. Nós tínhamos uma moeda diferente antes. Hoje todos usam o euro como moeda. O que isso nos trouxe de fato? Quem é o verdadeiro inimigo? Existe?", questionou o realizador, em entrevista ao Estado durante o Festival de Locarno 2014, realizado em agosto na Suíça.

Ao escolher personagens tão simbólicos para refletir sobre um período historicamente curto, mas humanamente imenso e palco de tantas mudanças, Casanova obriga seu espectador a se perguntar sobre o significado de tudo isso. É esta dura tarefa de criar, entender ou atribuir um sentido à recente história da humanidade que o diretor divide com a plateia.

A julgar pela descrição acima, o filme pode parecer pedante ou até mesmo confuso. Ao contrário. É por meio da singeleza das imagens de natureza, da calmaria até mesmo desconcertante da vida nos Alpes que o sentido se constrói naturalmente na tela. "A história é feita de pequenos fatos também, que têm seu simbolismo. Minha intenção era a de criar um significado junto com o espectador", declarou Casanova.

Vale lembrar que Locarno, um dos mais importantes festivais dedicados ao cinema autoral do mundo, dedicou o prêmio de melhor diretor emergente, na seção Cineastas do Presente (que revela os novos talentos), a Casanova.

Ao misturar o cinema documental ao antropológico e, além disso, incluir elementos de ficção, o diretor busca um momento em que não há tempo. Ou melhor, o tempo é único. É como o Aleph de Jorge Luís Borges, um ponto do espaço que contém todos os outros pontos. O momento de Pacífico simboliza passado, presente e futuro, mas não dá resposta pronta ao espectador.

Siciliano que emigrou ainda criança para o Canadá, Casanova olha com familiaridade e, ao mesmo tempo, curiosidade para seu país. "A Itália é efervescente, onde, assim como no mundo, há um pensamento dominante, o capitalista e globalizado, que tirou o significado de quase tudo", explicou o diretor, que estreou no longa-metragem com A Árvore dos Morangos (2011, 36.ª Mostra). "Este filme é uma busca pessoal do que significa o modo de vida hoje. O de Pacífico, local, baseado na economia caseira, artesanal, está se tornando obsoleto. O que vai restar da cultura de cada povo?", indaga.

"Devíamos parar para pensar que o 'capitalismo à italiana', que nasceu no pós-guerra, foi um sonho lindo, mas que é preciso encontrar novos modelos. A resistência da elite política italiana devia encontrar novas formas de driblar a vontade perversa de se adequar a modelos que a História já mostrou que estão falidos."

Seria uma volta à natureza uma possível solução? É por isso que os animais se tornam praticamente personagens desta fábula contemporânea? "Sim. A forma como retrato a natureza é também minha homenagem a Robert Bresson, cineasta que adoro e que retratou como poucos a natureza e a falta de comunicação da sociedade", contou o diretor, que, para seu terceiro longa, escolheu filmar o Haiti. "É fascinante a história deste povo."

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