Lima Duarte concorre a prêmio em Veneza

Depois de acumular elogios da imprensa internacional pela performance em Eu, Tu, Eles, ganhador de menção honrosa em mostra paralela de Cannes, Lima Duarte concorre ao prêmio de melhor ator em Veneza. Ele é o protagonista de Palavra e Utopia, com o qual o diretor português Manoel de Oliveira concorre ao Leão de Ouro nesta 57.ª edição do festival de cinema italiano."Tentei estar à altura da filmografia de Manoel de Oliveira e das idéias do padre Antônio Vieira´´, afirmou o ator, que encarna o religioso português do século 17, célebre pelos sermões que escreveu. Único representante do Brasil na mostra competitiva de Veneza, Duarte interpreta os últimos anos do padre, também vividos no filme pelos portugueses Ricardo Trepa e Luís Miguel Cintra.Em entrevista concedida no terraço do hotel Excelsior, o ator afirmou ter sido um dos trabalhos mais difíceis de sua carreira. "Como o título do filme já adianta, a força está na palavra. A ação é subjetiva. Não tem porrada ou perseguição de automóvel. Mas, ao mesmo tempo, o filme surpreende pelo dinamismo e pela velocidade. Isso porque remete ao raciocínio, às idéias e aos sentimentos.´´Estadao.com.br- Como foi trabalhar com Manoel de Oliveira, um dos mitos do cinema europeu?Lima Duarte - Ele é um diretor terrível, ainda que seja uma pessoa muito doce. A atitude com relação aos seus filmes deve ser distinta. Está mais para quem lê um livro, aprecia uma pintura ou trabalha em uma tese. Na verdade, ele faz quadros vivos. Uma hora propõe uma obra de Botticelli, depois Giotto ou Velásquez. Ele te põe lá na frente e diz: "É o padre Antônio Vieira. Veja o que você consegue fazer´´.Como foi dar continuidade a um personagem interpretado por dois outros atores?Oliveira sempre deixou claro que representaria três padres Vieira, assim como poderia ter sido cem, de tão poderoso ele era no campo das idéias e da filosofia. Eu tentei ser a paixão. Ricardo Trepa interpreta o personagem mais jovem e impetuoso, enquanto Luís Miguel Cintra encarna a razão, representando o período em que o padre viveu na Europa e enfrentou a Inquisição. A minha contribuição foi dar mais sentimento ao personagem. Eu tento resumir os 40 anos que ele passou na Amazônia esperando a morte. E o mais surpreendente é que ele sofre a degradação física, mas a cabeça não pára. Ele sempre esteve do lado dos negros, dos índios e dos oprimidos. E sempre colocava essa paixão pelo ser humano na forma de palavras.Pelo tom rebuscado do texto de Vieira, acha que ele poderia ter sido um Shakespeare na língua portuguesa se tivesse se dedicado à ficção?Se o padre Vieira não tivesse vivido integralmente para a catequese, se a religião não tivesse sido o mote de sua vida e se ele tivesse se permitido ser um pouco profano e erótico, com certeza. Ele fazia aquelas construções gramaticais maravilhosas no português barroco. Um trabalho belíssimo.Como se preparou para um papel tão intenso, com falas tão declamatórias?O mais engraçado é que, na época, quando pesquisava sobre Vieira, eu estava no sertão rodando Eu, Tu, Eles, fazendo o papel de Osias. Passava dias no sertão estudando Os Sermões. Eu estudava tanto que acho que Osias saiu um pouco com cara de Vieira. Ninguém pode perceber, mas eu vejo o padre no fundo do olho do personagem nordestino.O que eles têm em comum?Os dois foram incompreendidos. E ambos tinham essa necessidade de amar. A diferença é que o religioso se volta para Deus, enquanto Osias se volta para Darlene. Osias até aceita ver a mulher com outros homens desde que ela não o deixe. Ambos precisam do amor para viver.Você pode estabelecer um paralelo entre Andrucha Waddington que rodou o filme com menos de 30 anos, e Manoel de Oiveira, com mais de 90?Por mais estranho que seja, talvez Oliveira pareça ser o mais jovem (risos). Ainda que ele seja o último diretor vivo que rodou um filme mudo, Oliveira ousa muito mais. Waddington se calçou muito bem para realizar o filme. Seja na escolha dos atores, dos técnicos e até na participação de Gilberto Gil na trilha sonora. Se ele se atirou de um penhasco, podemos dizer que foi com uma rede de segurança esperando por ele lá embaixo.Como o sr. vê a participação de Palavra e Utopia (que será exibido em São Paulo, em outubro), na Mostra Internacional em Veneza?Para ser sincero, eu não gosto de festival. Ninguém está aqui interessado verdadeiramente nos filmes. Por mais que a Europa não faça cinema hollywoodiano, no final das contas o objetivo é o mesmo. Fico triste ao perceber de, depois de tudo o que discutimos sobre a vida do padre Vieira, tudo se resuma a quantos países compraram o filme e quanto pagaram. É puro comércio.Você teve de adiantar muitas cenas da novela Uga Uga para que a Globo o dispensasse e você pudesse vir a Veneza?Sim. Trabalhei feito louco. Mas essa é a minha realidade. Eu já dei adeus às ilusões há muitos anos. A minha vida é a telenovela. Só de vez em quando eu consigo fazer um padre Vieira para meu deleite pessoal. Isso é quase um surto (risos).

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