"Lisbela e o Prisioneiro" mostra o Nordeste como subúrbio do mundo

Depois de ser tema de especial de televisão e encenada no teatro, a obra do escritor pernambucano Osman Lins, "Lisbela e o Prisioneiro", vai chegar ao cinema numa adaptação que terá no visual o grande diferencial e destaque, mostrando o Nordeste como um subúrbio do mundo, explorando a universalidade da pobreza industrializada sob o império do kitsch. Os cenários, as composições e as roupas dos personagens da comédia romântica usam e abusam despudoradamente das cores fortes, meticulosamente misturadas sem (aparentemente) qualquer referência de bom gosto, numa exuberância brega que também estará presente na trilha sonora e certamente vai encher olhos e ouvidos do espectador e dar o que falar. Tudo realizado com cuidado por uma equipe coesa, sob a batuta do diretor Guel Arraes. "Nunca tive um trabalho tão bem produzido, em tempo, em preparação, em relação aos colaboradores", afirmou Guel enquanto comandava as filmagens externas do filme no Pátio de Santa Cruz, no bairro da Boa Vista, no Recife, assessorado pela produtora do filme, Paula Lavigne. Iconográfico não Em "Lisbela", ele não queria falar do Armorial (o que já fez no "Auto da Compadecida"), nem da tradição, nem do Nordeste da Gabriela cravo e canela com seu vestidinho de chita. Também não lhe interessava o Nordeste do artesanato de barro ou de qualquer outra característica que reforçasse a memória iconográfica que automaticamente vem à cabeça das pessoas quando se fala na região. "Não é o Nordeste típico que está sendo mostrado, mas a estética do Terceiro Mundo, o universo pop no sentido do popular industrial. É o Nordeste misturado, cheio de influências que tanto podem ser detectadas aqui como na Índia, no Paquistão ou na periferia de São Paulo." Para se chegar ao resultado desejado, houve um processo compartilhado com o diretor de arte Cláudio Amaral e a figurinista Emília Duncan, pessoas fundamentais para que Guel pudesse se dispor a fazer, no Brasil, o que o cineasta Pedro Almodóvar já realizou, em parte, na Espanha, decodificando o popular europeu. Prisão A proposta inicial do diretor era fazer um filme de época, localizado no início dos anos 60. "À medida que se ia pesquisando o período, Guel foi percebendo que a época aprisionava o filme", disse Emília, em meio a panos, roupas, babados e rendas que iriam vestir o núcleo de protagonistas, cerca de 70 figurantes e o batalhão de 12 soldados que participam de Lisbela. Emília, que já assinou os figurinos dos longas "Orfeu", "Carlota Joaquina", "Copacabana", de peças teatrais ("A Dona da História", "O Burguês Ridículo") e de especiais de televisão ("A Muralha"), disse ter realmente entendido o que Guel queria ao visitar pela primeira vez a feira da sulanca (confecção popular) e de artesanato de Caruaru, no agreste pernambucano. Ela já havia passado por duas etapas, a do mergulho na pesquisa livresca, e a da superação do preconceito. Daí, apreendeu tudo com ar de descoberta. "A gente aceita a pobreza com a estética do pobre simples, mas a da mistura, do descombinado, da cor forte, essa incomoda", disse. "É difícil aceitar o universo em que o bom gosto foi abolido." Burguesia Emília afirmou que o bom gosto tem a ver com a referência burguesa que ensina desde como cortar o alimento no prato à idéia de que isso não combina com aquilo. "No popular, os parâmetros são outros" Desarmada, ela passou a fazer a pesquisa viva. Observou tudo, a sulanca, a forma das pessoas de se vestirem, de se enfeitarem, e que também está ligada à pobreza, obrigando a juntar, às vezes, uma camisa vistosa com uma calça velha. "O que mais me impressionou em Caruaru foi sobretudo a contaminação ver que o regional está definhando, enquanto barracas e mais barracas vendem plástico, o resto da industrialização." Para Emília, Guel trabalhou com a destruição da tradição, o que ela considerou uma ousadia. "Ele botou a mão na ferida quando poderia ter optado pelo caminho mais fácil, de fazer algo bonitinho, mas aí perderia a pulsão, perderia essa riqueza." Ela ressaltou o desafio do trabalho pela inexistência de referências cinematográficas sobre o assunto. "Tivemos de buscar um caminho." Enquanto Emília traduzia esse conceito para o figurino, Cláudio Amaral fazia o mesmo em cada detalhe dos cenários. O caminhão de Leléu (personagem principal, vivido por Selton Mello) é um retrato disso e encantou Guel Arraes, a expressão da estética do motorista, um veículo cujas características estão presentes em vários países terceiro-mundistas. Fotografia Ao solucionar o visual do filme, Guel Arraes solucionou o filme. "Este era o maior desafio, já que o texto é bom e o elenco afiado", afirmou, elogiando o diretor de fotografia Uli Burtin. "Cada enquadramento dele é maravilhoso." Burtin, um alemão radicado há 22 anos no Brasil, tem centrado as atividades na área da publicidade e faz o terceiro longa no País. "É ótimo trabalhar com Guel porque ele tem enorme segurança e dá autonomia para o diretor de fotografia." O prazer de todos os envolvidos no filme era visível nas gravações externas, todas rodadas em