Locarno homenageia Brando e exibe "Queimada"

O cineasta italiano Gillo Pontecorvo aproveitou a exibição do filme Queimada, na Piazza Grande, em homenagem ao ator Marlon Brando, morto em 2 de julho deste ano, para reviver alguns episódios da movimentada participação do ator americano, no seu filme anticolonialista. Com seus 85 anos, mesmo dizendo ter se esquecido de muitos pormenores do passado, Gillo Pontecorvo contou alguns momentos dos bastidores das filmagens. "Eu e Marlon Brando tínhamos o mesmo caráter turrão e vivíamos discutindo. Mesmo assim, uma vez fiz com ele repetisse uma cena 41 vezes. Não me lembro exatamente qual, mas só parei quando ele aceitou fazer como eu queria. Desde o começo eu sabia que não seria fácil trabalhar com um ator, na minha opinião, o melhor do mundo, capaz de rir com um olho e chorar com o outro", comenta o cineasta italiano. Pontecorvo, aproveitou para reafirmar sua militância de cineasta de esquerda, próximo do Partido Comunista, e que o filme Queimada foi feito com a intenção de ser um filme político anticolonialista, tanto quanto A Guerra da Argélia. E que a situação da época colonial, nas Caraíbas, mostrada no filme, não difere muito ao atual neocolonialismo americano no Iraque, com a diferença de que em lugar da cana-de-açúcar a razão da invasão foi o petróleo.A idéia de convidar Marlon Brando nunca lhe teria vindo, pois parecia-lhe impossível, não fosse o próprio ator ter declarado, numa entrevista, que gostaria de fazer um filme com o diretor de A Guerra da Argélia . Feito o contato, Marlon aceitou com base na metade do roteiro escrito. Já com tudo assinado e acertado é que Marlon Brando quis saber como seria a segunda parte do filme. Depois de Brando ter recusado um segundo Oscar, em 72, em protesto contra o não respeito da lei dos índios nos EUA, o ator tomou a iniciativa de contatar Pontecorvo para fazer um filme sobre os peles vermelhas. "Só você poderá fazer esse filme, aqui nos EUA não vejo nenhum capaz", disse Brando a Pontecorvo. Como não conhecia muita coisa sobre os índios americanos, Pontecorvo quis conhecê-los de perto e Brando obteve as autorizações para que vivesse um mês numa tribo sioux. "Infelizmente, conta o cineasta, os produtores mudaram de interesse e abandonaram o projeto. O filme sobre os índios, desejado por Brando, nunca foi feito".Ao programar o filme Queimada, em homenagem ao ator Marlon Brando, o Festival de Locarno descobriu que a MGM se prepara para redistribuir o filme, cujo som foi alvo de aperfeiçoamentos. Gillo Pontecorvo explicou que a versão original do filme previa o idioma espanhol e não o português (mesmo porque não houve colônias portuguesas no Caribe), mas que os produtores da época, para evitar uma identificação do filme com a revolta dos negros de Haiti e com o colonialismo francês, espanhol e inglês na região, exigiram que o idioma do negros seria o português.Leia Marlon Brando morre aos 80 anos em Los Angeles

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