"Lilo & Stitch": animação à moda antiga

No pôster de Lilo & Stitch, novo desenho animado dos estúdios Disney, velhos conhecidos do mundo da animação como Pinóquio, Sininho e Aladim, entre outros, contemplam assustados uma pequena criatura de enormes dentes, que parece uma mistura dos Gremlins com Pokemón. Nos quatro trailers de divulgação, esse bichinho intergaláctico batizado de Stitch mostra que é pestinha. Ele faz desabar um candelabro, acabando com a valsa entre a Bela e a Fera; passa uma cantada de trânsito em Jasmin (ela em seu tapete mágico, ele em sua nave espacial) e quase afoga Ariel depois de criar uma onda oceânica, além de assumir o posto do leãozinho Simba.A Disney espera também que Lilo & Stitch, que estréia hoje em grande circuito em todo o Brasil, chegue bagunçando o coreto e faturando alto na bilheteria. Isso ajudará a dar novo vigor à indústria de animação tradicional, aquela em que os desenhos são confeccionados pelas mãos dos animadores e não pelos computadores. Desde 1999, com o lançamento de Tarzan, da Disney, que nenhuma produção sem a maciça ajuda de computadores conseguiu conquistar o público.Lilo & Stitch é o desenho que tem tudo para virar o jogo e mostrar que os dois universos da animação são compatíveis. Trata-se de um filme simples, delicioso e que mexe com todas as emoções pedidas pelo gênero numa dose exata. E com grande vantagem: nada de músico inglês como Sting ou Phil Collins de olho no Oscar. A trilha de Lilo & Stitch é composta por canções do "rei" Elvis Presley, uma delas, Burning Love, recriada pela irmã da atriz Ashley Judd, a cantora Wynonna, uma espécie de Maysa do country americano.Criado em outro planeta, Stitch é uma experiência genética (batizada de número 626) que deu errado. Apesar de ser do tamanho de uma bola de futebol, ele é amedrontador, pois seus instintos são de destruição. E também é bem porquinho: tem aquele hábito escatológico de soltar e engolir de volta a cusparada.Ao ser condenado ao exílio em outro planeta, Stitch acaba se libertando da nave espacial que o transporta e vai parar na Terra, mais especificamente numa das ilhas do Havaí. Perseguido por seu inventor, Stitch se faz passar por um cachorrinho dócil e amável e encontra uma interessada em adotá-lo: uma havaiana bastante esperta e gordinha, chamada Lilo.Como reza a tradição da Disney, Lilo é órfã (os pais morreram num acidente). Quem a cria é a irmã mais velha, que não consegue manter seus empregos de garçonete em falsos luaus. Um assistente social persegue a irmã, que não estaria tomando conta direito de Lilo, e ameça tirar-lhe a guarda da garota caso ela não prove em três dias ser a guardiã ideal.Dirigido pelos estreantes Chris Sander e Dean Deblois (ambos supervisores da história de Mulan) e sem o estardalhaço e o orçamento generoso de uma produção normal da Disney, Lilo & Stitch evoca a história do patinho feio e explora o conceito familiar havaiano da o?hana, expressão que quer dizer que nenhum membro de uma família "poderá ser deixado para trás".Por ser fábula havaiana, o desenho também vende uma filosofia naturalista: por pior que seja seu dia, nada melhor do que expurgar os demônios na praia. E que praia. As cores da natureza havaiana são vibrantes, um show à parte. Somente as cenas de surfe foram criadas por computador.Cerca de 1.200 pinturas de background da história foram criadas por meio do uso da aquarela, método que não era maciçamente empregado num filme da Disney desde a época de Pinóquio e Dumbo, há 60 anos. Para obter know-how suficiente nesse campo, os animadores de Lilo & Stitch decidiram procurar Maurice Noble, o aquarelista que fez Dumbo, Branca de Neve e Bambi, e que morreu no ano passado, aos 91 anos."Claramente existe um lugar para a animação bidimensional, pois ninguém pode substituir o calor e a humanidade que os desenhos tradicionais provocam", disse Sanders, em entrevista a um jornal americano. Andreas Deja, um veterano animador da Disney, também concorda. "Às vezes, com o computador, você tem a impressão que as expressões foram todas frutos de download", explicou. "Eu invento uma expressão para cada sentimento, pois há uma honestidade nisso, além de algo artístico."Lilo & Stitch também "inova" ao ter seis canções de Elvis, entre elas Can?t Help Falling in Love, Suspicious Mind e Blue Hawaii, em sua trilha, em vez das habituais inéditas. Sanders disse que teve medo de procurar os responsáveis pelo espólio de Elvis e ver o pedido dos direitos autorais negados. "Quando fomos pedir os direitos, o amor de Lilo pelas músicas de Elvis já estava bastante delineado na história. Mas mostramos o filme semipronto e a aceitação foi total", disse Sanders. Uma das cenas mais engraçadas do desenho é a de Lilo usando a unha afiada de Stitch para tocar um vinil de Hound Dog, um dos mais famosos da carreira de Elvis, sai do bocão do bichinho.

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