Livro revela Mário Peixoto frágil e intuitivo

Mário Peixoto: Escritos sobre Cinema, de Saulo Pereira de Mello será lançado dia 9 de agosto, pela editora carioca Aeroplano, no Espaço Unibanco de Cinema. O livro traz os quatro únicos artigos que o cineasta Mário Peixoto publicou em toda a vida, inclusive o último, cuja autoria ele morreu atribuindo ao gênio do cinema russo Sergei Eisenstein, de O Encouraçado Potenkim. Mário, morto em 1992, só conseguiu terminar um único filme, Limite (1931), que até hoje encanta pela sensibilidade e pela estrutura inovadora, sem uma narrativa linear. Limite é um dos filmes mais importantes da história do cinema brasileiro e do cinema mudo. O interessante no livro é a descoberta de um Mário frágil, elegante, avesso a teorizações, que fazia cinema por intuição, mas com muito profissionalismo.O contato de Saulo de Mello com Mário Peixoto começou em 1953 ainda na faculdade de Filosofia. "Eu convidei uma moça para sair e ela disse que não poderia porque ia passar um filme brasileiro mudo. Eu imediatamente disse: Não seja por isso, eu fico. O filme era Limite. Eu fiquei impressionado, nunca tinha visto nada parecido", conta Saulo de Mello. Hoje, com 67 anos, o escritor ainda mantém a mesma atração pela obra do cineasta, a ponto de montar um arquivo, com a ajuda do cineasta Walter Salles, com os registros deixados por Peixoto e depoimentos coletados após sua morte.Toda a amizade e admiração do autor pelo cineasta estão traduzidas nos comentários dos artigos. Escritos sobre Cinema encontra no romantismo alemão categorizações para análise da obra de Mário Peixoto. "A idéia principal do filme é a idéia da metamorfose. Metamorfose é uma transformação guiada por dois princípios: o de permanência e o de mudança. Alguma coisa permaneceu e alguma coisa muda. Você reconhece a limitação humana no filme em cada imagem, ora nas barras de uma prisâo, ora na linha do horizonte, ora nas bordas de um barco", explica Saulo de Mello. Por isso, ele discorda da idéia de analisar o filme sob a ótica da vanguarda francesa. As imagens de Limite não devem ser entendidas como desconexas, mas costuradas como uma poesia - daí a alcunha de filme-poema. Um filme que não monta uma história, mas emoções.Mário Peixoto não representava uma escola nem corrente ideológica da época. Seu estilo era intuitivo, detestava teorizar sobre cinema e só escreveu os artigos na tentativa de conseguir produzir mais algum filme. Num época onde o cinema era intimamente ligado aos movimentos sociais, a recusa de Peixoto em escrever sobre sua arte afastou-o dos círculos culturais. De uma conversa com Saulo de Mello, o cineasta teve a idéia de escrever uma análise sobre Limite e atribuir a autoria a Eisenstein, cineasta preferido da esquerda nacional. Com esse ato ingênuo, ele não conseguiu enganar aos amigos, mas Carlos Diegues publicou o texto em sua revista Arquitetura, em agosto de 1965. Essa pequena "mentira" de Peixoto vale menos pela estranheza e mais pela produção de uma das melhores análises de seu cinema de que se tem notícia. Cacá Diegues acaba com o frisson em torno do fato de forma irônica: "Se Eisenstein viu Limite, e de fato nunca escreveu sobre ele, errou. E, se por acaso nem mesmo viu o filme, o pobre não sabe o que perdeu na vida!".Saulo de Mello não quer parar por aí. No próximo ano, comemorando os 70 anos de lançamento de Limite, ele já tem fechada uma reedição de seu outro livro Mapa de Limite, pela editora da Funarte. Além disso, a Universidade Federal do Rio de Janeiro publicará os escritos do diário de Peixoto na época de estudante, na Inglaterra, aos 19 anos. Como projetos futuros, Mello pretende reeditar o primeiro volume do romance O Inútil de Cada Um, escrito pelo cineasta, e editar o segundo volume. Detalhe: Peixoto deixou seis volumes do romance manuscritos. E muitos outros escritos deixados pelo cineasta estão em projeto de edição. O acervo de Mello é riquíssimo e conta ainda com poesias, roteiros em vários estágios de finalização, fitas gravadas de conversas ao telefone e até mesmo receitas culinárias. A função do arquivo, que funciona numa sala cedida por Walter Salles em sua produtora, é servir de base teórica para estudos sobre Mário Peixoto e manter a memória de um dos maiores cineastas do País.Mário Peixoto - Escritos sobre Cinema, de Saulo Pereira de Mello. Editora Aeroplano, categoria: cinema, preço: R$ 18,00.

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