Liv Tyler faz o gênero vulgar e sensual

Na entrevista que deu ontem, Liv Tyler disse que poucas vezes participou de um filme no qual houvesse tanta descontração no set. É evidente o prazer dos atores de Que Mulher É Essa?. O filme de Harald Zwart que estréia nesta sexta-feira, assinala o início das atividades da nova empresa produtora de Michael Douglas, a Furthur Films. Pegue-se o exemplo do próprio Douglas. O recente Garotos Incríveis, de Curtis Hanson, para só citar um exemplo, mostrou que ele pode ser ator convincente. Mas Douglas também sabe ser cabotino. Seu cabotinismo nunca rendeu tanto quanto em Que Mulher É Essa?. Aquela peruca ridícula, a cara devastada, tudo contribui para criar o retrato de um homem vivido e ardiloso, que no fim dá o seu pulo do gato.A própria Liv é uma surpresa. A adolescente de Beleza Roubada, de Bernardo Bertolucci, veste o modelito da ousada, sensual e vulgar Jewell. E, o que é melhor, o papel cai-lhe como uma luva. Mais que um desafio, foi para ela um prazer interpretar uma personagem tão diferente do seu temperamento. E Liv matou a charada ao dizer que a sua Jewell não tem compromisso com o realismo porque é sempre vista como objeto de desejo ou projeção dos homens.No original, o filme chama-se One Night at McCool´s. Uma noite no McCool´s. É o bar em que trabalha Randy, o personagem de Matt Dillon. É ele quem dá a primeira versão de Jewell para o espectador, contando como essa mulher irrompeu uma noite em sua vida. Uma briga na rua e logo Liv, ou Jewell, está na cama do atônito Randy, para em seguida lhe confessar que é tudo uma armação e, logo, envolvê-lo num assassinato. Entra em cena o policial que investiga o caso (John Goodman) e o advogado (Paul Reiser), parente distante de Randy, que será envolvido na teia de sedução dessa mulher fatal, a despeito de sua inocência no exercício do pecado.Três homens, que apresentam diferentes versões de Jewell e em todas ela é sempre sexy e mortalmente perigosa. Há, ainda, o personagem de Douglas, que atende pelo nome de Sr. Burmeister. Ouvindo a versão de Randy, como o espectador ouve a do advogado para a psicanalista e do detetive para o padre, o Sr. Burmeister termina fazendo a imagem mais condizente de Jewell com a realidade. Flagra nela o desejo de segurança, de ter uma casa, de possuir bens materiais. Para alcançar essas benesses, Jewell usa os recursos de que dispõe e o seu grande recurso é o corpo. Sabendo de tudo isso, o Sr. Burmeister aplica o golpe de mestre que é a solução deste divertido drama.Divertido, sim, e dramático, também, pois Que Mulher É Essa? mostra o que Jean Renoir e François Truffaut já sabiam - que os gêneros tradicionais não têm mais nada a ver. Uma comédia pode ser dramática e um drama divertido. Não é a única constatação a fazer diante desse filme. Michael Douglas conta que o que o levou a escolher o roteiro de Stan Seidel para o início de sua nova produtora foi sua atração por personagens intermediários. Ninguém é completamente bom nem ruim em Que Mulher É Essa? e, desta forma, o filme subverte o maniqueísmo de Hollywood.Ninguém é louco de achar que um filme como esse é genial ou maravilhoso. Maravilhosa é Liv Tyler, caminhando em câmera lenta em direção à câmera, com toda a sua exuberância do seu físico de mulher nota 10. O diretor Zwart, um noruguês que começou sua carreira fazendo comerciais e videoclipes, não nega a origem, mas dirige bem o elenco. E, em certas sutilezas de construção cênica, revela que entendeu direito o que Seidel quis fazer em seu roteiro (e passou despercebido a Douglas, pois ele não faz referência ao assunto). Mais do que uma filiação à vertente de Yojimbo, de Akira Kurosawa, com sua verdade multifacetada, Que Mulher É Essa? talvez beba na fonte de Laura, o cult noir de Otto Preminger. Pois Jewell, como Laura, não tem autonomia, é uma criação dos homens, mesmo que o filme de Zwart não tenha a estrutura em puzzle daquele clássico.

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