Liv Tyler está em "Que Mulher é Essa?"

Liv Tyler liga para a redação. Desculpa-se pelo atraso de quase 40 minutos. Estava na rua, perdeu a hora e disse que voltou esbaforida para casa, onde havia deixado o número do telefone do Brasil. Liv está falando de Nova York. A voz é de criança, mas ela revela perspicácia na análise dos seus filmes que estão para estrear no Brasil. O primeiro é Que Mulher É Essa?, que entra em cartaz na sexta-feira. Nas próximas semanas, estréia Paixão Proibida. E mais para o fim do ano, o primeiro episódio da série O Senhor dos Anéis.A adolescente de Beleza Roubada virou um mulherão. A foto de Que Mulher É Essa? não deixa margem a dúvida. A cena é emblemática do filme de Harald Zwart que marca o início das atividades da nova empresa produtora de Michael Douglas, a Furthur Films. O próprio Douglas reservou-se um papel divertido no filme. Sua primeira cena é hilária. Supostamente, seu personagem deve ser um careca, pois ele usa uma peruca ridícula. Michael, no filme, está devastado. Parece o pai dele, Kirk Douglas.Ela já trabalhou com Bernardo Bertolucci (Beleza Roubada) e Robert Altman (A Fortuna de Cookie e Dr. T e as Mulheres). Não representa pouca coisa. O pai é roqueiro famoso (Steve, do Aerosmith). Liv conta que sempre foi tímida, insegura. O cinema ocorreu meio por acaso em sua vida. Ajudou-a a adquirir confiança, a liberar-se. Explica o que foi o maior prazer de rodar Que Mulher É Essa?: "Nunca participei de um filme no qual houvesse tanta descontração no set." É evidente o prazer que os atores têm em interpretar seus papéis.O de Liv cai-lhe como uma luva e revela um lado até aqui desconhecido da atriz. Para ser a alma de um filme chamado Beleza Roubada ela tinha de ser linda. A Jewell de Que Mulher É Essa? soma ousadia à beleza, além de doses maciças de sensualidade e vulgaridade. Foi divertidíssimo fazê-la, assegura a atriz. Jewell, ela define, é ao mesmo tempo a madona e a prostituta. Na verdade, usa uma palavra mais forte, de quatro letras. E, no entanto, quando o produtor Michael Douglas e o diretor Zwart a chamaram para fazer o filme ela hesitou um pouco não por medo de fazer a personagem, mas por não saber se conseguiria encarnar Jewell com a intensidade que ela exige.Jewell pode ser a prostituta e a santa, mas é mesmo uma ficção produzida pela mente dos homens. Eles são três, interpretados por Matt Dillon, Paul Reiser e John Goodman. Um tipo meio derrotado, um advogado de sucesso e um policial. Jewell, que não por acaso quer dizer Jóia, atiça o desejo de cada um deles e o que o filme procura passar para o espectador é a forma como a vêem. E há o quarto homem, que Michael Douglas interpreta. O diretor Zwart faz com que sua câmera assuma o ponto de vista de cada um deles, quando vêem Jewell pela primeira vez. Ela avança para a câmera, mas o movimento nunca é naturalista. Zwart desacelera a imagem e o espectador tem exatamente o efeito arrasador que essa mulher provoca. Ela é quase singela quando Randy (Dillon) a vê. É só decote e pernas para Carl, o advogado (Reiser). E, com a luz vermelha ao fundo, é o pecado que desvia o policial (Goodman) do bom caminho. Quanto a Douglas, a chave não é como ele a vê, mas como preenche as necessidades de Jewell.Num certo sentido, Que Mulher É Essa? propõe uma variação de Rashomon, o clássico de Akira Kurosawa sobre a verdade como algo relativo.O roteiro de Stan Seidel propõe para o espectador as diferentes perspectivas que os homens têm de Jewell. Era fundamental encontrar a atriz certa para o papel. Para Liv, o desafio era encarar uma personagem tão diferente dela. "Tento ser honesta na minha vida, de modo que foi divertido criar uma figura quase oposta ao que acredito e defendo para mim." Jewell como ela diz, é uma manipuladora nem um pouco sutil. E não tem nenhum compromisso com o realismo. "Ela só existe filtrada pelo olhar dos homens", diz Liv. É fácil defini-la como uma mulher fatal. Liv diz que, com a ajuda do diretor - um norueguês que fez carreira como realizador de clipes e comerciais -, quis fugir ao estereótipo. "Não acredito que alguém possa ser inteiramente bom ou mau; isso é fantasia de cinema; as pessoas, na vida real, vivem numa zona intermediária." Jewell aprendeu a conseguir o que deseja com as armas de que dispõe. E sua grande arma é o corpo...Predileção - Admira-se de saber que o filme estréia antes de Paixão Proibida no Brasil. Conta que fez esse último há três anos. Era um projeto antigo de Ralph Fiennes e sua irmã Martha. "Enviaram-me o roteiro logo depois de Beleza Roubada; tinha 19 anos..." Adorou fazer o filme baseado em Eugene Onegin, de Puschkin. "Ralph e Martha sabiam tudo sobre o personagem, sobre o autor e sua época." Revela predileção especial pelo filme: "Conversava outro dia com um amigo e lhe disse que Paixão Proibida é um dos trabalhos de que mais me orgulho; gostaria que Martha prosseguisse na carreira, porque acho que ela tem muito potencial e poderia vir a ser uma grande diretora, mas infelizmente não estou segura de que isso vá ocorrer: o cinema atual não privilegia os artistas que têm algo a dizer."Guarda ótima lembrança do período que passou na Toscana, filmando Beleza Roubada. "É um dos lugares mais bonitos do mundo e eu estava cercada por pessoas maravilhosas." Cita o diretor, Bernardo Bertolucci, e o ator Jeremy Irons. "Bernardo me tratava como uma rainha; era de uma delicadeza que hoje me parece comovente." Também não poupa elogios a Altman. "Durante a rodagem de A Fortuna de Cookie, ele já me havia falado de Dr. T e do papel que planejava para mim." Como Jewell, a lésbica do filme que faz sucesso nas locadoras, como um dos DVDs preferidos do público, também não tem a ver com a vida e o comportamento de Liv. "É bom criar personagens diferentes da gente; o bom do cinema é que nos permite viver muitas vidas, descobrir que nossos limites são muito mais amplos do que pensamos."Conta que se aproximou das personagens sem preconceitos. Foi a herança que recebeu de seu pai. "Com ele aprendi a ser tolerante, com os outros e comigo mesma." Tolerante na vida, mas exigente no trabalho. "Fazer cinema pode ser divertido, mas envolve responsabilidade", ela diz. Cita O Senhor dos Anéis que acaba de rodar na Nova Zelândia, sob a direção de Peter Jackson. "A saga de J.R.R. Tolkien é cult para milhões de leitores em todo o mundo; possui erudição e fantasia." Foram feitos três filmes, com estréias previstas para este ano, 2002 e 2003. "Minha personagem percorre os três filmes; para muitos será só uma diversão, mas é preciso lembrar que O Senhor dos Anéis virou um monumento literário para a geração da contracultura hippie, nos anos 70."

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