Victoria Will/The New York Times
Victoria Will/The New York Times

Lin-Manuel Miranda conta como escreveu a letra de ‘Dos Oruguitas’, que concorre ao Oscar

'Dos Oruguitas', da animação 'Encanto', foi composta em espanhol e está indicada como melhor canção original

Entrevista com

Lin-Manuel Miranda

Laura Zornosa, The New York Times

10 de fevereiro de 2022 | 15h00

Era apenas mais uma terça-feira daquelas para Lin-Manuel Miranda. O compositor, letrista e ator – conhecido por Em um Bairro de Nova York e Hamilton – estava com problemas para levar o filho mais novo para a pré-escola, e o ônibus escolar do mais velho estava atrasado.

Ele se sentou com sua esposa, a advogada e engenheira Vanessa Nadal, bem a tempo de pegar as indicações para o Oscar. A verdadeira alegria de assistir, disse ele, foi “quanta sorte tenho de ver todos os amigos que fizeram um trabalho incrível este ano”.

Ele mandou uma mensagem para Ariana DeBose quando ela foi indicada para a categoria melhor atriz coadjuvante por West Side Story e ligou para o figurinista Paul Tazewell quando ele foi indicado pelo mesmo filme. Quando Germaine Franco foi reconhecida pela melhor trilha sonora original do filme de animação da Disney Encanto, para o qual Miranda escreveu canções, ele gritou para toda a vizinhança ouvir.

Encanto conta a história de Alma Madrigal, que foge de casa para escapar de um conflito. Ela salva os três filhos pequenos, mas perde o marido, Pedro. Devastada, Alma se agarra à vela que usa para iluminar o caminho, mas a vela fica encantada – daí o “encanto” – e concede poderes mágicos a seus familiares, todos exceto sua neta Mirabel.

Miranda também recebeu uma indicação a melhor canção original por Dos Oruguitas, uma balada comovente que toca no clímax emocional de Encanto. Para completar, o filme – dirigido por Byron Howard e Jared Bush e codirigido por Charise Castro Smith – recebeu uma indicação para melhor filme de animação.

De tão empolgado, Miranda, que mora no bairro de Washington Heights, em Nova York, saiu correndo pela ponte George Washington.

Embora ele já seja bem experiente no campo da música – sua canção How Far I’ll Go para o filme Moana, da Disney, recebeu uma indicação de melhor canção original em 2017 – Dos Oruguitas é a primeira música que Miranda compôs do início ao fim em espanhol.

“Eu realmente saí muito da minha zona de conforto para escrever a música, então estou realmente emocionado por ter sido reconhecido”, disse ele. “Isso só me faz querer ir mais longe: encarar mais coisas que te assustam e fazer essas coisas. É isso que vale a pena fazer, porque é isso que te faz crescer”.

Aqui vão alguns trechos editados da conversa.

Quando você compôs essa música? Como foi o processo?

Acho que foi no início do ano passado, mais ou menos março ou abril. Mas lembro que a ideia surgiu de um brainstorm com Jared e Charise por telefone. Tipo, “acho que a metáfora da borboleta já está lá, visualmente. E se essa música fosse sobre o milagre da natureza?”. Aí, quando pensei na ideia de duas lagartas apaixonadas, uma luz se acendeu.

Porque essa metáfora abrange muita coisa: tanto a vida de Abuela [Alma] e Pedro quanto a dinâmica dos outros familiares. Eu queria que parecesse uma música que sempre existiu. Todas as minhas canções folclóricas favoritas têm metáforas da natureza embutidas nelas. Comecei a sonhar em espanhol enquanto escrevia. Era como se todo o meu cérebro estivesse tentando fazer a coisa acontecer, até mesmo meu subconsciente.

Depois de ter essa ideia – lagartas apaixonadas – você conseguiu escrever tranquilamente ou demorou um pouco para escrever em espanhol?

Acho que escrevi o primeiro verso e o refrão em, tipo, uma semana. Mandei para a equipe de criação e eles ficaram emocionados, dizendo: “Você está no caminho certo, vá em frente”. Eu precisava alcançar uma linguagem poética que estivesse além do meu nível de espanhol. Sou bastante fluente em espanhol para conversação, mas precisava de mais. Então corri para gramática do meu pai. E procurei as palavras que não são do meu uso cotidiano: crisálidas, desorientadas... Você faz o que for preciso.

Por que parecia que essa música tinha de ser em espanhol?

Porque, para ser honesto, todas as palavras centrais da metáfora são mais bonitas em espanhol, no nível técnico: oruguitas, crisálidas, mariposas são palavras mais bonitas, simples assim. Mas também acho que tem um jogo geracional muito sutil na maneira como usamos a linguagem neste filme: as irmãs mais novas se expressam em gêneros bastante contemporâneos: o reggaeton para Luisa, o rock en español dos anos 90 para Isabela [irmãs de Mirabel]. E assim parecia que a matriarca da família e a história fundamental dessa família e desse milagre deveriam estar em espanhol.

Como você escolheu Sebastián Yatra – um cantor pop bem jovem – para expressar esse sentimento?

Nós ficamos discutindo se o melhor seria um vocal feminino ou masculino. E nós meio que sentimos: “Bom, se for feminino, vai parecer que a Abuela está cantando”. Não parecia muito certo. Eu conto muita história, mas escrever a música certa é descobrir qual não é a música certa. Não parecia certo que a Abuela cantasse uma música para Mirabel, ponto final. Então foi isso que nos levou ao vocal masculino.

Quando começamos a trabalhar juntos – Jared, Charise, Byron e eu – todos meio que fizemos mixtapes um para o outro. Todos nós demos nossos mergulhos na música colombiana, e Sebastián simplesmente apareceu em todas as nossas playlists. Ele tem uma voz muito bonita e é da idade do Abuelo Pedro quando ele aparece no filme, então é um ajuste perfeito.

Na cena em que ouvimos ‘Dos Oruguitas’, aparecem borboletas douradas por toda parte, o que evoca uma imagem muito utilizada pelo romancista colombiano Gabriel García Márquez. As borboletas dele inspiraram a metáfora de alguma forma, ou elas simplesmente se alinharam quando você encontrou a ideia da lagarta?

Absolutamente. A música em si foi absolutamente inspirada na metáfora visual com a qual a equipe de animação já estava brincando. Aquela cena em toda a sua concepção ainda não existia, mas eu tinha visto a vela que se transformava em borboleta. E essa foi a inspiração para a metáfora. Portanto, também é um ótimo exemplo de quanta colaboração acontece em um filme de animação. É escrever para o teatro à enésima potência.

Eu escrevi uma seção de rap para Dolores em We Don’t Talk About Bruno, e os roteiristas pegaram isso e transmitiram essa vibração para ela durante todo o filme. O departamento de animação, por sua vez, pensou nessa metáfora da borboleta absolutamente inspirada em García Márquez, e aí eu comecei a usar isso como uma ideia para a música. Você sabe que está no caminho certo quando as ideias vão alimentando umas às outras. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.