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Limitação ao filme nacional liquidou a companhia Vera Cruz

O projeto esbarrou em obstáculos que persistem até hoje, como a incapacidade de contar com seu próprio mercado

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

19 de maio de 2014 | 19h20

Em seu livro O Pensamento Industrial Cinematográfico Brasileiro (Hucitec, 2014), o pesquisador Arthur Autran sustenta que nunca houve um esforço real de industrialização do cinema brasileiro. Historicamente, o cinema foi gerido por um pensamento de tipo "culturalista" e nunca houve vontade política de afrontar interesses econômicos estrangeiros no setor. O "caso" Vera Cruz é um dos mais significativos dessa história.

A Vera Cruz surge, como se tornou hábito afirmar, no bojo de um projeto cultural da burguesia paulistana. A ideia de "um cinema nacional de qualidade europeia" ganhava forma junto com outras iniciativas do gênero, como a criação do Teatro Brasileiro de Comédia e do Museu de Arte de São Paulo. Tratava-se de "civilizar" a metrópole, através do processo de importação de uma cultura, inspiração em todo semelhante à da fundação da Universidade de São Paulo, que contara com uma missão de brilhantes professores franceses para dar o start universitário na Pauliceia.

Fundada em 1949, com estúdios em São Bernardo do Campo, a Companhia Cinematográfica Vera Cruz exibia propósitos grandiosos – o principal, estabelecer o processo de produção em série de obras cinematográficas de qualidade. Estúdios foram construídos, os maquinários importados (com isenção fiscal) e técnicos europeus, como o excepcional fotógrafo Chick Fowle, foram convidados a trabalhar em São Paulo. Um grande diretor brasileiro, então radicado na Europa, Alberto Cavalcanti, foi convidado para dirigir a companhia. Formou-se, por fim, um star system nos moldes de Hollywood, com astros e estrelas, como Anselmo Duarte e Tonia Carrero, sob contrato da companhia.

Mesmo os detratores da Vera Cruz reconhecem que, apesar dos problemas, a companhia formou uma geração competente de técnicos de cinema. Filmes "de qualidade" como O Caiçara, Sinhá Moça, Floradas na Serra e Tico-Tico no Fubá começaram a disputar espaço no mercado exibidor nacional. O mais bem-sucedido de todos foi O Cangaceiro, de Lima Barreto, cujas filmagens simulando o Nordeste foram feitas no interior de São Paulo. O filme abriu um veio lucrativo para o cinema brasileiro, o do filme de cangaço, apelidado de "nordestern". Foi exibido comercialmente em mais de 20 países e chegou a ganhar o prêmio de "melhor filme de aventuras" no Festival de Cannes de 1953. Sua música, Muié Rendera, interpretada por Vanja Orico, também se tornou êxito comercial fora do País. Tanto assim que valeu à cantora e atriz uma ponta no filme Mulheres e Luzes, de Federico Fellini e Alberto Lattuada.

As dívidas da companhia, que já então se acumulavam, poderiam ter sido saldadas pela carreira comercial de O Cangaceiro. No entanto, a companhia vendera os direitos de comercialização à Columbia, que, apesar de não ser a Metro, ficou com a parte do leão.

O projeto industrial da Vera Cruz esbarrou em obstáculos que persistem até hoje, o principal deles, a incapacidade de o filme nacional contar com seu próprio mercado, construído para acolher o importado. Jamais se tentou enfrentar o poder econômico. Em um de seus textos, Paulo Emilio Salles Gomes conta que tentou convencer um presidente da República a ampliar a cota de tela para o produto nacional. Preocupado, o presidente teria lhe perguntado: "Mas isso não vai prejudicar o cinema americano?".

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