"Limite" ganha documentário e terá estréia comercial

O documentário Onde a Terra Acaba, de Sérgio Machado, que estréia nesta sexta-feira em São Paulo e no Rio de Janeiro, é uma detalhada e afetuosa biografia do diretor Mário Peixoto. Ele é autor de um único filme: Limite, considerado por muitos críticos um dos mais importantes do Brasil. Ao longo de 75 minutos, Machado enumera a trajetória do diretor, a gênese do filme e tenta explicar por que um cineasta tão talentoso não conseguiu realizar um segundo longa-metragem.Machado apaixonou-se por Limite à primeira vista quando ainda era estudante, na Bahia. ?A belíssima maneira com que ele enquadra cada plano, a melancolia que as imagens transmitem, o modo doloroso com que ele vê o destino daqueles náufragos no barco, todas essas cenas ficaram na minha cabeça por uns dez dias.? Quando chegou ao Rio de Janeiro, em 1997, para trabalhar na equipe de Walter Salles, que preparava Central do Brasil, Machado soube do projeto de um documentário sobre Mário Peixoto. Ele entusiasmou-se também ao saber que todo acervo do diretor estava em um andar da produtora VideoFilmes, que pertence a Salles. A princípio, Salles pretendia dirigir ele mesmo o documentário e convidou Machado para ser assistente de direção. Ele também é apaixonado por Limite, e cuidou do diretor em seus últimos anos de vida. Pouco depois, com o sucesso de Central, Salles foi absorvido pelos compromissos e Machado herdou o projeto. Começou então uma longa pesquisa no vasto material do arquivo, que havia sido preservado e cuidadosamente organizado por Saulo Pereira de Melo. ?O material era tão rico e tão detalhado que cheguei a ter medo de não ser capaz de fazer um filme que fosse digno dele.?Pelos bons resultados nos festivais, pode-se dizer que conseguiu. Onde a Terra Acaba venceu em Biarritz, ganhou prêmios de público e crítica no festival Rio BR, prêmio do júri na 25ª Mostra Internacional de Cinema de SP, e no recente festival do Ceará. O espectador sente que é um trabalho cuidadoso. A narração é de Matheus Nachtergaele, que procura reproduzir o tom de Peixoto. Todas as suas falas são extraídas de trechos dos diários do próprio Mário. ?O mais difícil do roteiro foi garimpar esses trechos dos diários, de modo a criar uma seqüência narrativa. Foi quase como montar um quebra-cabeça?, conta Machado.Além da história em si, o filme tem outras preciosidades que por si só já valem a visita. Há cenas do making of de Limite que registram a incrível engenhosidade do diretor e do fotógrafo Edgar Brazil. Como na época a tecnologia não era nem parecida com a de hoje, os movimentos de câmera eram improvisados. Para a câmera acompanhar os atores andando, improvisou-se uma espécie de liteira, na qual quatro carregadores sincronizavam os passos, de modo a não balançar a câmera. Para fazer a câmera subir, criou-se uma espécie de grua de madeira, acionada por cordas.Traz também uma preciosidade: diversas cenas do inacabado segundo filme de Peixoto, que iria chamar-se justamente Onde a Terra Acaba. Durante as filmagens, Peixoto e a atriz principal (e também produtora) Carmen Santos, brigaram e o filme ficou pela metade. Parte dos negativos perderam-se em um incêndio. Anos mais tarde, os dois se reconciliaram e Carmen presenteou o diretor com um rolo com alguns minutos de filmagem, que havia sobrado. Essas cenas estão no documentário.Igualmente importantes são as cenas do curta-metragem O Homem do Morcego, dirigido por Rui Solberg, que fez uma longa entrevista com Peixoto em seu sítio, em Ilha Grande. ?O Rui foi de uma generosidade fantástica. Ele não só me permitiu usar cenas do documentário, como me deu todas as cenas com a entrevista que ele havia descartado. É um material preciosíssimo.? Machado destaca, por exemplo, a descrição que Peixoto faz de seu projeto de filmar A Alma Segundo Salustre, que está no documentário. ?Ele descreve cada plano com precisão, como se o filme já estivesse pronto na sua cabeça.? O diretor percebe esse mesmo cuidado ao ler o roteiro original de Limite, que é praticamente idêntico ao que se vê na tela. ?Ele descreve os planos e enquadramentos de forma muito cuidadosa.?Sérgio Machado procurou fazer o mesmo no roteiro de Onde a Terra Acaba. Chegou ao cuidado de fazer um storyboard tão minucioso que o premiado diretor de fotografia, Walter Carvalho, ao folheá-lo, afirmou: ?Para que você vai fazer esse filme? Ele já está pronto aqui...? Da mesma forma, a bela montagem de Isabelle Rathery (Central do Brasil e Abril Despedaçado) busca uma aproximação com o ritmo de Limite.O principal mérito de Onde a Terra Acaba é lançar uma luz sobre Limite, despertando no espectador o desejo de assistir a obra de Peixoto. É um filme importante, respeitado no mundo todo, mas ao mesmo tempo uma obra difícil, que não é para qualquer espectador. ?É um filme muito comentado e pouco visto e acho importante que as novas gerações possam ter contato com ele.? Pensando nisso, a VideoFilmes promoveu uma cuidadosa restauração, que passou por uma etapa digital.Não foi a primeira restauração do filme. No início dos anos 60, a cópia estava muito deteriorada e só não desapareceu graças ao trabalho de Saulo Pereira de Mello, que iniciou um a recuperação por conta própria, o que demorou cerca de 14 anos.Como foi filmado a 16 quadros por segundo, velocidade comum nos tempos do cinema mudo, Limite sempre perdia ao ser exibido com projetores modernos, que operam a 24 quadros. Isso dá aquele aspecto mais acelerado, característico dos filmes mudos. Um software especial adequou a antiga velocidade, de modo que as novas cópias podem ser vistas tal como foram apreciadas pelas platéias dos anos 30. Todas as obras desse período, como Ganga Bruta, Brasa Dormida (de Humberto Mauro) e mesmo estrangeiros como O Encouraçado Potenkin (do russo Eisenstein), por exemplo, deveriam ganhar novas cópias feitas por esse processo.Com cópias novíssimas, Limite vai estrear em São Paulo e no Rio de Janeiro em meados de junho. Estréia é mesmo o termo correto. Limite nunca foi exibido comercialmente. Teve quatro exibições em sua época, desapareceu por uns tempos e ressurgiu em cineclubes nos anos 50 e, principalmente nas aulas do professor Plínio Süssekind Rocha. Finalmente vai ter a visibilidade que sempre mereceu.

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