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Liam Neeson, armado, crê na reflexão em ‘Noite Sem Fim’

Filme estreia na próxima quinta-feira, 30

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

26 de abril de 2015 | 03h00

NOVA YORK - Liam Neeson admira-se de ainda andar por aí, correndo de arma na mão. “Truly”, de verdade, ele diz num encontro com um reduzido grupo de jornalistas, num hotel de Nova York. O estúdio colocou os dois veteranos juntos. Neeson, o astro, e Ed Harris para falar do vigoroso thriller de Jaume Collet-Serra, que estreia na quinta, dia 30. O Schindler de Steven Spielberg conta que teve alguns recomeços na vida e na carreira, mas não tem explicação para o fato de, aos 62 anos, estar consagrado como astro de ação.

“Às vezes, acho-me ridículo, dando tiros e porradas. Penso que vão parar, me mandar para o canto, mas aí Jaume me envia esse roteiro bem escrito, um filme de ação com um fundo de verdade muito forte. Não dava para resistir.” A seu lado, Ed Harris intervém para dizer: “Esse cara ainda tem uma vitalidade de garoto. No filme, eu mando matar e só no final pego em armas. Ele está o tempo todo disparando, batendo. Mas não é só isso. O filme tem ‘some pretty good words’ (bons diálogos) para falar sobre a natureza humana e refletir sobre relações. Temos de agradecer a Jaume por manter a tradição de um cinema de ação forte e reflexivo, que fez a grandeza de Hollywood.”

Tudo parece déjà vu em Noite sem Fim. A amizade rompida, o difícil relacionamento de pai e filho. Liam Neeson faz o capanga de Ed Harris, que controla a noite, o crime. Neeson tem um filho do qual se mantém distante. O garoto cresceu e virou tudo aquilo que o pai não representa. Um sólido pai de família, cidadão. Mas sabe a hora errada? Ele testemunha o crime cometido pelo filho de Harris. E agora os antigos parceiros vão virar antagonistas em defesa dos filhos. Déjà vu. Já visto? Mas então qual é o milagre que faz com que tudo pareça novo, e vital? É a direção, com certeza, e o elenco. Tem horas em que a ação para e Neeson e Harris só se sentam para conversar. Palavras – e como ator e diretor de teatro, Harris sabe o valor que elas têm.

Liam Neeson e Jaume Collet-Serra já fizeram vários filmes juntos. Respeitam-se mas, como em qualquer relacionamento, existem momentos de tensão e atrito. “Esse cara é ‘a pain in the ass’, um saco”, diz o ator. O thriller hollywoodiano do espanhol Collet-Serra estreia na quinta que vem. É ótimo. Neeson conta – “Jaume não é muito de conversar com os atores. Ele faz a parte dele, nós fazemos a nossa. Mas ele espera que a gente faça a nossa do jeito dele. Quando começa a filmar, ele é do tipo que já tem o filme pronto na cabeça, e a gente que se adeque.”

É a hora do elogio. Baixa o paizão e Liam Neeson fala com admiração do sueco Joel Kinnaman, que faz seu filho. Só para lembrar, o ator é o mesmo que fez o RoboCop na versão do brasileiro José Padilha. “Joel é muito focado e talentoso. Quisera eu ter sido assim, quando tinha a idade dele. Não teria dado tantas cabeçadas na vida.” Sobre ter virado um astro de ação, é sucinto. “Não procurei, simplesmente aconteceu. Tem a ver com essa cara amassada e esse físico de estivador”, brinca. Mas correndo, dando porrada, eventualmente fazendo comédias românticas ou participando de um filme ‘nobre’ de Steven Spielberg – o vencedor do Oscar A Lista de Schindler –, Neeson diz que nunca perde de vista o fato de ser um ator. “Compondo (o personagem) ou sendo naturalista, sou eu que levo a ação ou o drama no imaginário do público. Concentro-me e tento dar o máximo de credibilidade ao que faço. Acho que tenho conseguido.”

