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‘Lilo & Stitch’ faz 20 anos: como o filme inovou muito antes de ‘Moana’

Conheça os bastidores da criação do filme sobre garota havaiana chamada Lilo, cuja vida é revirada quando um alienígena fugitivo, Stitch, cai nas proximidades

Sarah Bahr, The New York Times

23 de junho de 2022 | 10h00

Quando o diretor Chris Sanders estava começando a trabalhar em Lilo & Stitch, a supervisora de desenvolvimento visual do filme, Sue Nichols, fez uma comparação que o surpreendeu.

“Ela fez um desenho de Mulan ao lado de Nani”, disse Sanders, referindo-se à irmã mais velha de Lilo. “E apontou que na verdade Mulan não tinha certos traços de sua anatomia, se você olhasse o torso dela”.

Sanders, que escreveu e dirigiu Lilo & Stitch com Dean DeBlois, optou por um estilo de animação mais encorpado para o filme, uma comédia de aventura que, nas duas décadas desde seu lançamento, em 21 de junho de 2002, recebeu elogios de críticos e fãs por seus tipos corporais realistas, sua precisão cultural e seus protagonistas incompreendidos.

O filme conta a história de uma garota havaiana chamada Lilo, cuja vida é revirada quando um alienígena fugitivo, Stitch, cai nas proximidades. O filme lançou as bases para tendências em filmes recentes da Disney, como a falta de uma grande história de amor e protagonistas meio amuados.

“Quando viramos os relógios dos anos 1990 para os anos 2000, todo mundo achava que o mundo ia acabar”, disse Shearon Roberts, editora do livro Recasting the Disney Princess in an Era of New Media and Social Movements e professora associada de comunicação de massa na Universidade Xavier, em Nova Orleans. “Então, todo o conteúdo que eles estavam criando era menos os contos de fadas que vimos nos anos 80 e 90 e mais essa exploração de incógnitas.”

Sanders concebera a história como um livro infantil, mas reformulou o argumento para a tela grande. Era um azarão desde o início.

Depois de uma série de lançamentos de alto perfil, mas caros, dos anos 1990, como Atlântida - O Continente Perdido e Tarzan, que custaram mais de US$ 120 milhões, os produtores de Lilo queriam fazer um filme menor, por cerca de US$ 80 milhões. DeBlois e Sanders, que tinham trabalhado juntos no departamento de histórias de Mulan, de 1998, se juntaram para codirigir e coescrever. Daveigh Chase, pré-adolescente que já era uma atriz veterana, dublou Lilo. Mas, para Stitch, eles foram com Sanders mesmo.

“Não queríamos um ator de verdade, como Danny DeVito, só para depois o estúdio vir atrás da gente dizendo: ‘Por que vocês contrataram alguém que é uma entidade conhecida para dizer só quinze palavras?’”, disse Sanders.

“Adoro que a gente tenha guardado assim na memória”, disse Clark Spencer, que produziu o filme e agora é presidente do Walt Disney Animation Studios. “Mas a verdade é que o personagem era do Chris desde o primeiro dia. Ele fez o design. Ele sabia o que queria que o personagem fosse, como soasse sua voz. Não consigo imaginar ninguém além de Chris para a voz Stitch”.

Os bastidores de 'Lili e Stitch'

De início, a história se passaria na zona rural do Kansas, mas, depois de umas férias na ilha, Sanders decidiu encenar o filme em outro local remoto: Kauai, Havaí.

Ele, DeBlois e outros membros da equipe criativa fizeram outra viagem para Kauai – juntos, desta vez – para conversar com os locais e se familiarizar com a cultura havaiana.

“Uma coisa que aprendemos trabalhando em Mulan é que, quando você está localizando uma história num lugar específico do mundo real, há lugares que você não pode acessar”, disse DeBlois. “Existem alguns elementos culturais que você não consegue usar porque você não é dali.”

