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‘Lo Que Lleva el Rio’ mostra boa fase do cinema da Venezuela

O longa traz uma história de cisão e conflito quando a jovem índia Dauna decide estudar sem por isso renunciar às suas raízes

Luiz Zanin Oricchio , O Estado de S. Paulo

22 Outubro 2015 | 03h00

Há um novo cinema venezuelano despontando e Lo que Lleva El Rio, de Mario Crespo, é um exemplo dessa boa fase. O filme é uma das boas atrações de hoje na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Trata-se da recriação da história de Dauna, uma jovem índia que decide estudar sem por isso renunciar às suas raízes. Ou seja, é uma história de cisão e conflito. 

A opção de Crespo é pela autenticidade, a começar pela língua. Há diálogos em espanhol, mas eles são relativamente raros. O idioma predominante é o warao, usado pela primeira vez em um filme da Venezuela. 

A narrativa é apresentada de maneira não linear. Vemos uma mulher de certa idade agradecer em público um reconhecimento. Na verdade, é seu ingresso na Academia de Letras. Depois, toma uma barca e segue em direção a uma aldeia ribeirinha. O rio não está apenas no título. Ele é parte integrante de toda a narrativa. Uma narrativa líquida, se poderia dizer. 

Acontece que a senhora não é exatamente bem-recebida entre os seus. Parece estranha, embora fale o idioma e saiba como se comportar. Ao mesmo tempo, deixa escapar algo diferente, um tom de fala, as maneiras, os gestos, as roupas, adquiridos no contato com a civilização. Ao longo do filme, veremos do que se trata. A narrativa se desenvolve em flashback e teremos de voltar ao passado para ver como se constrói o dilema, ou melhor, os dilemas de Dauna, e como eles a levam a situações fora de controle. 

Ao lado dessa história, passam alguns comentários fundamentais sobre a situação da mulher no mundo novo. E, nesse caso particular, da mulher indígena, o que implica dizer, com uma complicação a mais. Ou seja, ser fiel à sua cultura ou à sua vocação, no caso de Dauna, o de escritora? Esse é o polo de tensão com o mundo dito civilizado, atraente, mas que cobra caro por suas recompensas, inclusive sob a forma de uma certa descaracterização, de perda da cultura originária, por mais que a personagem tente mantê-la.

O outro dilema refere-se à esfera afetiva. Dauna (Yordana Medrado) apaixona-se por Tarsicio (Eddie Gomez), mas um casamento warao exige dedicação exclusiva por parte da mulher. Ainda assim, a muito contragosto, Tarsicio conduz a mulher em seu barco à escola onde ela primeiro recebe instrução e depois leciona. Mas essa situação não pode se manter por muito tempo e o ciúme corrói o homem. Como se sabe, o ciúme é mau conselheiro e, acima de determinado grau, tido como normal, pode produzir estragos consideráveis numa relação. 

De certa forma, Lo que Lleva el Rio inova na abordagem do conflito entre cultura indígena e “civilizada”, dominante. Sempre se insiste na intrusão da cultura dominante sobre a dominada, com efeitos deletérios sobre seus integrantes. Há muito de verdade nisso, mas também existe aí algo do mito de Rousseau do “bon sauvage”, conspurcado pela civilização. Aqui se vê como a própria cultura pode se desequilibrar simplesmente porque um dos seus membros resolve ser diferente dos demais. Há uma rigidez, uma falta de flexibilidade que gera anticorpos mortais contra gente como Dauna. Enfim, o longa, muito bem filmado, com exceção de uma sequência que parece meio precária, propõe questões interessantes para serem pensadas. 

Filmado na floresta, no delta do Orinoco, Lo que Lleva El Rio, contorna as habituais dificuldades de filmagem na mata. Tem som eficaz e mergulha o espectador na experiência de uma realidade que não é a sua. Produz também a (boa) sensação de estranhamento ao questionar determinadas certezas contemporâneas. Uma prova de maturidade desse diretor nascido em Cuba e radicado na Venezuela. 

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