Diz sem soberba. Não é o astro falando. É o operário da representação. O encontro ocorre não muito tempo depois da outorga do Oscar e o repórter provoca. Certas cenas de diálogos – de Neeson e Ed Harris, ou de Neeson e Kinnaman – são muito boas, mas os votantes da Academia jamais pensariam nesses personagens, ou nesses atores, como dignos de premiação. “Que bom que você gostou, porque na realidade não é fácil fazer essas cenas que eu chamaria, sem nenhuma intenção pejorativa, de dramaticidade ‘média’. Não é Shakespeare, mas também não é banal. Já fui indicado para o Oscar e não creio que aqueles papéis fossem mais difíceis”, reflete Harris. Embora tenha uma filmografia respeitável – Os Eleitos, de Philip Kaufman, Alamo Bay, de Louis Malle, As Horas, de Stephen Daldry –, sua praia/sua vida é o teatro. E ele conta.

“Enquanto filmava Noite sem Fim, fazia teatro, aqui mesmo em Nova York. Fazia as cenas diurnas e corria para o teatro. Terminava a função e o carro me levava para o set noturno. Foi assim durante duas ou três semanas. (Nós, atores) Somos treinados para isso, mas chega uma hora em que você só tem de deixar acontecer. E quando você contracena com atores talentosos, quando o diretor sabe o que quer e o diálogo é bem escrito, tudo fica mais fácil.” Já que o assunto tocou no Oscar, o repórter quer saber o que Harris achou da vitória de Birdman, de Alejandro González-Inárritu? Harris ri porque não consegue dizer o nome. Sai alguma coisa como “Iartu”. “Sou um grande fã do filme”, revela. Por causa dos bastidores do teatro? “Iartu tem uma direção de cena muito interessante, e os diálogos dos filmes dele são sempre ótimos. Mas o foco no teatro foi bom, sim.”

O assunto ‘teatro’ permite que se aborde uma questão que é forte em Noite sem Fim. Tudo se passa em família, como nas tragédias gregas. “É o componente mais interessante do filme. Fala-se muito no amor de mãe, mas e o de pai?”, pergunta Neeson. “Por mais que existam hoje um novo tipo de homem, um novo tipo de mulher, a manifestação do amor ainda é coisa feminina. Quantos pais você ouve dizer ‘Te amo, filho’? Parece piegas. Com as filhas ainda fica mais fácil, mas entre homens é tabu. Para meu personagem é mais fácil matar pelo filho que dizer para ele ‘Eu te amo’. Como se representa o afeto reprimido? Quando as palavras não saem, é preciso usar o olhar, certos gestos. E isso é real.”

Ed Harris prossegue – “Esse cara (Neeson) estourou com os filmes da série Taken/Busca Implacável, e eu não fiz muitos desse gênero. Pode ser um cacoete de teatro, mas estou sempre atrás da dramaturgia. E aí veio a oportunidade de trabalhar com ele, e num filme que realiza o que gosto e sei fazer. Nossos personagens têm uma relação que muda dramaticamente, a gente conversa mas também se golpeia, dá tiros. Nossos clássicos estão lá, a densidade, o valor literário dos diálogos, mas com nova roupagem.” Liam Neeson não duvida – “Acho que o filme tem realmente uma qualidade mítica. Já o vi e gostei da química que tenho com Ed, com Joel (Kinnaman, o filho). E, quando isso ocorre, o público embarca.”

Os ‘velhos’ veem com bons olhos a nova geração que avança em Hollywood. “Dizem que os filmes andam infantilizados, que só têm efeitos, mas não é verdade. Mesmo os filmes de super-heróis andam cada vez mais complexos. Não se pode querer que os filmes sejam feitos do mesmo jeito para espectadores que hoje se ligam em diversas telas (a do cinema como a do celular)”, reflete Harris. Kinnaman diz que foi gratificante trabalhar com Neeson, com Harris. “A segurança e tranquilidade deles foi inspiradora.” Genesis Rodriguez, que faz a mulher de Kinnaman, é uma estrela das novelas do canal Telemundo. É filha de um ícone da música, José Luis Rodriguez. A entrevista é para o Brasil? “Suas novelas são as melhores do mundo”, diz. E manda um recado para Rodrigo Santoro, com quem fez par romântico em O Último Desafio, ao lado de Arnold Schwarzenegger. “Rodriguito es muy guapo. Gostaria de trabalhar com ele, de novo.”

