Livro desvenda os mistérios do cinema noir

Depois do sucesso de Pulp Fiction, o cinema noir, antes uma daquelas manias que só os cinéfilos desvairados têm, tornou-se um dado importante na paisagem cultural. Surgiu até um rótulo, o neonoir, para filmes atuais que têm referências ao noir, multiplicaram-se por toda parte teses e estudos sobre características e natureza do noir. Mas, afinal, o que é o filme noir?Pelo número de livros e ensaios publicados para responder essa pergunta, parece que ainda não se chegou a uma conclusão. Mas um livro recém-lançado, O Outro Lado da Noite: o Filme Noir, de Antonio Carlos Gomes de Mattos (Editora Rocco, 256 páginas, R$ 26,00), pode ser um guia seguro nesses caminhos tão inóspitos quanto aquele beco sem saída, molhado de chuva e iluminado apenas pelo brilho intermitente de um anúncio de néon, onde o incauto pedestre entrou por um terrível, talvez letal engano.A.C.Gomes de Mattos é professor de História do Cinema e Cinestética na PUC do Rio de Janeiro, autor de obras importantes na parca bibliografia brasileira de cinema como John Huston-Ernest Lubitsch-Fred Zinnemann (com Sérgio Leeman) e, sobretudo, Alberto Cavalcanti - personalidade do cinema mundial.Aos 62 anos, pesquisa e vê filmes desde 1993 para escrever a sua obra sobre o noir. No rastreamento desses clássicos, esquadrinhou lojas e acervos de colecionadores nos Estados Unidos, chegando até a recorrer a um cinéfilo da Islândia para ter uma cópia de Afrontando a Morte.Diz Gomes de Mattos: ?Sempre gostei de filmes dos anos 20 até os 50. Estava nos Estados Unidos e Sérgio Leemann (prefaciador do livro e o homem por trás da programação dos canais Telecine) me sugeriu escrever um livro sobre o noir. Depois, comecei o trabalho de garimpar os filmes e vi ou revi cerca de 500. O resultado foi um livro de 450 páginas?.Mas as pressões da editora levaram o autor a cortar parte da obra, como detalhes das sinopses e capítulo sobre os diretores do cinema noir: ?Deu mais trabalho isso do que escrever o livro?, conta Gomes de Mattos. Mesmo assim, o livro traz uma enorme gama de informações, escritas de forma acessível, sem pedantismos. Ele mesmo aponta os senões: a falta de um caderno de fotos, a falta, na filmografia, da ficha do filme Vida contra Vida, que ele confessa ter esquecido de incluir e alguns errinhos de digitação.Em contraposição, a maior virtude da obra é realmente codificar e sistematizar os dados básicos sobre o noir, já que na grande bibliografia existente há mil e uma interpretações do que seja. Uma questão, contudo, em que não divergem os estudiosos do filme noir, é quanto à origem do seu nome. É consenso que foi inventada por criticos franceses após a Segunda Guerra Mundial, para chamar os filmes policiais americanos feitos a partir de 1940, diferentes dos produzidos antes disso. A inspiração deles foi a Série Noire, uma coleção de livros policiais de capa preta, da editora Gallimard, iniciada em 1945, que editava muitas histórias de Dashiell Hammett, Raymond Chandler, James M.Cain e outros. Cinema noir passou, então a designar, conforme Gomes de Mattos explica, ?um desvio ou evolução dentro do vasto campo do gênero drama criminal, que teve o seu apogeu durante os anos 40 até meados dos anos 50 e foi uma resposta às condições sociais, históricas e culturais reinantes na América durante a Segunda Guerra Mundial e no imediato pós-guerra?. Os filmes noir provêm assim da literatura policial (sobretudo contos) que vinha dos anos da Depressão, com seus detetives durões e de coração de ouro, seus bandidos cruéis e brutais, suas mulheres fatais e manipuladoras. As interpenetrações do mundo da ordem burguesa e do submundo tendem a revelar as ambiguidades do primeiro. Mas tais filmes também provêm de uma nova maneira de expressão cinematográfica.As histórias de gângster se transformam em fitas claustrofóbicas, em que há um sentimento onipresente de pessimismo, influências do neo-realismo italiano e do expressionismo alemão levam ao uso do estilo semidocumentário e ao uso de uma iluminaçãoquase sempre ?escura?, em que os contrastes de luz e sombra se acentuam.O livro se demora nessa técnia, em que pontos de luz dão aparência sinistra a personagens, em que o uso dos espelhos sugere perda de identidade, silhuetas contra um fundo iluminado têm uma função de intensificar a dramaticidade. A.C. Gomes de Mattos dá então os exemplos dos que seriam os 23 filmes mais representativos do cinema noir, de O Homem dos Olhos Esbugalhados até A Morte num Beijo. Nessa área do livro, ele esmiuça o conteúdo dos filmes, entre eles alguns dos mais populares e vistos hoje, na TV, em video e DVD, como Reliquia Macabra, o classico de John Huston com Humphrey Bogart dando os contornos do detetive durão para o resto da história do cinema, Laura, Até a Vista, Querida(uma espécie de filme exemplar do noir -- tudo está lá, comenta o autor ) e A Dama de Shangai, em que os elementos do noir foram transformados pela visão de Orson Welles. Na parte final do livro, a filmografia do noir reúne 150 filmes, com fichas técnicas, sinopses e comentários do autor . Uma fonte preciosa de informações para quem quer saber de detalhes sobre o noir, aliás como todo o livro, que se ressente apenas de alguns quesitos de natureza editorial para facilitar o trabalho do leitor. O mais evidente é a ausência de um índice onomástico que é obrigatório para esse tipo de obra, servindo à consulta.As editoras brasileiras, infelizmente, têm uma repulsa visceral a esse ?desperdício? de páginas. Também, quando o livro trata dos 23 filmes mais expressivos e característicos do noir, não há destaque maior para onde o texto começa a se ocupar de cada título de filme. Agora, o professor Antonio Carlos Gomes de Mattos pretende fazer um dicionário de escolas, generos, movimentos e teorias do cinema e um outro dicionário sobre detetives do cinema e filmes policiais. Isso como trailer do seu projeto maior, um dicionário comleto de cineastas, algo inexistente nas livrarias para o leitor brasileiro. ?O material para esse livro eu já tenho, pronto. Falta só um patrocinador?, afirma.

Agencia Estado,

28 de janeiro de 2001 | 12h22

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