Livro revê cinema de Walter Hugo Khouri

Diante de Noite Vazia, de 1964, o crítico e diretor Rubem Biáfora, entusiasmado, disse que Walter Hugo Khouri não havia feito só a sua obra-prima, mas o melhor filme brasileiro. Também sobre Noite Vazia, outro crítico, Jean-Claude Bernardet, escreveu que era uma obra pueril, feita para chocar o público dos domingos e os censores. O tempo deu razão a Biáfora, mesmo que o admirável Noite Vazia não seja o melhor filme brasileiro. Mais do que pelo anedótico, Renato Pucci Jr. lembra a história para mostrar o equívoco do pensamento crítico brasileiro sobre o mais paulista dos diretores. Por assimilar e levar o mais longe possível a experiência européia, com fases baseadas primeiro em Ingmar Bergman e depois em Michelangelo Antonioni, Khouri foi muitas vezes acusado de praticar um vanguardismo de segunda mão no Brasil. Hoje, percebe-se quanto a afirmação de Bernardet, ela sim, é pueril, mas por inércia esse tipo de juízo continuou a ser aplicado a Khouri através dos anos. Ainda hoje, aqui ou ali, percebe-se o efeito do juízo equivocado, quando não preconceituoso. É contra essa inércia que Pucci Jr. se insurge no livro O Equilíbrio das Estrelas, uma edição Anna Blume/Fapesp, que será lançado amanhã, às 19 horas, na 2001 Megastore, da Avenida Sumaré, com uma exposição de cartazes originais e fotos de filmes. Há um subtítulo que não pode ser esquecido. Situa o que o autor quer dizer: Filosofia e Imagens no Cinema de Walter Hugo Khouri. Pucci Jr. tinha 19 anos quando viu Noite Vazia. Já era apaixonado por cinema, mas havia feito sua opção pela filosofia. Descobriu fundamentos filosóficos naquele filme e, desde então, debruçou-se sobre a obra do diretor, tentando aprofundar sua leitura dos elementos que Khouri usa para expressar sua visão de mundo. Foram dez anos de trabalho. Pucci chegou a inscrever-se na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, onde defendeu, em agosto de 1998, a dissertação de mestrado em Ciência da Comunicação, agora editada em forma de livro. Nos três anos decorridos depois disso, Pucci realizou algumas alterações e correções, inclusive atualizando a filmografia de Khouri. É pena que não tenha incluído uma breve notícia biográfica. Os dados estão diluídos ao longo do trabalho, mas com a biografia, mesmo resumida, O Equilíbrio das Estrelas se transformaria, em definitivo, na mais valiosa obra de referência sobre um dos mais importantes diretores de cinema do Brasil. Khouri merece, até porque a Enciclopédia do Cinema Brasileiro, organizada por Fernão Ramos e Luiz Felipe Miranda, por mais séria que seja (e é), dedica um verbete escandaloso ao diretor. Não se discutem possíveis equívocos de interpretação, que deveriam ser contestados no plano da discussão das idéias. Os erros são de informação, inadmissíveis numa obra que se pretende enciclopédica. O importante é que o livro de Pucci faz parte de um movimento de revalorização da obra de Khouri. Mais impressionista, o livro Os 100 Maiores Diretores do Século 20, de Rubens Ewald Filho (Vimarc Editora) é dedicado a Khouri por sua obstinação em desenvolver no Brasil, com as dificuldades que se sabe, uma obra autoral. São 24 filmes até Paixão Perdida, de 1999. Uma obra extensa, que, como diz Pucci, torna difícil qualquer trabalho de análise. Dez desses filmes são interligados por personagens e situações que reaparecem e se desenvolvem de uma obra para outra. Compõem o que o próprio Khouri chama de seu ciclo "marcelal", centrado no personagem Marcelo. Pucci elege dois filmes do ciclo como temas de sua análise: As Amorosas, de 1968, e Eros, o Deus do Amor, de 1981. Se escolhe o primeiro não é só porque Marcelo, interpretado por Paulo José, aí aparece pela primeira vez (mesmo que existam gérmens em filmes anteriores). As Amorosas realiza o rito de passagem de Marcelo e isso já o torna importante. E Eros foi escolhido porque faz a revisão inteira - da obra e do personagem, que agora aparece em câmera subjetiva. Pucci faz até algumas restrições de ordem técnica a As Amorosas. Considera Eros uma obra-prima. Há neste filme uma lição de filosofia que fundamenta o estudo de Pucci. É rara essa exposição de uma doutrina filosófica num filme. Khouri não propõe uma vulgarização, mas uma leitura fiel do Banquete, de Platão. Essa lição é só a pontinha de um iceberg. Pucci vê, no todo da obra khouriana, a consistência que lhe permite citar Andrei Tarkovski, que dizia que um diretor, ao expressar sua visão pessoal, pode se tornar uma espécie de filósofo. Tarkovski, Bergman, Kurosawa. Filósofos do cinema. Khouri é da mesma espécie, diz Pucci. Seu livro é um ato de coragem. Num capítulo muito sugestivo, ele compara o alienado Khouri, como era definido pelo Cinema Novo, com um dos ícones do movimento, o Paulo César Saraceni do politizado O Desafio. Ambos possuem personagens chamados Marcelo. Pucci prova que, apesar da fama do outro, o Marcelo politizado é o de Khouri. Depois deste livro, será preciso repensar muita coisa no cinema brasileiro.

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