ENTREVISTA - Joel Kinnaman, Ator

Joel Kinnaman iniciou sua carreira na Suécia, em 2012. Consagrado na televisão e no cinema, tentou os EUA, valendo-se da dupla cidadania (o pai é norte-americano). Está dando super-certo.

José Padilha, Jaume Collet-Serrat. Por que filmar com estrangeiros em Hollywood?

Para dizer a verdade, não os escolhi, mas fui escolhido por eles. Filmei também com David Fincher, mas nesse caso ele era o estrangeiro adaptando o best seller sueco Millenium/Os Homens Que não Amavam as Mulheres. Mas me agrada muito essa ideia de um olhar de fora. Tradicionalmente, a América é um país de imigrantes. E eu gosto desse olhar externo sobre uma sociedade que tem suas contradições, mas é muito rica do ponto de vista político e humano. Veja que são filmes críticos. Padilha, que é do Brasil, como você, discute a questão crucial da segurança em RoboCop. Jaume (Collet-Serra) usa a família para debater criminalidade. É um assunto que me interessa muito.

Por quê?

Quando jovem, na Suécia, me envolvi com as pessoas erradas. Brigava nas ruas. Fui preso. Ao invés de ser ator, poderia ter virado marginal, um criminoso. Tornei-me consciente da minha vulnerabilidade. Isso me fez melhor. Por que lhe conto isso? Está ficando demasiado confessional. Mas a verdade é que isso me tornou mais tolerante com o outro, mesmo que tenha me forçado a ser duro comigo.

Como foi filmar com Liam Neeson e Ed Harris?

Eu ainda nem havia começado e esses caras já tinham feito história. Gostava de observá-los no set. São muito bons. Poderiam ser intimidatórios, mas são generosos. Houve cenas em que Liam me permitiu dar o diapasão. Ele me seguia. E se eu ia falar com ele depois dizia que atuar é interagir, que é assim mesmo. Foi muito bom. / L.C.M.

ENTREVISTA - Jaume Collet-Serra, Diretor

Espanhol de Barcelona, Collet-Serra adora o cinema de gênero. Fez o terror A Órfã. Noite Sem Fim é seu terceiro filme de ação com Liam Neeson, após Desconhecido e Sem Escalas.

Como um diretor espanhol consegue filmar Nova York?

Não se esqueça de que Sem Escalas já tinha cenas aqui. A cidade é tão frequentada pelo cinema que minha preocupação era evitar as locações muito vistas. Com exceção de alguns interiores, fugi do estúdio para captar a urgência das ruas. Sem ela, a história não iria funcionar. 

Você usa um recurso muito interessante – acelera a imagem nas passagens de cena. Como fez aquilo?

Com o diretor de fotografia, busquei essa forma de acelerar o relato. Era um misto de filmagem e digitalização. Hoje em dia, você pode fazer tudo no computador, o filme inteiro, se quiser. Acho que ficou bem bom, e ainda situa espacialmente a história.

Com os atores, já comentei que tudo se passa em família, como nas tragédias gregas. Esse elemento já existia no roteiro?

Já, mas trabalhei com o roteirista para acentuá-lo ainda mais. Não gosto de ficar dando orientações para os atores. Espero para ver o que eles me trazem. Liam (Neeson), Ed (Harris) e Joel (Kinnaman) entenderam o subtexto trágico e foram brilhantes. Nós, espanhóis, somos como os gregos, atraídos pelo mito. Picasso, Guernica, Lorca. Pode parecer presunçoso, mas acho que trabalhamos bastante bem com camadas. Quanto mais você escava os personagens, mais densos ficam.

A história fala de amizade traída, de pai e filho...

...E por isso os atores foram decisivos. Sou fã do cinema hollywoodiano clássico, que era feito por grandes diretores, mas também tinha atores que viraram ícones. O ícone não precisa nem representar. Basta sua presença. / L.C.M.

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