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'Leviatã' é um dos filmes favoritos para o Oscar deste ano

Longa ainda está entre os pré-indicados à premiação

Mark Olsen, Los Angeles Times

06 Janeiro 2015 | 03h00

O filme russo Leviatã é a história de um homem e sua luta para salvar a sua casa, seu sustento, sua família, sua dignidade e sua vida, com uma profundidade e escopo que é, ao mesmo tempo, pessoal e épico. 

Sua densa combinação de inspirações do bíblico Livro de Jó, do romance Michael Kohlhaas de Heinrich von Kleist, ambientado na Idade Média, e o tratado de Thomas Hobbes, Leviatã, e da história real de um homem do Colorado que teve um ataque de fúria em 2004 que demoliu tudo à sua frente com uma retroescavadeira, mas o filme, contudo, consegue ter o sentimento profundo e expansivo de um clássico romance russo. 

Coescrito e dirigido por Andrey Zvyagintsev, o filme conquistou o prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes em 2014. Foi indicado para o Globo de Ouro e o Spirit Award e entrou em várias listas dos Top 10 da crítica. E, no que foi uma surpresa para muitos, embora o gabinete do prefeito corrupto da pequena cidade tenha na parede um retrato de Vladimir Putin, o filme foi selecionado pela Rússia para se candidatar ao Oscar de melhor filme em língua estrangeira. O Leviatã está incluído na lista dos nove filmes da Academia que agora disputam as cinco indicações finais.

 

Kolya (Alexey Serebryakov) é um mecânico e reparador em uma pequena aldeia de pescadores no norte da Rússia. Ele vive e trabalha na terra que sempre pertenceu à sua família, junto com a mulher (Elena Lyadova) e o filho de um casamento anterior. O prefeito da cidade (Roman Madyanov) pretende expropriar e se apossar da terra e fará qualquer coisa para isso. O amigo de Kolya, Dimitri (Vladimir Vdovichenkov), advogado em Moscou, ajuda-o na área legal, armado de provas incriminatórias contra o prefeito. E a partir daí a situação se agrava. “Podemos dizer que é uma tragédia do destino humano”, disse Zvyagintsev, durante recente entrevista em Los Angeles, ao lado do seu produtor, Alexander Rodnyansky, que também foi o tradutor. 

Desde a estreia em Cannes, Zvyagintsev parece ter se resguardado contra alguma crítica implícita do atual governo russo e as políticas que vem adotando. Para ele o filme é muito mais importante do que isso. “Existe, talvez, uma crítica social; entretanto ela é secundária”, disse ele, observando que não tem TV e frequentemente toma conhecimento das notícias do dia por Rodnyansky. “É mais um paralelo com o Livro de Jó e o que me deixa satisfeito é que o público no exterior realmente compreendeu isto.”

Tendo como pano de fundo o magnífica cenário da pequena cidade de Teriberka no Mar de Barents, ao norte do país, o filme foi rodado em 67 dias em 2013. Considerado uma grande produção pelos padrões do cinema russo, custou US$ 7,5 milhões. E o fato inesperado é que 35% do financiamento veio do governo russo.

“Não existe uma lógica absoluta, nunca”, disse Rodnyansky. “Num país complicado como a Rússia, com uma cultura e política peculiares, tudo é sempre imprevisível. Você não pode saber o que vai acontecer. Por isso preferimos obter aquilo que precisávamos.” 

Zvyagintsev, de 50 anos, nasceu em Novosibirsk, na Sibéria. Quando estudava arte dramática assistiu aos filmes de Al Pacino, Bobby Deerfield (Um Momento, Uma Vida) e Justice For All (Justiça para Todos), o que o inspirou a mudar-se para Moscou e se dedicar plenamente à profissão de ator na década de 80. E quando assistiu a L’Avventura (A Aventura), de Michelangelo Antonioni, nasceu o desejo de se tornar diretor.

Ele trabalhou alguns anos como porteiro e limpador de ruas, chegando a varrer a frente da casa em que morava o ator Andrey Smirnov, que mais tarde estrelaria Elena, filme de 2011. Zvyagintsev estreou na direção com o filme The Return (O Retorno), que conquistou o Leão de Ouro no Festival de Veneza em 2003. 

Foi quando rodava um curta-metragem para uma antologia de curtas New York, I Love You (Nova York, Eu Te Amo), que soube da história de Marvin John Heemeyer, um sujeito do Colorado que, em 2004, com um trator equipado demoliu vários prédios antes de se suicidar, por causa de uma briga de zoneamento.

Embora a história de Heemeyer o tenha inspirado inicialmente, o cineasta russo disse que “já tinha o roteiro concluído, já tinha ideia do que fazer”. E ele e seu coautor, Oleg Negin, decidiram que aquela história não se adequava bem ao temperamento russo.

“Decidimos que uma rebelião contra o poder, na Rússia, tem muito mais a ver com obediência e a paciência”, disse o cineasta. “O que é bem mais característico do temperamento russo. E é mais trágico.” 

O que começa como uma brincadeira de tiro ao alvo contra retratos de antigos líderes russos logo se transforma numa miscelânea de ressentimentos e repentinas revelações. 

“Esta é uma cena que deve ter ocorrido na vida real em muitos lugares”, disse Rodnyansky, referindo-se às pessoas comuns disparando contra seus antigos líderes. “Não foi um filme realizado como manifestação de um programa político. Tem a ver muito mais com essas pessoas que não confiam, não acreditam, que são muito descrentes e pessimistas. E é este o padrão de vida”, acrescentou Zvyagintsev. 

“De qualquer modo, são ataques injustos. Não se dirigem contra o alto escalão, e as pessoas não acreditam que podem influenciar os que estão no topo, então fazem esse tipo de coisa”, disse Rodnyansky. Mas, sob alguns aspectos, foi exatamente o que os cineastas fizeram, realizando um filme crítico da Rússia com um financiamento parcial do Estado que depois foi selecionado por uma comissão de cineastas para representar o país numa das mais prestigiadas premiações, o Oscar. 

E tudo isto mesmo com o ministro russo da Cultura, Vladimir Medinsly, afirmando, segundo algumas fontes, não ter gostado do filme.

“Basicamente tem muito a ver com a Rússia”, disse Rodnyansky. “O filme é considerado muito uma obra crítica, mas tem a marca de um diretor extremamente importante, que jamais fez alguma coisa política ou controversa e, por outro lado, contou com apoio governamental. É isto.”

“Nesta mesma linha de raciocínio, estamos lutando e jamais nos renderemos. É sempre na Rússia, você pode dizer. Isso é mau e piora as coisas ou você tenta fazer o que deve fazer ou que acredita ser importante fazer.”

O filme deve estrear na Rússia em fevereiro, mas com um circuito limitado por causa de uma recente lei proibindo a blasfêmia nas artes. Sobre como se sente com o fato de o seu filme ter sido indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, Zvyagintsev endireitou-se na cadeira e se permitiu um pequeno sorriso. “É uma agradável surpresa.” / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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