Então, eles recrutaram o músico havaiano Mark Keali’i Ho’omalu para dar consultoria sobre a dança hula e os arranjos de coral. Integrantes do elenco criados no Havaí – Tia Carrere, que dublou Nani, e Jason Scott Lee, que interpretou seu namorado – sugeriram edições no texto para refletir melhor o dialeto coloquial de Kauai.

A produção não deu passos que seriam dados em Moana, como contratar uma equipe de roteiro e direção havaiana, mas Roberts, a pesquisadora da Universidade Xavier, disse que sua representação mais realista do Havaí foi um começo.

“A Disney realmente tinha dificuldades para contar histórias da Ásia-Pacífico”, disse ela. “É por isso que eles gastaram tanto tempo montando uma equipe de cérebros em torno de Moana, filme que teve uma recepção muito melhor, desde o elenco até garantir que certas partes do arco da história não beirassem o estereótipo. Então havia mais algumas lições sobre como trazer pessoas para a mesa para apoiar sua equipe de roteiristas.”

Lilo & Stitch tocou em questões do mundo real com as quais os jovens do público podiam se relacionar: Nani, forçada a se tornar a guardiã legal de Lilo depois que seus pais morrem em um acidente de carro, enfrenta lutas parentais. E uma assistente social sempre parece pegar Nani e Lilo no seu pior.

Ainda assim, os cineastas receberam feedback negativo na primeira exibição, disse Sanders: os espectadores não gostaram quando Nani agarrou Lilo pelo pulso em determinada cena, porque acreditavam, erroneamente, que Nani era a mãe de Lilo.

Os cineastas esclareceram isso com um truque do dramaturgo Howard Ashman. “Ele falava: ‘Se você quer que o público se lembre de algo, você tem que dizer três vezes, uma depois da outra’”, disse Spencer. “Então refizemos a cena”, certificando-se de que Lilo e Nani mencionassem que eram irmãs três vezes seguidas.

Mas a equipe não editaria o filme em resposta a outra reclamação, disse Spencer: o público não gostou do quanto Nani e Lilo gritavam uma com a outra.

“Chris, Dean e eu dizíamos: ‘Mas isso acontece na realidade!’”, disse Spencer. “É um momento em que Nani está pressionada e Lilo está se sentindo deslocada e tentando descobrir quem ela é.”

Os cineastas também priorizaram o realismo em outra área: uma representação mais realista dos corpos femininos. Lilo é baixinha e cheinha, Nani tem coxas grossas e o que Sanders chamou de “uma pélvis de verdade”.

Roberts disse que o filme foi uma mudança notável em relação à fórmula da Disney. “Na década anterior, as princesas tinham corpos de mulheres adultas totalmente desenvolvidas”, disse ela. “Mas permitimos que Lilo ainda seja infantil. Seu rosto é muito inocente. Temos um corpo que não é tamanho 0 – temos a juventude totalmente incorporada nas nossas dimensões.”

Janet Wasko, autora de Understanding Disney: The Manufacture of Fantasy, observou que, ao se concentrar em uma protagonista feminina sem uma trama de romance ou casamento, Lilo & Stitch prefigurava futuras estrelas femininas da Disney como Moana, Merida de Valente e Riley de Divertida-Mente.

Sucesso de crítica e público

Lilo & Stitch provou ser um sucesso de crítica e público, estreando apenas US$ 500 mil atrás do thriller de ficção científica de Tom Cruise Minority Report e acabando por arrecadar US$ 273 milhões globalmente. (Também recebeu uma indicação ao Oscar de melhor filme de animação, mas perdeu para A Viagem de Chihiro, de Hayao Miyazaki). Lilo gerou uma franquia que abrangeria três sequências e três séries de televisão, além de várias atrações de parques temáticos. Há até um remake live-action em desenvolvimento.

“É um daqueles filmes que, quando as pessoas dizem: ‘No que você já trabalhou?’, você literalmente sente uma mudança no ar quando responde Lilo & Stitch”, disse Spencer. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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