Pernambuco, Estado que dá a marca à produção. "´Lisbela´ é um filme muito pernambucano", definiu Paula Lavigne. "O texto é de um pernambucano, adaptado por Guel, outro pernambucano, com a direção musical de mais um pernambucano, João Falcão, e com metade do elenco pernambucano - Marco Nanini, Bruno Garcia, Lívia Falcão e Virgínia Cavendish." Por isso, segundo ela, o filme não poderia ter sido rodado em outro lugar. "Não se conseguiria esse Nordeste popular se não fosse aqui." Embora as externas já tivessem sido encerradas, parte da equipe voltou na semana passada a Paudalho, na região metropolitana do Recife, para refazer uma cena que se passa numa feira. É que a lata do filme contendo essa cena foi extraviada, sob a responsabilidade do estúdio Mega. Guel poderia ter suprimido a passagem, mas preferiu retornar e filmar novamente. A história O filme conta a história do malandro Leléu, que se apaixona por Lisbela (Débora Falabella), noiva de Douglas (Bruno Garcia). Revoltado, o noivo contrata um matador profissional, Frederico Evandro (Marco Nanini), para tirar a vida do rival. Ao saber que alguém quer matá-lo, Leléu procura um conhecido que lhe deve um favor e tenta convencê-lo a eliminar seu eventual assassino. Só que esse conhecido é o mesmo Frederico Evandro, cuja mulher, Inaura (Virginia Cavendish), Leléu já seduziu. Completam o quadro o Tenente Guedes, pai de Lisbela (André Matos), o Cabo Citonho (Tadeu Mello) e a mulher Francisquinha (Lívia Falcão), que não existia na história original. O filho de Paula Lavigne e Caetano Veloso, Zeca, faz Leléu criança e a comediante Heloísa Perrissé tem participação especial como Prazeres, mulher "da vida" com quem Leléu tem um romance. Com exceção de Débora Falabella, todos os outros atores trabalharam ou na peça, encenada em 2000/2001, ou no especial adaptado para a tevê por Guel, Jorge Furtado e Pedro Cardoso, ou em ambos. "É como uma companhia de teatro fazendo cinema", disse Guel Arraes, ao falar sobre a familiariedade do elenco com o texto e os personagens. Pré-estréia Na avaliação de Guel, a peça funcionou como ensaio e pré-estréia do filme, sendo testada por platéias em várias regiões do País. A grande comunicabilidade da peça e o sucesso levaram Paula e Virgínia (que fazia Lisbela no teatro) a sugerir o filme, orçado em R$ 5 milhões, podendo chegar a R$ 6 milhões por causa da alta do dólar. A versão cinematográfica é mais que uma farsa, segundo Guel, e ganhou mais sofisticação e densidade. Os personagens têm perfis mais aprofundados, com informações sobre o passado. Selton Mello diz ser a primeira vez que faz um homem mais velho, diferente dos personagens ingênuos e infantis que já interpretou nos dois filmes anteriores com Guel ("Auto da Compadecida" e "Caramuru"). "O que mais me emociona é a possibilidade de fazer um herói brasileiro com B maiúsculo, um cara que sobrevive da inteligência, um artista brasileiro." Estética da fome Leléu é um caminhoneiro caixeiro-viajante, que assume papel diferente a cada cidade que chega. Em um lugar, vende remédio para impotência, em outro, joga tarô, em outro faz a Paixão de Cristo. "E tem essa coisa da estética da fome, um cara que se veste com pouco dinheiro, mas tem estilo", disse Selton, que considerou "um luxo" o fato de ter feito Leléu no teatro durante quatro meses, afiando a comédia. Nanini prevê que ´Lisbela´ "vai ficar lindo" e se diverte com o papel de Frederico Evandro, que fez na televisão. "Toda vez que vou filmar no Nordeste, viro matador", brincou, lembrando ter feito um cangaceiro no "Auto da Compadecida" e agora um matador profissional. Cafonérrimo, ele usa muito ouro e prata em pulseiras, relógio e anel, num modelito copiado por Emília Duncan de um anônimo que ela viu no município metropolitano de Igarassu. Com sapatos brancos, calça azul clara mal-ajambrada e um topete constantemente ajeitado com um pente de bolso, Bruno Garcia, que trocou Leléu no teatro por Douglas, arrancou risadas ao filmar a cena em que descobre que foi corneado e vai pedir ajuda ao pai de Lisbela. Seu personagem, ardiloso e de caráter duvidoso, passou um mês no Sul do País e adotou um sotaque exagerado, que pretende ser carioca, mas é sempre traído pelo acento nordestino. Assim, ele fala, por exemplo, "oxentche", "exatamentche". "É um desafio delicioso", disse. A personagem Francisquinha, que não entende como pode ser "tão louca" pelo Cabo Citonho, que ela reconhece ser uma "derrota", uma "desgraça". Ao contracenar com o seu amado à porta da delegacia, numa filmagem realizada numa tarde de domingo, ela simbolizava a essência da "atemporalidade do kitsch" buscada por Emília Duncan: esmalte rosa alaranjado nas unhas dos pés e das mãos, sandália japonesa azul com tiras de florzinhas, pulseiras coloridas, saia listrada amarelo e branco, blusa de malha com estampa de periquitos na mata e mangas fofas, grandes brincos-laranja e duas fivelas douradas no cabelo. As gravações de "Lisbela e o Prisioneiro" foram encerradas na semana passada. O filme chegará às telas no primeiro semestre de 2003, entre abril e junho.

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