Lineu e Dona Nenê levam <i>A Grande Família</i> para os cinemas

Pouca gente sabe, ou se lembra, mas,no começo de sua carreira, Maurício Farias realizou, em parceriacom Luiz Fernando Carvalho, o curta A Espera, baseado nosFragmentos de Um Discurso Amoroso, de Roland Barthes. Premiadoem festivais do País (Gramado) e do exterior (San Sebastián), AEspera possuía grande ambição de linguagem, contando trêsversões de uma mesma história de amor. Marieta Severo fazia anarradora que garantia unidade ao discurso amoroso de Maurício eLuiz Fernando. É possível identificar agora, naquele pequenogrande filme de 1986, a origem da estrutura narrativa de AGrande Família, o novo filme de Maurício Farias que estreounesta quarta-feira em São Paulo e estréia nacionalmente nesta sexta-feira, compondoum circuito de mais de 250 salas. A Grande Família - O Filme. O acréscimo ao título doprograma de TV faz toda a diferença. Deixa claro que MaurícioFarias, desde 2002 à frente da atração global, não se limita atranspor A Grande Família da TV para o cinema. Ele busca novassoluções de linguagem. Neste sentido, o roteiro assinado porCláudio Paiva e Guel Arraes, com diálogos de João e AdrianaFalcão, oferece-lhe um material muito rico e sugestivo. "Num filme como este, é importante que o públicoreencontre a série original, mas dentro de nova proposta delinguagem. O mesmo, só que diferente. A estrutura circular doroteiro foi um estímulo muito forte, mas também achei muitoousado que o Guel e o Cláudio começassem o filme com a propostada possibilidade de morte de Lineu." Marco Nanini, que interpreta o papel, acha que a idéiafoi decisiva para que ele também se sentisse atraído pelomaterial. "Cada versão da história, tal como é proposta noroteiro, permite que não apenas eu, mas todos os atores da sérierecriem seus personagens em outras chaves. Parece simples. Vocêdiz - ah, ele faz isso com o pé nas costas, mas não é verdade.Exigiu elaboração, preparação. Gosto que seja assim. Para mim, amelhor fase é sempre a do ensaio, da preparação, quando se buscao personagem." Marieta Severo, que faz Nenê, também acha que seriamuito pobre apenas repetir a personagem da TV num episódioesticado, com maior tempo de duração. "O cinema tem outrasexigências que a TV e o roteiro ajuda a marcar a diferença." Orepórter assinala que essa mesma estrutura narrativa já se faziapresente em A Espera e não deixa de estar também em A Dona daHistória, que Daniel Filho adaptou da peça de João Falcão.Marieta não está apenas se repetindo? Ela não vê nenhumaprovocação na pergunta e observa que, a rigor, é muito difícilencontrar uma proposta narrativa que seja 100% original. "Oimportante é que os diferentes enfoques criam um espaço muitobom para eu trabalhar a Nenê de diversas maneiras. Foi umtrabalho muito estimulante." Grandes atores e atrizes, estrelascomo Nanini e Marieta Severo, não temem concorrência. Ambosficam encantados quando o repórter diz que gostouparticularmente da participação de Andréa Beltrão e Lúcio MauroFilho. "Jura? Que bom!", diz Marieta. "O personagem dele ficoumuito mais interessante no cinema. O Lúcio não precisa mais queisso para mostrar como é bom."Novidades Filho de cineasta (Roberto Farias), Maurício sabe queestá mudando em relação a seu primeiro longa, O Coronel e oLobisomem, e pretende mudar ainda mais no terceiro, Verônica,que começa a filmar em março, com Andréa Beltrão no papel de umaprofessora às voltas com um aluno, cujos pais foram mortos pelotráfico. Ele tem o maior orgulho dos seus filmes de grandeespetáculo - Nanini detesta a definição de blockbusters; diz quese sente pressionado com a idéia de que o filme tenha de darresultados na bilheteria, mas Maurício acha que é tempo detentar alguma coisa mais autoral. Sem intenção de se comparar amestres como Billy Wilder e Mario Monicelli, ele termina dizendocoisas muito próximas ao que ambos nunca se cansam (cansavam, nocaso de Wilder) de repetir. "Cada um pode ter seu repertório dehumor, mas eu gosto da comédia que emocione. A ironia é umrecurso válido, mas o que me atrai é a idéia de fazer rir emcima de coisas que, a princípio, não são para rir, como a mortedo Lineu." Como exemplo de sua preocupação com a linguagem,Maurício diz que, na Grande Família antiga, criada porOduvaldo Viana Filho, o Vianinha, o texto era tudo e a câmera selimitava, como ocorre normalmente na TV, a ficar em cima dosatores. Quando assumiu o programa de TV, Maurício deixou claroque o texto de Cláudio Paiva, por melhor que fosse (e pormelhores que fossem os colaboradores acrescentados ao grupo) porsi só não bastava. "Comecei a limitar o primeiro plano. O meuclose é o plano médio", explica, referindo-se aos grandes planosde rosto que foi substituindo por planos em que o personagemaparece de corpo inteiro. O mesmo recurso vem agora, e com mais propriedade, parao cinema. "O espectador, ligado na história, pode nem perceber,mas quero deixar claro que foi um trabalho árduo, duro, muitopensado em termos de roteiro e realização. Ainda não tenhodistanciamento para falar de A Grande Família e também nãoquero induzir ninguém a achar que o filme seja perfeito. Possoter errado, mas não foi por falta de dedicação." Apenas umexemplo. Na segunda à noite, o filme teve exibição especial paraconvidados, no Kinoplex. Maurício Farias entrou em depressãoporque uma falha de projeção deixou as cópias lavadas, como elediz, sem fazer justiça ao cuidado da foto. Em Brasília, na terça a falha foi corrigida e a platéia vibrou mais que a de SãoPaulo. Ele admite que está aterrado. "A gente trabalha tanto que ao lançar o filme, espera pela receptividade. Não é só questãode números, de sucesso. Nem tenho mais sensibilidade para falarde planos e cortes que vi milhares de vezes na pós-produção.Espero que as pessoas comentem. Se for para bem, melhor. Se não,tudo bem. O importante é não cair no lugar-comum." A Grande Família - O Filme (Brasil/2006, 105 min.) - Comédia.Direção de Maurício Farias. Rec. 10 anos. Cotação: Regular

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