Paris Filmes
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Livro reúne cartas de amor de F. Scott e Zelda Fitzgerald

‘Querido Scott, Querida Zelda’ revela a paixão e a competição profissional dos escritores e revê ainda a conturbada relação regada a álcool, brigas, tentativas de suicídio e internações em hospícios

Parul Sehgal, The New York Times

31 de julho de 2019 | 03h00

Aos 23 anos, F. Scott Fitzgerald – uma celebridade repentina com o sucesso de seu primeiro livro, Este Lado do Paraíso – disse à imprensa que suas ambições eram escrever o maior romance de todos os tempos e permanecer para sempre apaixonado por sua esposa. Fitzgerald morreu jovem, aos 44 anos. Nos anos em que viveu, no entanto, ele produziu um clássico americano que perdura, O Grande Gatsby, e jamais deixou de amar sua esposa, Zelda. E como Santa Teresa de Ávila escreveu: “Há mais lágrimas derramadas sobre orações respondidas do que sobre orações sem resposta”.

Apesar de suas preocupações mútuas, a infelicidade conjugal dos Fitzgeralds era lendária e provou ser a grande presa para a imaginação literária de Scott. Nas fotografias, eles se pareciam um com o outro, com rostos suaves, amuados; eles se comportavam com uma infeliz destrutividade, esmagando tudo que estivesse ao alcance de seus braços.

Houve cenas terríveis nos aeroportos, hospitalizações, tentativas de suicídio. Sua filha foi levada para morar com o agente literário de Scott. Os amigos temiam dar seus endereços ao casal. Em 1930, Zelda foi internada pela primeira vez após um colapso (o diagnóstico foi esquizofrenia, mas agora a ideia é de que ela sofria de transtorno bipolar) e permaneceria em uma instituição por grande parte de sua vida, morrendo em 1948, em um incêndio hospitalar.

Várias versões das cartas do casal já foram publicadas, mas Querido Scott, Querida Zelda afirma ter a coleção mais completa, da parte de Zelda, da correspondência. Os editores, Jackson R. Bryer e Cathy W. Barks, escrevem: “As novas cartas, colocadas cronologicamente com as coletadas antes, nos permitem ver a relação delas de uma maneira mais imparcial do que até agora”.

Seus olhos se fixaram em “imparcial”, como os meus? Palavra suspeita. Só pode ter sido colocada com intenção partidária. Mas há apenas partidários quando se trata do casamento dos Fitzgeralds – ou de qualquer casamento. Há a opinião de Hemingway sobre Zelda como um mau espírito com inveja do talento de seu marido e determinada a levá-lo à ruína.

Perspectivas mais recentes sobre Zelda a escalaram como uma heroína anterior ao próprio feminismo, uma das mulheres perdidas pela história, como Dorothy Wordsworth ou Alice James, cujos dons foram ofuscados pelo homem famoso de suas vidas. 

No caso de Zelda, houve uma completa apropriação – é sabido que Fitzgerald tirou passagens de suas cartas e diários para sua ficção – e quando Zelda quis escrever um romance baseado em seu colapso (mais tarde publicado como Esta Valsa É Minha), o mesmo território que ele estava explorando em Suave É a Noite, seu casamento entrou em combustão.

Essa coleção foi organizada na esperança de reabilitar a reputação de Scott, retratá-lo como uma vítima também – de seu alcoolismo – e mais favorável a Zelda do que comumente se acredita. Os editores e a neta dos Fitzgeralds, Eleanor Lanahan, que contribui com uma introdução, querem absolvição para Scott, mas onde ele está nesse livro? Suas cartas são débeis e poucas, comparadas às de Zelda, muitas vezes ditadas a uma secretária. Ele nunca foi um encanto como escritor de cartas – muito rabugento e carrancudo e sempre, você percebe, se preparando para pedir um empréstimo. Sua correspondência, disse Gore Vidal, deveria ser preservada, não publicada.

Leia esse livro por Zelda, mesmo que esteja cansado da obsessão cultural por ela. Melhor ainda, se você estiver totalmente desinteressado e perplexo com o fascínio cultural (nos últimos anos, houve quatro romances baseados em sua vida, e três grandes filmes biográficos estão em andamento).

Eu tinha uma vaga noção dela como o protótipo das adoráveis e inconsequentes heroínas de Fitzgerald, e que ele havia copiado material dela, incluindo a frase de Daisy Buchanan em O Grande Gatsby, ao saber que ela havia dado à luz uma filha: “Espero que ela venha a ser uma tola – essa é a melhor coisa que uma garota pode ser neste mundo, uma bela idiota”.

