Locarno discute relação entre cinema e jornalismo

O cinema pode servir para denunciar as perigosas relações do poder com ojornalismo, como mostrou Orson Welles, no seu magistral Cidadão Kane, mas pode também repercutir as grandes enquetes e reportagens de jornalistas,como foi o caso do filme Os Homens do Presidente, de Alan Pakula, sobre o caso Watergate, denunciado pelos jornalistas Carl Bernstein e Bob Woodward, do Washington Post.Mas pode também retratar uma campanha de desmoralizaçãoo, lançada pelaimprensa, veladamente a soldo de um partido, explorando o sensacionalismoou para satisfazer leitores conservadores, como foi o Monicagate (caso em que uma ex-estagiária da Casa Branca afirmou ter mantido uma relacionamento com o então presidente dos EUA, Bill Clinton, em 1998), destinadoa derrubar os democratas do poder e mostrado no filme The Hunting of ThePresident, de Nickolas Perry. Sem se esquecer do papel da imprensa americana e das agências de notícias anglo-americanas que caucionaram a mentira e o desejo de guerra do presidente George W. Bush, deixando-se instaurar, sem qualquer base concreta, a suspeita da existência de armas de destruição de massa no Iraque, comportamento denunciado pelo recente filme de Robert Greenwald, Uncovered - The War on Iraq.O Festival de Locarno selecionou esses filmes citados e mais 85 filmes,na retrospectiva Newsfront, dedicada ao cinema e jornalismo, e incluiuoutros filmes sobre esse mesmo tema, nas mostras paralelas, fora um debatecom cineastas sobre a questão. Faltou a presença de Michael Moore, cujo filmeFarenheit 11 de Setembro deu um caráter político Festival de Cannes deste ano ao receber a Palma de Ouro. o irreverente cineasta, embora ausente, mandou Roger & Eu, seu primeiro documentário em que aborda as demissões da General Motors, em 1930, que deixaram 30 mil empregadosna rua, na cidade de Flint. Carl Bernstein passou por Locarno, quando participou de debates, e Nicholas Perry virá no fim de semana, quando se encontrará com a imprensa.Enquanto isso, estreou na Piazza Grande, um filme dinamarquês, de NikolajArcel, baseado no romance Intriga Real, de Niels Krause-kjaer, no qual é um jornalista, credenciado no Parlamento, quem revela uma conspiraçãodentro de Partido do Centro, para derrubar a mulher aspirante à presidência do partido e futura primeira-ministra. O filme consegue criar suspense e envolver os espectadores nas querelas internas do partido, até ser desmascarado o deputado ambicioso, num programa de entrevista ao vivo. O jornalista desse filme ficção, Ulrik Torp, tem a mesma tenacidade eespirito de pesquisa dos jornalistas do Washinton Post. O sucesso do filme na Piazza Grande mostra que o público sabe valorizar o trabalho dosjornalistas interessados em exercer a fundo o direito à liberdade deimprensa e encontrar a verdade, mesmo com risco de perda de emprego.Ao fim da entrevista, um jornalista levantou a questão da criação deconselhos de imprensa, no Brasil, tentativa numa tentativa para amordaçar aimprensa. O diretor do filme dinamarquês, aproveitou para destacar: "Filmes como esse servem também para reforçar o papel da imprensa dentro dos países democráticos e a evitar as tentações do governo de amordaçar ou censurar a imprensa".

Agencia Estado,

12 de agosto de 2004 | 13h34

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