Locarno homenageia Mia Farrow

Aos 69 anos, atriz americana recebe prêmio por sua carreira, que inclui o clássico de suspense ‘O Bebê de Rosemary’; filme brasileiro 'Ventos de Agosto' teve boa acolhida do público

Flavia Guerra, O Estado de S. Paulo

08 de agosto de 2014 | 20h09

LOCARNO - Quando se ouve falar de Mia Farrow, impossível não pensar automaticamente em Woody Allen e Dylan Farrow, filha adotiva da atriz, que em outubro de 2013 publicou artigo na revista Vanity Fair, acusando o diretor de tê-la molestado sexualmente. Mas Mia, que aos 69 anos recebe nesta edição do Festival de Locarno o Leopard Club Award pela carreira, entregue na noite desta sexta-feira, 8, avisou, por intermédio de seu relações públicas, que não vai fazer nenhum comentário sobre a contenda Allen X Dylan Farrow.

Dito isso, Mia se mostrou muito solícita e disposta a falar de (quase) tudo. De bom humor, quando questionada sobre o que mais a orgulha em sua longa carreira, respondeu que a fase atual é seu melhor momento e que teve a sorte de trabalhar com diretores incríveis. Não por acaso, um dos cineastas com quem trabalhou e que a tornaram uma estrela, Roman Polanski, é outro homenageado em Locarno, onde mostra Venus in Furs, ministra aula magna e recebe prêmio especial no dia 15. 

Foi justamente O Bebê de Rosemary, de 1968, com Polanski como diretor, que a atriz apresentou na quinta para a plateia que lotou o auditório Fevi. “O meu primeiro papel principal. Tive muita sorte de consegui-lo, pois acho que a primeira opção para ele era Jane Fonda. Foi o papel com que pude provar que era capaz de fazer algo difícil”, declarou a atriz, que revelou nunca ter assistido ao filme todo. “Não é divertido assistir a mim mesma”, confessou.

Sobre o longa de Polanski, ela comentou: “Tinha participado de dois filmes que ninguém tinha visto. Mas havia atuado em uma série para a TV por dois anos. Já havia conseguido algum reconhecimento, ganhei US$ 32 mil e achava que estava rica. E quando O Bebê de Rosemary foi lançado, minha vida mudou completamente e se tornou um caos. Aprendi muito cedo, aos 21 anos, que o sucesso profissional não faz necessariamente alguém feliz”.

A fama lhe abriu muitas portas, mas ela ainda precisava encontrar uma forma de se realizar. “Assumi que tinha de fazer minha vida valer a pena.” E para promover a mudança que buscava, Mia decidiu meditar, ir à Índia, casar com André Previn (músico, compositor e maestro americano com quem foi casada de 1970 a 1979, o pai adotivo de Soon-Yi Previ, atual mulher de Woody Allen), viver na Inglaterra e ter filhos. 

“A vontade de ajudar os outros me fez ter e adotar filhos. E eu digo a eles: ‘Não procurem a felicidade. Procurem alguém para ajudar. E a felicidade vai encontrá-los’. Eu estava buscando isso. E isso me fez adotar dez crianças. A maioria com profundas dificuldades. Este foi meu jeito de significar algo para alguém”, relembrou a atriz, que é embaixadora da Unicef desde 2000. 

Sinatra. É com carinho que Mia Farrow se refere a Frank Sinatra, com quem foi casada entre 1966 e 1968 e que era quase 30 anos mais velho que ela. “Uma lembrança que tenho dele? Ele era um grande ator. E penso que sem este talento, as canções teriam menos significado para ele. Interpretava suas músicas, realmente. Lembro de suas melhores gravações de discos. Ele era disciplinado e seis semanas antes de gravar não fumava nem bebia. Ele convidava a todos da banda, pedia que eles levassem suas mulheres, pois o que gostava era de cantar para uma plateia. Era capaz de gravar um disco inteiro em uma só noite, mas detestava repetir. Praticamente fazia um show durante a gravação, mas, mesmo assim, dizia que era um ator envergonhado. Talvez por isso não tenha feito mais filmes.”

Filme brasileiro tem boa acolhida do público

Primeiro longa de ficção de Gabriel Mascaro, ‘Ventos de Agosto’ é o único do País a integrar a competição oficial 

LOCARNO - O diretor brasileiro Gabriel Mascaro tem no currículo documentários de sucesso como As Aventuras de Paulo Bruscky e Domésticas. Em todos, há sempre um olhar atento para os limites entre ficção e realidade. Ao assinar Ventos de Agosto, seu primeiro longa de ficção, ele faz uso de toda experiência que adquiriu com o documentário para criar uma narrativa porosa, que está aberta a absorver o que de melhor a realidade oferece. 

Para isso, mistura o roteiro pré-escrito com ações espontâneas dos personagens não-atores do filme, que contracenaram com a protagonista Shirley, vivida pela atriz Dandara de Morais. Ela, aliás, ao contrário dos não-atores, não tinha roteiro e trabalhava suas ações com base em proposições e improviso. “Assim como a vida e a morte, que não são separados, o real e o ficcional também estão ligados. São partes da mesma experiência de filmar e experimentar a vida”, declarou o cineasta para a imprensa do Festival de Locarno, após a primeira sessão mundial de Ventos de Agosto, único filme brasileiro na principal competição do festival. 

Se, pela manhã, o longa agradou à crítica internacional, em sua primeira sessão para o público, à tarde, teve acolhida ainda melhor. A plateia embarcou na história de Shirley, garota que chega da cidade grande para viver em um pequeno vilarejo de pescadores em Alagoas. Enquanto seu romance com o pescador Jaison (Geová Manoel dos Santos) segue, o forte vento da ‘zona de convergência intertropical’ se revela mais um personagem que ronda as vidas dos moradores da vila. / F.G.

A REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DA ORGANIZAÇÃO DO FESTIVAL

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