Eu estava preparado para alguém lúgubre, distraída – não essa observadora divertida e intransigente sobre sua própria vida cujas cartas pareciam ser curtas sequências de stand-up. De uma das primeiras notas para Scott: “Você sabe tudo sobre mim, e principalmente o que eu penso. Eu pareço estar sempre curiosamente interessada em mim mesma, e é muito divertido afastar-me e olhar para mim”.

Ela continua assim: maliciosa, divertida, irônica consigo mesma, escrevendo paródias do tipo de cartas de amor simplórias que as mulheres jovens esperam. “Os homens me amam porque eu sou bonita – e eles estão sempre com medo da perversidade mental – e os homens me amam porque sou inteligente, e eles estão sempre com medo da minha beleza. Um ou dois até me amaram porque sou adorável, e então, claro, eu estava atuando.” Ela não tem impressões indiretas ou frases de efeito. Tudo o que ela escreve e pensa parece ser mordaz, original, angustiante.

Muitas dessas cartas foram escritas enquanto Zelda estava internada. À primeira vista, parece obsceno considerá-las “cartas de amor”, esses pedidos de dinheiro para pequenas despesas e para visitas, seu desespero por um trabalho significativo. “Solitária”, ela escreve quatro vezes em uma nota curta e novamente em uma carta depois da outra. “Estou tão solitária o tempo todo.” “É desesperador ficar só.” “Terrivelmente solitária.” Ela pede para sair da instituição: “Por favor. Por favor, deixe-me sair agora”. “A cada dia um pouco mais de mim morre.” “Quanto mais tempo eu tenho que suportar isso, mais doente fico.” Mas então, uma mudança intempestiva no estado de espírito. “Você ainda tem cheiro de lápis e às vezes de tweed?”

Paixão é sua modalidade, e Scott seu ‘deus sol’. “Você não acha que fui feita para você?”, escreve. “Sinto que você me encomendou e fui enviada a você para ser usada. Quero que você me use, como um amuleto de relógio.” Nessas cartas – a maioria escrita em instituições na Suíça, Carolina do Norte e Maryland – ela se sentava em seu quarto, ansiando por seu marido: a maneira como ele segurava seus cigarros (“Bem para baixo, encravado entre os dedos”), o cheiro dele (“como uma deliciosa grama úmida que cresce perto de muros antigos”), a visão de seu pulso emergindo da manga.

Sua vida nunca se insinua entre as cartas; pouco se pode saber sobre as instituições nas quais fez sua casa. Ela mal menciona médicos ou tratamentos que, segundo se informa, eram bárbaros. Ela não pergunta sobre o mundo, a guerra, seus amigos. Ela canta apenas uma música – “querida, minha querida”; “Meu querido, meu amor.” “Se você voltar, farei florescer o jasmim e todas as árvores vão florescer”, escreve ela. Haverá nuvens para comer e tomar banho “na espuma da chuva – e eu vou deixar você brincar com a minha pistola”.

Mas eles nunca se saíram muito bem quando ela voltou. Seus sintomas, incluindo o intolerável eczema em todo o corpo, piorariam; houve lutas amargas. O amor deles floresceu principalmente nessas cartas, cheias de um intenso desejo por noites de “suave cumplicidade”, para Scott à beira-mar, todos “salgados e bronzeados pelo sol”.

É um fato peculiar que O Grande Gatsby, um romance bastante amargo, até mesmo furioso, sobre classe e desilusão, assassinato, contrabando e corrupção, seja tantas vezes lembrado apenas por suas festas e sua reluzente história de amor. Estranho também é o equívoco quando se trata de Scott e Zelda.

Lembramo-nos de seus primeiros dias estridentes, sua infelicidade extravagante, mas depois de ler essas cartas, o que impressiona é sua firmeza, uma palavra chocante para ser aplicada a elas. Eles não conseguiram lidar com o sucesso inicial, escrevem Bryer e Barks, e depois de um certo ponto eles nem moravam juntos. 

Fitzgerald conversou com a escritora Sheila Graham em seus últimos anos. Mas esse vínculo com Zelda se mostrou resistente, e sobreviveu a tudo. Em suas últimas cartas, eles ainda estão se amando e se irritando e apoiando um ao outro. “Felizmente, felizmente para todo o sempre”, escreveu Zelda certa vez. “O melhor que pudemos.” / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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