Letícia Spiller é a estrela de "A Paixão de Jacobina"

Fábio Barreto admite: faz cinemapara o grande público. Seu sonho é ver os espectadores fazendofilas para assistir a seus filmes. Mas isso não significa,segundo ele, que sejam puros (ou meros) entretenimentos. Achaque seus filmes, além de divertir e emocionar, oferecem matériapara reflexão. O caçula do clã Barreto está de volta e, de novo,ligado à temática gaúcha. Depois de O Quatrilho, com suahistória, adaptada do romance de José Clemente Pozenato, sobreuma troca de casais durante a colonização italiana do Rio Grandedo Sul, ele conta agora outra trama desenrolada durante acolonização alemã, também do Rio Grande. Não se trata de umahistória qualquer. O episódio que Barreto adaptou do romanceVideiras de Cristal, de Luiz Antônio Assis Brasil, trata dafigura messiânica de Jacobina Maurer e ficou conhecido comoCanudos do Sul. Talvez seja uma facilidade propor esse tipo desimplificação. Antônio Conselheiro, figura central de Canudos,era contra a República e pregava o retorno à monarquia. Seusseguidores (e ele próprio) foram massacrados numa ofensiva doExército republicano. O Exército também lançou suas forçascontra Jacobina, mas seu messianismo era mais religioso do quepolítico. A Paixão de Jacobina estréia nesta sexta-feira, em 34salas de São Paulo, capital e interior, e Paraná. No Rio Grandedo Sul e Santa Catarina, lançado com 43 cópias logo após oFestival de Gramado, em agosto, o filme fez 120 milespectadores. Barreto considera o número animador. OQuatrilho também abriu no Sul, para aproveitar a temáticaregional, e depois veio arregimentando público pelo País. Há 22 anos, com co-direção de Wolf Gauer, Jorge Bodanzkyfez um documentário-ficção intitulado Os Muckers. Eram osseguidores de Jacobina assim chamados - de santarrões - por seufanatismo religioso. Os Muckers era um filme de grande rigorcênico. Dispensava os efeitos e trazia, no papel de Jacobina,uma atriz gaúcha de muita força dramática, Marlise Saueressig.Barreto diz que gosta muito da versão de Bodanzky, masreservou-se o direito de fazer a dele. Ele põe Letícia Spillerno papel e aí começa toda a diferença. Ela fica ainda maisacentuada com Thiago Lacerda no papel do primo por quem Jacobinaé apaixonada - e com quem pratica adultério numa cena de rio,com uma cachoeira ao fundo. Por mais que Barreto diga que esse episódio é secundáriona trama, é muito possível que o público vá ver A Paixão deJacobina justamente por causa da dupla. Se o fizer, o filmeencontrará na tela grande um produto não muito diferentedaqueles a que pode assistir na TV. Barreto pode ter queridofazer um filme de grande espetáculo que incitasse à reflexão.Não conseguiu. A Paixão de Jacobina chegou a provocar risosdo público ao ser exibido, fora de concurso, no Festival deGramado. No domingo, o filme passa, também fora de concurso, noFestival do Rio BR 2002. Mas não se pode negar o esforço de Barreto. Ele teveassessoria de uma psicanalista para criar a personagem deJacobina, que define como a "psicótica histérica" perfeita.Montou, com a ajuda dos pais - Luiz Carlos e Lucy Barreto -, umaprodução bem acaba de R$ 8 milhões. Ela implica em certoscompromissos que o diretor defende, mas são dramaturgicamenteinsustentáveis - como um comercial da empresa fabricante decalçados Azaléia em plena colônia gaúcha, no século 19. Não sevia nada tão ridículo no cinema nacional desde que a Tieta deCacá Diegues, interpretada por Sônia Braga, gratuitamente faziaum saque no caixa eletrônico do banco patrocinador do filme. Alinha de defesa de Barreto é direta: "Fazer cinema sai caro e,para tornar a produção viável, a gente tem de fazer essascoisas." Diz, a título de defesa, que a cena é breve. Por breve que seja, o efeito não deixa de serdesastroso. Mas o Canudos do Sul, a bem da verdade, está nomesmo plano do Canudos de Sérgio Rezende, com sua romanescaScarlett O´Hara sertaneja (a personagem de Cláudia Abreu).Barreto, carioca de nascimento, ama o Rio Grande do Sul.Trabalha, atualmente, em mais dois projetos ´gaúchos´: outraadaptação de José Clemente Pozenato, sobre a colonizaçãoitaliana, e uma produção baseada em O Exército de Um HomemSó, de Moacir Sclyar. Ele não posa de intelectual contestador.Sua concepção de cinema privilegia o mainstream. É quase certoque vá submeter A Paixão de Jacobina à comissão que indicaráo candidato brasileiro ao Oscar. Sabe que terá uma disputaacirrada pela frente, se o fizer. Com mais de 1,2 milhão deespectadores e uma comissão de frente disposta a tecer loas asuas qualidades - e ainda a distribuidora Miramax nos EUA -,Cidade de Deus talvez tenha mais chance.Serviço - Paixão de Jacobina. Drama. Direção de Fábio Barreto.12 anos

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